Um gol para Pepeta


Serra Nova da Prata está para uma cidade assim como o Luciano Sazfir está para um ator. O lugar é tão acanhado e insignificante que fica na divisa dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ou seja, quem nasce lá, o cidadão serra-novense, é um poucos dos dois. Em 1997, ano em que se passa o seguinte relato, a coisa era ainda mais precária.

Até aquele ano o maior acontecimento na cidade havia sido justamente a sua inauguração. Para comandar a festa, um emocionante sorteio da mega-sena com o caminhão da sorte da Caixa. Acumulou. Nem a quadra fizeram. Um presságio de que o futuro da jovem Serra Nova da Prata seria tão negro quanto a noite minutos antes do amanhecer. Assustador, não?

O Serrão, time amador formado por padeiros, mecânicos e funcionários públicos que moravam por aqueles lados era uma das glórias de seus habitantes. Campeão invicto do torneio da Prata em 1995 - três vitórias contra Cachoeira da Prata, São José da Prata e Prata do Sul -, o clube via-se agora classificado para, vejam só e não me perguntem como, o Amadorzão do Sul, grande competição que reunia 40 times do sul de MT. Baita honra.

Dirigentes correram em busca de reforços. Entre o pacote de jogadores, prometeram uma "cereja do bolo". Um craque. E ele veio. Cidade parada, mais de 2 mil pessoas foram até o trevo na BR, já que Serrão ainda não tem rodoviária. Banda, fogos, prefeito, recepção digna para um ex-jogador dos dois maiores times de Cuiabá. Cláudio Bidóca desceu do ônibus trajando uma camisa branca, bermuda e óculos escuros. "Vim para somar o grupo", dizia, modesto. Que jogador esse Bidóca.

A preparação começou, como de praxe, no aterro emprestado por um fazendeiro que também era patrocinador do time. Os jogos eram levados para uma cidade próxima que não me lembro o nome. No aterro, Bidóca começou a mostrar serviço. Era um monstro no treino. Fazia cinco, seis vinte e sete gols por coletivo. Garantiu titularidade, faixa de capitão, janelinha no ônibus, tudo, no primeiro treino. O time parecia irresistível com a chegada de Bidóca.

Dias antes do primeiro jogo, num tipo de confraternização dos atletas, Bidóca conheceu uma jovem nativa. Pâmela. Pâmela Cristina. Uma loira com pernas sem fim. A tensão sexual do primeiro cruzar de olhares dos dois causou uma blecaute em Serra Nova. O primeiro de sua história. Bidóca sentiu-se macho. Pâmela sentiu-se animal. Ambos rosnavam. E em público, uma pouca vergonha.

O casal logo ficou popular na cidade. Pâmela era vista nos treinos do Serrão, nos jogos e até deixava Bidóca na concentração. E, ao contrário do que todos temiam, aquilo só fazia bem para Bidóca. O jogador, que havia afundado e nunca mantido uma regularidade de bons jogos em outros clubes, parecia ter achado seu porto seguro. O Serrão não perdia e Bidóca só arrebentava. Sempre observado pelos olhos atentos de Pâmela, presente em toda campanha do Serrão. Que mulher essa Pâmela.

O time chegou na final do Amadorzão do Sul. Caso levasse o título, o Serrão conquistaria uma vaga para a seletiva da série C do Campeonato Mato-grossense. Só se falava nisso. O jogo estava marcado para um domingo às 16h, horário clássico das grandes pelejas de futebol. Todos os ingressos vendidos, garantia de 300 pessoas no estádio.

Na sexta-feira, quando todos jogadores já se encontravam no hotel para o início da concentração, Bidóca chegou sozinho. Isso era ruim. Abatido, com a camisa amassada, o atacante dispensou o truco e subiu direto para o quarto. Do saguão do hotel era possível ouvir os gritos de desespero e o choro de Bidóca. Berros de "desgraçada", "vadia" e questionamentos vazios eram claramente identificados. Pânico na concentração.

