no Taco. Talvez eu tenha sido a maior promessa do taquismo amador matogrossense nos últimos 30 anos. Ao lado de meu leal parceiro Cebeve - sigla para Cabelo de Boneca Velha -, tive uma louvável carreira de 137 partidas, sendo 133 vitórias, três cancelamentos devido a bolinha perdida e uma única derrota. A mais dolorosa e sofrível derrota desde o Maracanazo.
Você deve estar se perguntando: como diabos ele sabe esses números? Eu explico. O Taco era levado muito a sério naquela época. Depois do futebol de botão, Taco era o jogo chefe. Tinhamos campeonatos mensais, com medalha, troféu, um caderno oficial de regras e até uma pequena federação. Os tacos deviam estar dentro da norma pre-estabelecida, com pontas numa inclinação de 40 graus, que é a inclinação exata para um taco de Taco.
O meu taco tinha nome: matilde. Eu e a matilde fizemos história. Eu era um daqueles caras sortudos. Mandava bem na sinuca, boliche, truco, pingue-pongue, pembolim, saca? Mas no Taco eu era um monstro. Tinha uma tacada incomparável, daquelas que a bolinha saia riscando o chão e gritando "ziiiiiiiiiiiium" antes de destuir a casinha em forma de lata de azeite. Cataplof! Ouvia-se a duas quadras de distância: cataplof!
Certa vez, num jogo especial de fim de ano, dei uma tacada tão violenta que, ao raspar o chão, fez-se uma faísca. Foi a primeira vez na história que o impacto de madeira com terra resultou no quarto elemento. Uma faísca tão grande que seguramente explodiria um posto de gasolina caso houvesse algum dentro de um raio de 100 metros.
Que taco era aquele, a matilde.

Em junho de 1998 sediamos o Centro Oeste de Taco, com jogadores de Goiás, Brasília e Mato Grosso do Sul. Eu e Cebevê tinhamos a vaga automática pela título de campeões estaduais do ano interior. O prêmio: vaga para o Campeonato Nacional de Taco, em São Paulo. O negócio era pra valer. O bixo ia pegar. A cobra ia fumar. E outras figuras de linguagem do gênero.
No primeiro jogo passamos com facilidade pelos co-irmãos sul matogrossenses. Praça lotada, mais de 150 espectadores. Depois patrolamos Brasília, outra dupla de MS e outra do DF. Estávamos na final com a última dupla de Goiânia: os irmãos Luque e Kempes. Não dessem certo no Taco, certamente iam enveredar para a música sertaneja.
A decisáo começou com atraso. Os inimigos entraram com tacos fora do padrão, ocos, recusados pela comissão arbitrária. Rapidamente os eliminados de MS se apresentarem para emprestar o taco. Traíras. A famosa catimba goiania começava a dar suas caras.
Jogo truncado. Estavamos no desempate, com eu e Cebevê no ataque. Logo na primeira oportunidade matilde mostrou para que veio. Uma paulada, daquelas que mostram em slow motion a bolinha ficando quatro vezes menor. Um tiro de tresoitão certeiro. O destino da esfera seria, sei lá, a lua, tamanho foi a paulada. Mas Kempes esticou-se de forma assustadora e efetuou a ponte, fazendo uma interceptação absolutamente fenomenal. Perdemos o taco.

Era eu o responsável pelo primeiro arremesso. Rodeado de torcedores, senti que não podia falhar. Eu, mesmo não sendo dessa terra, era a última esperança. Não podia perder. Não, não desta vez. Não para uma dupla de Goiás. Não para uma dupla de Goiás com nomes argentinos. Não para uma dupla de Goiás com nomes argentinos que tinham o patrocínio do Zezé di Camargo no uniforme.
Deferi meu arremesso com a concentração de um jogador porto riquenho de baseball. Forte, seco, com direção. Mas surgiu no caminho o taco sul-matogrossense naturalizado goiano. E lá se foi a nossa vaga no nacional. Até hoje não se tem notícias daquela bolinha que, creio eu, deve orbitar em paz à volta da Terra.
