Tive minha primeira oportunidade no colégio. Segundo ano do ensino complementar, um parceiro de truco disse que podia arranjar com facilidade. "É patati, patati, patatá. Tá aqui, tá na mão", afirmava ele num sotaque porto-alegrense absurdamente irritante. Senti medo, não queria arriscar. Quase todos na sala já haviam experimentado, eu não. Era um justo motivo de chacota. E eu não aguentava mais.
Terminei o segundo grau marcado por essa abstinência. Alguns chegaram a virar o rosto. Fui ameaçado e tudo mais. Na faculdade esperei encontrar um novo mundo. Deparei-me com o grande sucesso e repercussão que tal tinha entre os estudantes de comunicação. Nos intervalos, na lanchonete, nos corredores e, eu juro que vi, até em sala de aula.
Minha fama de nunca ter experimentado caiu como uma bomba no ambiente acadêmico. Estudantes de outros termos e cursos iam até minha sala ver "o rapaz que não conhecia". Virei um tipo de mito. Nunca recebi uma palavra de apoio, uma parabenização, uma saudação sequer. Não era justo, achava eu. Afinal, foi somente uma decisão, uma escolha que eu considerava altamente sensata, nada mais.
Acontece que o clima da universidade foi entrando em conflito com minha personalidade. A euforia das pessoas começava a me contagiar. Eu queria conhecer esse barato. Eu já não era mais um adolescente fácil de ser manipulado, oras. Podia muito bem experimentar e pular fora, como vários conseguiram. Vários não, alguns.
Sucumbi. Colhi informações de um lugar seguro para encontrar. Ouvi dizer que no campus da Universidade Federal é fácilmente comercializado. Foi na tarde fria da última sexta-feira que tive meu primeiro contato. Comprei de uma jovem magra, de roupas rasgadas, que dizia estar vendendo para pagar o curso de inglês. Não quis entrar em maiores detalhes. Paguei em notas pequenas, como pedia ele.
A viagem até minha casa foi longa. Do banco do passageiro parecia me encarar. Volta e meia o observava de canto de olho. Quem diria. Eu, orgulhoso confesso, iria ceder a pressão de um bando de viciados inconvenientes marxistas. Experimentei. Assim como um dia experimentei cerveja sem álcool, outro momento nem um pouco inóspito da minha vida e que não vem ao caso.
Foi exatamente na madrugada de sexta para sábado, por volta de 2h, que aconteceu. Não conseguia dormir sabendo da sua presença numa gaveta há poucos metros de distância. Consumi enquanto ouvia o disco Dark Side of the Moon, do Pink Floyd - dica de uma amiga que tinha experiência no assunto. Comecei aos poucos, tentando entender. Tudo muito lindo. Foi ficando cada vez mais incrível. Curti. Maior onda.
Vi sábado e domingo passarem e eu não largava. Tornei-me refém de meu maior medo no passado. Descobri quantos anos perdi sem conhecer essa sensação. Quantas amizades rompi, quantas discussões não participei, quantas portas não se abriram. Fraco, fui um fraco. Mal comecei e já me sinto melhor. Porém, quando largo, sinto que o mundo vai acabar. Trêmulo, ainda não falei com ninguém.
Sinto-me quase dependente.

Desde sexta-feira não consigo largar Hamlet, do Shakespeare. Estou na página 122, faltam poucas. Por isso leio devagar, pra não acabar de uma vez.
Sempre tive pavor dos clássicos, sempre. Oscar Wilde, Thomas More, Leon Tolstói, entre outros. É inexplicavel, sério, nem tente entender. Tal como uma droga, o meu respeito por esses escritores superou a admiração. Eles definitivamente me intimidavam.
Mas, depois de Shakespeare, estou começando a perder o medo. Pretendo experimentar outros. Quem sabe, assumir o vício.
Enfim, estou limpo.
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¹ O Wallace de Oliveira está dando os toques finais na produção do maior #nob (Nerds on Beer) da história.
² Um detalhe bacana do #nob: blogueiros vão comandar o som. Prometo tocar um set tão bom que vai ser quase um oit.
³ Dica da Thalita Braga: o blog dela.
