Numa época em que video-games tinham no máximo 10 bits e as crianças só matavam aulas, haviam reuniões dançantes. O ritual rítmico resume-se em uma festa - ou baile - em que as meninas humilham os meninos de uma forma que jamais humilharão novamente. A sede do evento era normalmente a garagem de alguém ou o salão de festas do condomínio.
Não havia, tecnicamente, convite. Para ser aceito bastava levar um refrigerante ou comes, tipo salgadinhos. Essa divisão era feita antes da festa devido um acordo firmado em meados de 1970. Ficou decretado naquela época que as meninas devem levar, sempre, a comida. Aos meninos restava a bebida. Álcool, talvez, mas cuidado com a possível fiscalização de um pai passível a sogro. Se ele levasse a filha na marra, provavelmente as outras gurias fugiriam na cola.
A decoração do local não era assunto de muita importância. Um globo era luxo. As luzes coloridas eram na verdade lâmpadas simples enfeitadas com papel celofane vermelho, verde ou amarelo. Certa vez o Kombosa, grande Kombosa, descolou emprestado do irmão uma máquina de fumaça. O que era aquilo, mermão. Pirei. Geral pirou. A atmosfera do ambiente transpirava sedução.
Mas aquela era a noite do Pereirinha. Saca o Pereirinha? Bom, o Pereirinha era o ser mais azarados dos moicanos. Não aguentava mais ostentar esse nem um pouco honroso título. O jovem não havia passado da segunda base. É, a mão no seio. Se naquele tempo uma buzinada era guardada à sete chaves, hoje você encontra peitos pré-adolescentes com facilidade no Orkut.
Mas vamos ter foco. O Pereirinha tinha um problema. Um defeito que o perseguia desde o início da então curta vida. Ele não sabia dançar. E as meninas não gostavam de meninos que não sabiam dançar. Começava a reunião, era fatal. Pereirinha ficava sentado, de canto, chateado e deprimido enquanto observava as gurias e guris destruindo na pista de dança. Elas chamavam, mas ele não ia. Ele tinha vergonha.
Mas aquela noite seria diferente. Ah, seria.
Pereirinha não foi disposto a dançar. Foi disposto a tomar uma atitude. Sabe-se lá o que, mas ele prometeu pensar no caminho.
Não conseguiu. A festa comendo solta e o pobre Pereirinha lá, sentado, hora passando o dedo na borda do copo, hora enrolando a toalha da mesa. E azarado. O som tocava um new age contagiante. Mas o Pereirinha não curtia. Trenzinho da tequila. Não, obrigado. O pobre do Pereirinha tinha medo de arriscar qualquer detalhe que acusasse uma movimento levemente sincronizado com a música.
Lá pelas tantas ocorreu o momento crucial daquela noite que entraria para a história das reuniões dançantes. Todos estavam na pista de dança. Menos, eu disse menos duas pessoas. Sim, Pereirinha tinha companhia na falta de vontade de dançar. Era simplesmente Laura. Ah, a Laura. Como definí-la? Laura era desejada por todos os meninos e invejada por todas as meninas. Um a um, ela ia recusando quem a convidava para dançar.
Existem momentos em que um menino torna-se homem. Não é uma idade ou uma fase da vida. São momentos dispersos que ocorrem imediatamente e sem aviso prévio. Aconteceu com Pereirinha. Era aquela a sua hora de virar homem. Esqueça a timidez, o medo ou o sapato apertado. Era ele, a pista, e Laura. Pouco mais de seis metros. Ele a convidaria para dançar.

Pereirinha levantou da cadeira tal como uma onça com dor de dentes. A festa parou. "Ele caminha?", chegaram a perguntar. Após dois passos Pereirinha foi interrompido pelo Ferroni, um cara legal, mas não tanto quanto o Kombosa. Ferroni questionou a iniciativa de Pereirinha. Amigos tentaram evitar, sabiam que a humilhação poderia ser fatal para a vida sexual do pobre azarado que não sabia dançar.
Mas não tiveram chance. Pereirinha empurrou Ferroni e quem mais estivesse na frente e seguiu. Seus amigos alinharam-se frente às cadeiras dos meninos e, atonitos, só observavam. Pereirinha deu mais um passo. O quarto passo, faltavam uns seis. Quando estava na metade do quinto passo, um milagre. Algo diferente era emitido pelas caixas de som da festa:
"Don't go changing, trying to please me/You never let me down before…"
Era Barry White. Barry funking White. Aquilo pro Pereirinha foi como uma injeção de morfina pro Zico na Copa de 1986. Ele chegou a parar no meio da pista por um instante. Nada que um grito de "não pára agora, filho da puta" dos amigos - ah, os amigos - não o trouxesse de volta para a Terra.
