Histórias de Salim Nigri


Morreu ontem o gremista Salim Nigri. Ele sofreu um AVC no dia 18 de fevereiro e estava internado no Hospital de Clínicas. Era torcedor e conselheiro do Grêmio. Nigri foi o autor da frase: “Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio”. A frase depois foi adaptada por Lupicínio Rodrigues, que a usou no hino do clube.

Salim era um raro contador de histórias. Tanto que foi, também, personagem coluna de David Coimbra na Zero Hora. Ele relembrou algumas publicações em seu blog.

Até a pé nos iremos em francês

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, a professora Janete Sessim, da Aliança Francesa, recebeu uma curiosa ligação.

Uma voz grave e melodiosa, parecida com a do Lauro Quadros, lhe perguntou sem explicação prévia:

– A senhora é gremista?

Janete inflou o peito:

– Muito!

– Então a senhora vai fazer um trabalho por amor ao Grêmio – informou a voz, febril de confiança.

Quem ligava era o Salim Nigri.

Apresentou-lhe uma proposta intrigante: a professora teria de traduzir o Hino do Grêmio para o francês a fim de que fosse gravado em fita cassete e apresentado, na Copa, como uma autêntica composição gaulesa em homenagem ao Tricolor.

– Mas como o senhor vai fazer isso? – quis saber a professora.

– Aí a senhora deixe comigo.

Janete se pôs a trabalhar. Fez uma versão da composição de Lupicínio na língua de Balzac e Zinedine Zidane e ainda arranjou outro professor da Aliança Francesa, um pianista, para gravá-la. Enquanto isso, o Paulo Sant´Ana recebia uma curiosa ligação. Aquela voz maviosa, parecida com a do Lauro Quadros, propunha:

– O que tu achas de comprar em Paris um disco com o Hino do Grêmio em francês?

O Sant´Ana saltou:

– Supimpa!

– Pois é o que tu vais dizer no ar, na Gaúcha, quando estiveres lá na Copa – recomendou o Salim, começando a expor o plano.

O Sant´Ana, gaiato que é, ficou encantado com a idéia. Dias depois, já da França, ele ligou para a rádio a fim de fazer seu comentário matinal.

– Imagina que encontrei aqui em Paris um disco com o Hino do Grêmio em francês! – contou.

Rogério Mendelski, o apresentador da época, duvidou. O Sant´Ana, vitorioso:

– Pois então escute.

E colocou a gravação no ar:

– Même à pied nous iroooons…

Em casa, ao pé do rádio, o Salim comemorou com a mulher:

– Olha só, velha, o Grêmio é mesmo um sucesso mundial!

***

Quando o Papa abençoou o Grêmio

Na primeira partida das finais contra o São Paulo, em 1981, no Olímpico recém-concluído e regurgitante de torcedores, o Grêmio teve um pênalti a seu favor. O escalado para bater foi o centroavante Baltazar. Bateu. Errou. O Grêmio acabou vencendo por 2 a 1, dois gols de Paulo Isidoro.

Baltazar, ao sair de campo, conformou-se:

– Deus está reservando algo melhor pra mim.

Estava. No dia da final, 3 de maio, Baltazar recebeu a bola de Renato Sá, matou no peito e mandou no ângulo de Waldir Peres. O Grêmio era campeão brasileiro pela primeira vez.

O Salim Nigri jura que, no momento em que a bola tocou a medalhinha de Nossa Senhora que Baltazar levava no peito, nesse momento João Paulo II assinava, no Vaticano, a bênção papal conferida ao Grêmio.

Ontem, depois da eleição do novo papa, o Salim ligou, excitado:

– Alguém tem que fazer esse papa abençoar o Grêmio! Alguém tem que fazer isso!

Tem que. Mas também haveria de ter Baltazar, Paulo Isidoro, Renato Sá…

***

As luzes de Salim

Mal saído dos 20 anos, Salim Nigri começou a ficar cego. Não demorou muito para que seus olhos se apagassem para sempre. Mas hoje, aos 80 anos de idade, a vida de Salim é cheia de luz. Graças ao Grêmio. Salim passa o dia a ouvir as notícias de futebol nas emissoras de rádio.

Bem informado, planeja brincadeiras, ações de marketing e, claro, gozações com os colorados. Passa o dia a se divertir.

Salim teria todos os motivos para ser um desses tristes fanáticos que todos os dias enviam imeils mal-humorados para as redações de jornal, poderia ser um desses pobres de espírito que agridem outras pessoas ou que deixam seu dia azedar por causa de um mero jogo de futebol. Mas, não: o Salim é inteligente, criativo e vivaz.

Nunca odiou os colorados. Para ele, o Inter é adversário, não inimigo. O futebol seria muito mais saudável e muito mais bonito, se todos tivessem as luzes do Salim.

Aliás, depois da conquista do Inter, o Salim ligou:

– Então, o Inter é campeão da América?

– É…

– E antes do Inter, quem foi?

– O São Paulo.

– E antes do São Paulo?

– O Once Caldas.

– Ah, o Once Caldas foi campeão da América…

Um patrimônio gremista.



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Comentários:


Comentário de: FAbiow Medeiros

nao intendi o comentario final, sobre o once caldas =(

PermalinkPermalink 04.03.10 @ 02:21



Comentário de: Thiago · http://xpolenta.blogspot.com/

Grande Gremista! Aposto que não só eu, como qualquer outro gremista, se emociona lendo este texto...

PermalinkPermalink 05.03.10 @ 11:51



Comentário de: Gracielle Galvão · http://www.twitter.com/gracielle

Será que você é gremista? oO

Ótimo texto! Uma homenagem emocionante ao Salim, se a família ler este texto ficará, com certeza, lisonjeada.

Parabéns!

PermalinkPermalink 08.03.10 @ 09:54



Comentário de: Pedro De Silva · http://www.qualomehorgps.com

Na verdade, esta história é muito inspiradora, todos devem ter luzes como Salim.

PermalinkPermalink 28.07.11 @ 17:31



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Fred Fagundes
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