Fred Fagundes
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Comentários:
Muito bom o texto. Eu também tive certa resistência com Shakespeare, mas por culpa de uma burrada minha, que foi ter pego Hamlet em inglês pra ler em uma época que meu inglês era meia-boca. Aliás, até hoje em dia esse é um livro complicado de ler no original. De qualquer forma, o cara é um gênio. Acho que Macbeth é meu favorito.
Tinha esse problema também, até que comecei o vício lendo algo considerado levinho pelos mais entendidos… "O retrato de Dorian Gray" - hoje mais assumida no meu vício estou lendo A Divina Comédia…. novamente.
^^
Mas essa droga te deixa corajoso com mulheres?
Vou começar com as drogas mais baratas e menos refinadas, estou lendo Paulo Coelho.
Que história é essa de #nob?
valew Fred, cada vez mais nos surpriendendo com a sua "incrivel" capacidade de nos prender a um texto, como você eu também não sou um "usuario" dos classicos, mais um dia esperimentarei. te+
Vai se ferrar Fred. E eu levando o texto a sério o tempo todo!
Com certeza você escreveu isso sofrendo efeitos da Marijuana e escutando Planet Hemp ![]()
Ai que susto! Que susto duas vezes!
Bem, Shakespeare é mesmo uma droga. Por vezes nauseante, por vezes perturbadora. Mas é mais anestésico. E é boooom. Leia mais, mas não leia muito. Não de uma vez. A overdose pode te deixar excessivamente romântico. Até os limites da cafonice. Ó, Romeu… ¬¬'
Depois… olha, o blog não é meu. É meu e da Ana. E nem merece ser citado aqui, mas gente! É só uma coisa muuuuuuuito experimental, nem merece crédito. É dubitável, sabe? Mas obrigada. Pela amizade e por tudo mais! Obrigada mesmo!
É sempre um amigo que te leva para o caminho das trevas. Nesse caso, da luz. Ainda não li Hamlet, mas se você diz que é bom e não consegue largar, quer dizer que o bagulho é realmente do bom!
Se não for pedir muito, depois dá uma passada lá no meu blog!
Te linkei lá!
abraço!
Coincidências existem… acabei de ler um texto do Mazzeo que me lembrou muito o seu.
REHAB:
http://bloglog.globo.com/brunomazzeo/
Um abraço!
WTF???
Pensei que eram drogas… aeuheuheu
Muito bom o texto, e a história, interessante como sempre!
ôrra, pensei que fossem drogas!
eu tb pensei…
paulo coelho, pra mim, é uma droga. hahaha não gosto.. raras exceções.
stephen king é o cara!
Fred,
O QMT será indicado, ainda hoje, pelo Criativo de Galochas para as cinco capas inesquecíveis.
Este meme é para quem gosta de mulher! Acesse e confira.
http://criativodegalochas.blogspot.com
Abs
Marcus, Criativo de Galochas
http://criativodegalochas.blogspot.com
http://picapaubrazil.blogspot.com
http://speedracergobrazil.blogspot.com
aee ó, dpois fica doidão e não sabe pq. Cuidado com drogas mais pesadas
tu ainda vai ser o david coimbra..
mas com a malemolência de um semi-nerd..
por sinal.. ele te conhece??
A festa vai cruzar os oceanos!!!!!! Twitagem frenética! Vamos derrubar o twitter!!!!!
abraços fera!
cheguei a pensar que era maconha… mas fiquei com o pé atras… hauhauhauua
Tinha esse medo tbm dos clássicos, qdo lí Machado de assis, Memórias Póstumas (detalhe durante o ensino médio, era obrigado a ler, graças a Deus eu não li, pois com 14 anos não teria a compreensão q tive depois e talvez odiaria, um gênio da literatura mundial)
Na 1ª frase do livro me apaixonei. " Não sei se eu sou um autor defunto, ou um defunto autor".
Depois experimentei tbm: Ernest Hemingway, Shaskespeare e hj estou totalmente dependente.
Coincidentemente estou começando no shakespeare também! Mas estou lendo Sonhos de uma noite de verão… Complexo ao extremo mais perfeitamente escrito!!
Da pra achar todas obras dele para download livre no site http://www.dominiopublico.gov.br
Achei um barato!!!
Leitura leve e divertida. Vc deveria se ver pelos olhos dos leitores. Tao bom quanto os que vc tinha receio de ler.