"I don't imagine you're too familiar/And I don't see you anymore…"
Seis passos. Sete. Oito. Ih, ela olhou pra ele. Pereirinha tremeu, chegou a virar o corpo para mudar de direção. Seus amigos, em coro: "ohhhhh…". Mas era agora ou nunca. As apostam já davam 3/1 pro Pereirinha. Ninguém mais dançava. Todos queria saber como terminaria aquela investida.
"I wouldn't leave you in times of trouble/We never could have come this far"
Nove, dez passos. Ela olha no olhos dele. Cáspita, ela estava mais perto que imaginávamos. Foi aí que Pereirinha percebeu. Ele não havia pensando em nada para falar. Teve dez passos para pensar em algo inteligente mas não conseguiu. O que fazer? Perguntar as horas, onde fica o banheiro, o que ela achava do esquema 3-6-1 do Roth no Grêmio, qualquer coisa! Ele só não podia ficar parado, ali, com aquela cara de palerma enquanto o Barry cantava.
"I took the good times, I'll take the bad times/I'll take you just the way you are"
- Tu queres dançar?
Sabe quando ela ia aceitar? Nunca. Todos os meninos já haviam tentado. Porque ela ia aceitar dançar com ele? Ele, o Pereirinha. Gargalhadas no salão já davam como certo o vexame histórico do Pereirinha. Tolos. Tolos!
- Hum. E porque não dançaria?
A menina mais desejada do mundo naquele momento encontrava-se, enfim, nos braços de Pereirinha. Os amigos vibraram. Os invejosos não acreditavam. E as meninas começaram a achar Pereirinha uma graça.
"Don't go trying some new fashion/Don't change the color of your hair"
Com a cabeça de Laura perfeitamente posicionada em seu ombro, Pereirinha preferiu o silêncio. Dançou como nunca havia dançado antes. Nunca mesmo. Afundava seu nariz nos cabelos cheirosos e ruivos da parceira. Sorria bobo. Viu-se homem. E antes do final da terceira estrofe, teve uma revelação:
- Pereirinha, posso te contar um segredo?
- Claro.
- Eu adoro Barry White.
"I just want some someone to talk to/I want you just the way you are"
Mulheres bonitas podem ter bom gosto.
Logo, sempre tenha um CD do Barry White no seu carro. ![]()
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¹ Ouça aqui Just The Way You Are na voz inconfundível de Barry White.
² E até onde eu lembro, Pereirinha existiu. E essa história realmente aconteceu.
³ Outro grande sucesso das reuniões dançantes era Crying In The Rain, do A-ha.
Fred Fagundes
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Comentários:
Velho, aposto que ele virou fã número um do Barry White! Muito boa história!!!
Entra ae Fred.
Será que to certo?
^^
http://elfslair.blogspot.com/2008/07/batman-teoria-da-conspirao.html
Muito boa história!!!
sempre venho ao "quem matou a tangerina" o dossiê do de volta pro futuro foi fodástico… mas confesso que com a grande história do pereirinha com barry white de fundo, ah se meu ipod falasse!!!!
virou favorito!
Dá-lhe Pereirinha… Atitude linda!
Dá-lhe Pereirinha…²
Fred, você consegue me prender a cada texto seu, duvido que haja alguém que comece a ler e não queira terminar!
Você vai dar pra um bom escritor, escreve isso!
Hahaha!
Abraços
Só vou falar 2 coisas:
1 - Barry White, como alguns outros desta geração são INSUPERÁVEIS! ´Como eu queria ter vivido nos EUA nessa época! Só imagino estas festas que você descreveu do jeito americano….
2 - Você se supera! FODA! De verdade! Parabéns! Não sei porque você saiu do Jacaré Banguela, mas se foi pra escrever tudo isso que você tem feito! Bem vindo! Espero que nunca acabe!
Um grande abraço!
Daaaaaaaaaaalllle Barry!
Os posts aqui estão viciando! =D
ps; Inspirou um post do meu blog! (o último na verdade)
ps²; isso é um semi-trackback =P
Todo mundo já teve seu momento "Pereirinha". Excelente texto!
abraço!
Dá-lhe Pereirinha…³
e ta aí uma cronia à Luis Fernando Veríssimo… hauhauhauhau muito boa!
Ahhhhhhhhh Freddddd!! Tilindooo!! Vontade de achar um Pereirinha pra dancar ao som de Barry White que eu também adoro!
Perfeito texto! Amei! Parabéns mesmo! :-****
sou muito mais Never never gonna give you up, ah mas qualquer música cantada com a voz dele é sensacional!!
ótimo texto!!
Realmente não conheci Barry White… (nunca é tarde pra baixar uns sons, não é mesmo?)
Mas cara, a do A-HA também é super fodástica
até deu vontade de ouvir!

