Felipe Neto começou o breve diálogo:
- Escreve sobre música.
- Mas dentro de qual conceito?
- Qualquer um.
- Qualquer um?
- Qualquer um. Mas sobre música.
E lá fui eu.

Um pedido de “escrever sobre música” parece tão vago quanto responder “estou com uns projetos” após perguntarem o que você está fazendo. Matutei. Relembrei artigos que tinham a ver com música e TV – Melhores Bandas Que Nunca Existiram; Dossiê Tommy e Ruas de Fogo. Não cheguei a lugar nenhum. E esse sentimento de fracasso me levou até onde eu precisava: outubro de 2001.
Naquele mês interpretei o papel de fracassado que eu tanto havia treinado durante a vida. O guitarrista Eric Clapton faria uma turnê no Brasil com show em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Esse então estudante secundarista, virgem e duro havia gastado todo seu dinheiro com as finais da Copa do Brasil. Logo, não tinha verba suficiente nem para o pior lugar da platéia.
Após uma conversa sobre o show com um pequeno grupo de colegas de aula – eram raros os estudantes de segundo grau que gostavam de Eric Clapton naquele colégio em Ipanema -, surgiu uma esperança. Certa amiga – que é blogueira e pediu para não ser identificada – chegou até minha carteira e falou que podia fazer a gente assistir o show. Na hora, juro, não entendi porque ela veio até aquele protótipo de Nerd.
Atração? Não. Pena? Talvez. Segundas intenções, afinal as provas de fim de ano estavam chegando e eu mandava bem em física? É, eu defendo essa hipótese.
O plano era o seguinte: ela morava – e ainda mora – próximo do estádio Olímpico, local do show. O prédio, de poucos andares, não tem apartamento na cobertura. Ou seja, é lá no topo do prédio que ficaríamos curtindo a música e, se déssemos sorte, um pedaço do palco ou da platéia.
Cheguei ao prédio pouco antes das 20h, como havíamos combinado. Ao subirmos no terraço fui surpreendido com o “capricho” dela para aquela situação: um edredom. E para falar a verdade, não precisávamos mais do que aquilo. Pois, ao sentarmos na parte plana e mais segura do concreto, vimos perfeitamente um dos telões que transmitia imagens do palco. O ponto, senhores, era perfeito.
Recordo-me que o show começou com Key to the Highway. O acordes frenéticos de Clapton nos pegaram de surpresa num momento em que, de olhos para o céu, refletíamos a vida, os sonhos, os medos e traumas de dois adolescentes diferentes da maioria. Entre risos, conversas, confissões e baseados, descobrimos semelhanças e segredos guardados até hoje. E quando lá pela metade do show, já altos, ouvimos Wonderful Tonight, o mundo parece ter parado.
E talvez realmente tenha. Pois, além de uma versão espetacular de Sunshine of Your Love, eu só me lembro de um por do sol que vocês também lembrariam.
E até hoje, quando me perguntam qual foi o melhor show da minha vida, respondo: foi do Eric Clapton em Porto Alegre. O melhor show da minha vida. Um show que eu não fui.

¹ Concurso Cultural: O Controle Remoto apresenta a R.Sigma e da prêmios.
² Dica: Botecagem.
³ Semana Grenal: Tenso.
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Cara, belo texto, ri, me emocionei e ainda fiquei lembrando dos meus 'shows no topo', aqueles momentos que marcaram e imaginando aqueles momentos que ainda vão marcar.
Tu é foda, genial.
Abraço
Quanto ao post, nenhum momento da vida de um nerd é tão cheio de glórias quanto a proximidade das provas no ensino médio hehehe.
mas e aí.
tu pegou?
Mto bom... parabéns...
Brincadeira, emoção assim é algo que você pode contar para filhos, netos e qualquer um próximo, como os leitores do seu blog.
Só dar uma encorpada na história, alguns lances de drama e fazer um curta-metragem.
Vai deixar a gente na curiosidade?
Tá certo que tudo indica que você pegou, mas o termo "protótipo de Nerd" nos leva a dúvidar que rolou algo!!!
Muito bom o texto!!!
Abraços!
Novamente um texto com todos os sentimentos envolvidos.
Quem nunca curtiu Eric Clapton batendo papo e fumando um baseado não sabe oq ue é bom.
Eu fui ao show aqui no Rio (Apoteose).
Infelizmente acho que nunca mais veremos ele por essas bandas.
Não é todo mundo que vai poder contar pros netos que pode ver ao vivo uma das maiores lendas da história da música.


