Existem casos que parecem acontecer apenas no futebol mato-grossense. Se você se surpreendeu com a lavadeira de Rondonópolis (MT), prepara-se para ler o maior trote futebolístico dos últimos anos. O dia em que um cara se fez de salame para enganar trouxas que se diziam dirigentes de futebol. Foi aqui, a três quadras de onde escrevo esse post, no estádio Verdão, em Cuiabá.
O fato passou pelo ano de 2003, 2004, por aí. A direção do Mixto Esporte Clube procurava um técnico para comandar o time no Estadual e série C do Campeonato Brasileiro. Tal como um milagre divino, surgiu em terras pantaneiras o ex-jogador do São Paulo, Grêmio, Internacional e Vasco Vilson Taddei. O jovem treinador apresentou seu louvável histórico de jogador e ofereceu trabalho. Taddei, lembre-se, foi apontado por Tele Santana como “o melhor jogador com que já trabalhou”.
Pois bem. O contrato foi fechado e Taddei apresentado à torcida. Ganhou status de estrela. A imprensa fechou o cerco e fez uma série de entrevista – a maioria cara a cara, só pra constar. Taddei parecia a escolha certa. Homem de voz baixa, sereno, atendia telefonemas de jornalistas e não fazia muito alarde.
O primeiro treino foi marcante. O ex-jogador reuniu o elenco no centro de campo e ficou cerca de 15 minutos conversando. Fez treino físico e depois um coletivo. Nada surpreendente, não fosse a estranha prática de somente observar os treinos, sem interromper ou fazer instruções aos jogadores.
No dia seguinte Taddei surgiu com um chamativo chapéu. Não era um boné como do Muricy ou do Felipão, era um chapéu sombrero style mesmo. Mas tudo bem. Mais uma vez só observou o coletivo. Nem mesmo anotou qualquer coisa ou fez questão de organizar o time em campo. “Estilo europeu, moderno”, comentou um repórter da época.
A estréia no campeonato foi desastrosa. O time jogou mal, desentrosado e de modo amador. Era como se aquele grupo de jogadores fosse arranjado momentos antes da partida. Sem estrutura tática ou qualquer organização, o Mixto foi massacrado. E o trabalho de Taddei, excêntrico e europeu, começou a ser contestado. Principalmente depois da terceira derrota consecutiva e os treinos confusos.

Durante um treino, prestes a completar um mês no comando, o treinador teve a visita de toda a cúpula da direção Mixtense. Os dirigentes fizeram uma roda enquanto Taddei, de longe, apenas analisava um trabalho de conclusão a gol dos atletas. Quando os jogadores finalizaram e foram para os últimos exercícios físicos, Taddei foi cercado pelos cartolas. E recebeu um desafio: bater um pênalti.
- “Ensina para esses meninos como se bate um pênalti, Taddei”, sugeriu o então diretor de futebol do Mixto.
- “Hum. Tá legal”, concordou o treinador campeão brasileiro de 1981 pelo Grêmio. Sereno, como sempre.
Taddei tomou distancia. Observou a bola na marca do cal, colocou as mãos nas cinturas e arranjou tempo para colocar a camiseta dentro do short. O gol sem goleiro. Os jogadores, a imprensa e os ambulantes pararam afim de observar o modelo de profissional segundo Tele Santana. Cinco passos da marca. Partida, pé esquerdo atrás da bola para o chute e equilíbrio perfeito. Nem tanto.
Taddei caiu como um pêssego maduro. Ridículo. Olhando para o céu, observou o forte sol de uma tarde cuiabana tapado pela silhueta de cinco irritados dirigentes. Eles, por meio de um torcedor do Grêmio que visitava Cuiabá, haviam descoberto a farsa. Vilson Taddei não era, na verdade, Vilson Taddei. Era um Zé ninguém.
Esse senhor já havia treinado times do interior do Paraná e Mato Grosso do Sul, sempre aproveitando a leve semelhança com Vilson Taddei para se passar pelo ex-jogador. Assim como em Cuiabá, sempre foi desmascarado. Mas aqui ele atingiu um recorde: um mês de falso Vilson Taddei. Enganou um bando de amadores, tanto dirigentes quanto jornalistas.
Foi traído pelo pênalti. Saiu quase excomungado de Cuiabá. Sem dinheiro e sem vitorias. Mas com uma puta historia e, de quebra, rindo de um bando de amadores.
Em pleno 2003. Ou 2004, por aí.

¹ Acharam: o verdadeiro Vilson Taddei.
² E o malandrão? Nunca mais tive notícias. Cuidado. Ele pode estar no seu time.
Posts similares:
Estarão mortos os atacantes?
A maldição da lavadeira de Rondonópolis
Demitam o Dodô
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Parabéns pelo texto!
A história é duca!
=D
Amadorismo é pouco para estes dirigentes!
auhhuauha
dá p/ explicar quem é Ricci, que vc fala duas vezes nessa história ??????