Defino esta derrota como um exemplo da síndrome brasileira de favoritismo. Não sabemos ser. Eu estava invicto até aquele dia, jogava em casa com apoio de centenas. Mas perdi. Assim como perdemos as Copas do Mundo de 1998 e 2006, onde eramos favoritos. Assim como Daiane dos Santos tropeçou nos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004.
Somos azarões por natureza. Exemplos não faltam, como na Copa de 1994 e 2002, pra ficarmos só no futebol. Talvez essa classificação suada para 2010 seja melhor do que uma com folga. A soberba afeta o ego de forma involuntária e negativa. Não existe motivação maior para um esportista do que a desconfiança de seu torcedor. Excesso de otimismo só atrapalha.
Eu e matilde sabemos.
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¹ O pessoal do Sedentário divulgou um site que extrai somente o áudio de vídeos do Youtube. Útil.
² O blog Anti-Sociais quer saber: Qual a importância?
³ Já acessou a fêmea do Exú hoje?
Fred Fagundes
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Comentários:
Muito boa a história, diria que, emocionante!
Parabéns Fred!
Flw!
Aqui no sul também era levado a sério, mas não a níveis profissionais assim. Não era um exímio jogador, como tu, mas com uma tacada que dividiu uma bolinha em dois, consegui respeito entre os jogadores, hehehehe.
Pensei, inclusive, na época do pan-americano, já que o COB incluiu patinação artística nos jogos, se haveria a possibilidade de incluir esportes tipicamente brasileiros, como Taco, "Button Soccer", bocha, bolita e tampi-cross. Ia ser legal ver o Galvão Bueno narrando uma partida dessas. Hehehe!
Aqui na minha cidade chamamos este jogo de "Betia". A molecada joga na rua… é muito divertido. Lendo isso eu lembrei de minha infância, ia pra escola cedo e a tarde fica brincado na rua, jogava betia, descia as ladeiras com carrinho de rolemã, soltava pipa, etc. Minha mão brigava comigo pois eu não para em casa… Que tempo bom que não volta mais!
Aqui no PR, chamavamos de "Bets" ou ainda de "Bete-ombro". Bons tempos.
Hahaha, joguei um pouco disso há muitos tempos atrás… Mas era uma negação.
o/
Realmente emocionante, vc tem o dom de prender a atenção de qualquer um em um texto,mesmo sem nunca ter jogado o "taco", quando estava lendo a história me lembrei dos campeonatos de futebol de "rua" entre os bairros da cidade, bons tempos, boas brincadeiras, valeu Fred.
Pois é o nosso bom e velho "Bete", como chamamos aqui em Brasília. E até nos hoje nos reunimos pra jogar aos sábados.
este jogo foi o motivo de eu conhecer uma delegacia por dentro, explico, girei o taco com tanta força escapuliu da minha mão e acertou um carro, parado á 10 metros de distância, trinta anos depois ainda sou motivo de gozação aqui no bairro.
ps: nunca vi um jogo de beti ser tão bem narrado como o seu parabens.
putz, jogar Taco era muito loko!! pena eu não ter jogado tanto qt eu gostaria…!
hahahahahha
Perfeito! Aqui no Rio é mais comum usar garrafas com dois dedos d´água. Saudosas tardes de Taco…
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Muito bom esse post! Continue assim!
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A tabela fica linda, perfeita, dourada, com o Grêmio na ponta!!!!!!!!!!!!!!
Dá-lhe Grêmio!
Realmente, essa semana foi AZUL. =]
Saudações tricolores.
PS.: E vamo que vamo pra cima deles nesse domingo.
Beeeets… Tacooo..
que Post..
confesso, deu vontade de chorar..
uhauhauhuhaa
òtimo Texto!!
aqui no RS eu jog quase todo dia taco ou mas nunca chegamos a seu porte, só fizemos jogos pra se divertir e tomar um coca depois do jogo hehehehehe hoje mesmo fiz um taco aqui em casa e o batizei de Kurtidos hehehehe realmente o jogo de taco é muito legal !
E DALGE GREMIOOO !!!!
abraços a todos.
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