Jogos entre empresas do mesmo segmento costumam ser pitorescos por aspectos próprios. Especialmente em municípios pequenos, onde todos os profissionais se conhecem, seja por um dia terem trabalhado ou estudado juntos. O jogo relatado nas próximas linhas tem um agravante considerável. Era um treino tático estilo rachão para a segunda rodada da Copa Papo Criativo, o maior campeonato entre agências de publicidade de Mato Grosso. E com um personagem emblemático: eu.
O amistoso entre FCS Bem Pensado e Mercatto quase foi cancelado. Uma forte chuva caiu sobre Cuiabá por volta de 19h. Ruas e avenidas da capital foram alagadas. Assim, muitos cancelaram a ida prevendo um campo sem condições de jogos. Os poucos corajosos que chegaram até o local marcado encontraram, pasmem, um campo em perfeito estado. A chuva que destruiu bairros de Cuiabá foi apenas uma marolinha naquela distante região do centro da cidade.
A mágica, senhores, começava a ganhar forma.
O jogo transcorreu normalmente. Porém, sem torcida e com os times desfalcados de dois jogadores cada, pois, como disse anteriormente, muitos desistiram da ida. Esses covardes, hoje, se arrependem. Pois nessa noite, nesse campo, nesse jogo, foi executada uma das cenas mais antológicas que os campos de várzea de Cuiabá viu nos últimos séculos. O lance todo ocorreu entre 21h46m12s e 21h46m19s. Foram sete segundos que eu, com meu brilhantismo, tomei a liberdade de narrar a vocês.
Aos 21h46m12s puxei um contra-ataque após adiantar a marcação no meio de campo. Aos 21h46m14s lancei na esquerda para Thiago Marques, que deixou a bola caprichosamente correr entre suas pernas e enquadrou o corpo. Aos 21h46m16s a marcação chegou para interceptar um possível cruzamento, enquanto eu corria como um polido em direção à área. Aos 21h46m17s o goleiro ainda não imaginava o que vinha a acontecer. Aos 21h46m18s Thiago cruzou, levantando leivas do gramado úmido e maltratado. Nesse mesmo momento eu já virei as costas para o gol e levantei o braço direito, indicando o movimento da jogada mais plástica e difícil do futebol. Aos 21h46m19s a bola estava na posição perfeita para eu consagrar a jogada criada por Leônidas da Silva, que, do céu escuro, sorriu para uma conclusão que desafiou as leis da física, da astronáutica, da gramática, da retórica e atingiu o ângulo do gol adversário.
Uma bicicleta. Um gol. A gloria.

É claro que tudo relatado acima é mentira. Bom, quase tudo. O jogo, a chuva e a bicicleta aconteceram. Só a conclusão que não foi tão certeira. Na verdade, não houve conclusão, mas uma grosseira furada de bola. Furada essa eternizada na crônica O dia em que Fagundes “bicicletou”, de Leandro Magalhães.
Ele estava lá. Ele viu. Azar o dele.
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Eu estava lá, eu ví. Azar o meu.