Na manhã seguinte Bidóca nem desceu para tomar o café. Tampouco almoçou. Foi acordado pouco antes das 15h pelo massagista. Entrou no ônibus e não quis papo. Não cantou pagode, não tocou pandeiro, não desejou nem ficar na janela. Apenas olhava para o nada exibindo uma expressão estranha de dor e, ao mesmo tempo, ódio. Aquilo era uma possível amostra do que seria o jogo para o Serrão.

Pois, já na partida, Bidóca não tocava na bola. Sua única chance clara de gol até ali havia sido um chute horrendo, ridículo. Caiu de bunda no chão, para gargalhadas de um pequeno contingente de torcedores do time adversário. Pequeno, mas ao mesmo tempo revelador. Estava lá, trajando o uniforme do inimigo, Pâmela. Sorridente. Irônica. Exasperava-se. E num momento crucial do jogo, os bons 30 do segundo tempo, Pâmela gritou:

- Arrebenta, Guigui.

O grito isolado fez eco no estádio. Até o batuque da Geral, sempre atenta, parou. Pâmela havia trocado Bidóca por Guigui, meia esquerda do Cachoeirense. Esse seria o motivo da tristeza e angústia do atacante do Serrão. Sua paixão, sua Pâmela, sua Pepeta havia o trocado por um meia esquerda de qualidade duvidosa. Cara, como eu odeio meias canhotos.

Acontece que o grito desconcentrou Guigui. Desconcentrou de tal forma que ele ficou sem saber o que fazer com a bola, parado, no circulo central. Bidóca parecia finalmente em campo e acordado. Aproveitou os poucos segundos de descuido do adversário, roubou a bola e partiu em contra-ataque. Fez fila, driblou os dois zagueiros e chutou seco. A bola bateu no travessão, na linha, no travessão de novo e, finalmente, entrou. Gol.

O estádio quase veio a cair. Serra Nova da Prata tinha um ídolo. E o Serrão foi campeão. E a torcida, ao mesmo tempo que comemorava, acusava Pamela de traidora, mercenária e vagabunda. E ela foi embora, envergonhada, cabisbaixa e arrependida. Não antes, ainda na arquibancada, de olhar para Bidóca e suplicar o seu perdão.

Lá embaixo, no campo, Bidóca apenas balançou a cabeça negativamente. E, feliz, sorriu.

¹ Inspirado no livro A Cantada Infalível (Ed Artes e Ofícios, 2003), do mestre David Coimbra.

Fred Fagundes



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Comentários:


Comentário de: Lucas Balduino

Excelente!
Muito difícil a tarefa de nos fazer, em tão poucas linhas, se "apaixonar"pelo ídolo e desprezar a "safada"da Pâmela, mas conseguiu!
Muito bom o texto. Valeu a pena ler até o final.


PermalinkPermalink 10.07.08 @ 17:55



Comentário de: Diego · http://festerblog.com

Ótimo texto! Bem feito pra traidora da Pâmela! hehehe! Abraço!


PermalinkPermalink 10.07.08 @ 20:39



Comentário de: Andre Loiola

Muito massa
kkkkkkk
Curti demais esssa


PermalinkPermalink 10.07.08 @ 21:08



Comentário de: Dorly Neto · http://www.capetalismo.org


No mundo existem muitas "Pâmelas", jogadores de futebol tem que tomar cuidado!


Excelente texto cara, cada dia melhor! Abraços!


PermalinkPermalink 10.07.08 @ 22:03



Comentário de: Rafael · http://www.rafabarbosa.com

Há males que vêm para o bem, já dizia alguém que não conheço…



abraço!


PermalinkPermalink 10.07.08 @ 23:25



Comentário de: vinícius · http://www.crazydshow.blogspot.com

demais!


maldita pamela. nada contra mulheres com alto gosto pelo sexo, mas isso foi trairagem.


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 02:09



Comentário de: Felipe

cara, muito bom mesmo!


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 09:04



Comentário de: Thiago Andrade · http://comediaoriental.blogspot.com

Excelente texto, pra vairia, tua criatividade, pelo modo de torna o texto dinamico, rápido e bom de ser lido, parabens fred!


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 09:18



Comentário de: Vinicius Cabral · http://bola18.com

Muito foda!



Sem mais…


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 09:27



Comentário de: joao~grando · http://joaogrando.wordpress.com

Não teve carreata de Kombi pela cidade?


"300 pessoas no estádio", "2 mil pessoas no trevo da BR"… acho que até o Luciano Szfair é muito, ao menos em termos populacionais/territorias.


E no fim, a pirigueti Pâmela ainda foi meio que responsável pelo título…



Dá para perceber a inspiração em David Coimbra, mas o texto em si tem carcaterísticas bem próprias.


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 09:37



Comentário de: Gracielle Galvão

Só homem que comentou aqui! Absurdo!


Tudo bem, tudo bem, tem menina que faz isso de verdade, mas os homens continuam fazendo mais e pior ainda.


Fred, vai ter que fazer um texto do contrario disso.


Rum! <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_wink.gif" alt=";)" />


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 09:57



Comentário de: Valdinei Santos - PR

Muito bom!! o texto nos leva a viver realmente as emoções do Bidóca.


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 11:32



Comentário de: José

como sempre: show de bola.


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 14:40



Comentário de: Gustavo

Mulheres, sempre elas! USAHuSAHsauhsauusAHusahSAUauSH


Brincadeira heim! ;D



Ótimo texto Fred, desse jeito você aparece na tv! <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_biggrin.gif" alt=":D" />


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 15:56



Comentário de: Boiadero · http://blogdoboiadero.wordpress.com

Quem quer saber de JB? o negocio é o tangerina… abraço e valeu pela visita no Blog do Boiadero.


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 17:36



Comentário de: Vinícius Manfio · http://blogdomaluco.blogspot.com

Cara, que bagual esse texto. O blog é tri legal também.

Uma narrativa muito bem feita, palavras bem colocadas, e uma história das mais interessantes.
Eu também, odeio meia canhoto.

Parabéns pelo blog. E adicionarei o teu aos meus favoritos do blog.

Abraço!


PermalinkPermalink 11.07.08 @ 23:30



Comentário de: Jairo Jair · http://www.rapidinhas.com.br

como sempre Fred traz um ótimo texto…


PermalinkPermalink 12.07.08 @ 11:44



Comentário de: Gui

Muito bom o texto, enquanto tava lendo achei que o texto lembrava um pouco os do David Coimbra, só depois fui ver que ele tinha sido mesmo uma influência, hehe.
Muito bom mesmo, como a maioria dos textos aqui.


PermalinkPermalink 12.07.08 @ 23:56



Comentário de: Evandro F. · http://lazer2.blogspot.com

já tive uma chuteir dessa rsrs


PermalinkPermalink 14.07.08 @ 12:36



Comentário de: kleber766 · http://www.centraldossitios.com.br

Por isso que eu digo, mulher não pensa, mulher trás cerveja, hehhehheheehe



Exelente texto,me prendeu até o final, fiquei com medo da vagabunda sair na boa, mais teve final vitorioso e feliz.


PermalinkPermalink 14.07.08 @ 13:02



Comentário de: Zeca · http://www.atetubrutos.blogspot.com

ba que massa esse texto cara
tambem gosto do trabalho do David Coimbra muito massa.
gosto muito de texto que envolvem futebol no meio adoro ler textos assim.

grande abraço


PermalinkPermalink 14.07.08 @ 14:25



Comentário de: Fabricio

Muito bom cara!
texto envolvente… tu eh um escritor foda


PermalinkPermalink 15.07.08 @ 15:38



Comentário de: Pedrita

Perfeito!!! Que Texto cara..
Muito talento pra um ser humano só.. kkkkkkkkkk
Grande bidoca.. Grande Fred. Atualmente o blog mais bem escrito da blogosfera!! Parabens mesmo!!


PermalinkPermalink 20.07.08 @ 22:55



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Fred Fagundes
23 comentários