Cantada em acróstico


Até onde vai sua coragem? O pronunciado linguístico capaz de transmitir um desejo, seja ele real ou apenas um reflexo do seu estado alcoólico, é uma pratica antiguíssima que separa os homens machos dos homens comuns. Sim, estamos falando da cantada. O ato de esquecer tudo que há em volta e expor-se ao ridículo da negativa ou gloria da reciprocidade. A linha tênue entra a fantasia realizada e desespero de um amor perdido pela impaciência e... medo. Ah, o medo. Medo? Sim. Cantada é sinônimo de fraqueza. Pelo menos algumas.

Raros são os casos de cantadas perfeitas. Os que discutem e listam cantadas infalíveis são os mesmos Dons Juan do futuro do pretérito condicional. Ou seja, aqueles sujeitos que dizem o que fariam e nada fazem. Apóiam-se nesses poucos segundos de fraqueza transformada em motivação, sabe-se lá porque, para agir. Agem de maneira errada, sem entender que, antes de atingi-la, é preciso conhecer a sua meta. E, acima de tudo, estar apaixonado por esse ideal. O sonho nos motiva, posiciona e, principalmente, influencia no momento certo de abrir a boca.

Eu não tenho nada contra as cantadas, muito pelo contrario. São as pequenas cantadas que formam a maior de todas as declarações. Um bilhete de bom dia na mesa, um sms inesperado no meio da reunião ou um tímido bom dia, essas atitudes costumam ser o começo da maior de todas as cantadas. Muitas vezes funcionam. O encantamento é gradual, principalmente com duas pessoas que pouco se conhecem.

Ter cuidado em assuntos como esse é essencial. Mas, para evitar um erro, a insegurança não deve sobressair. Qual é o momento certo para falar é algo que nunca saberemos, mas sim sentiremos. Seja com um frio na espinha, um sorriso que te faz rir, um olhar que esquenta seu peito, são essas sensações inexplicáveis que devem ser tratados como ponto de partida para as palavras e reações que traduzem um “não preciso de mais nada nesse mundo” onde metade de você é amor.

A outra, traduzida no brilho dos olhos ou na espontaneidade de um abraço ou beijo roubado, acredite, também será.



Fred Fagundes
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O dia que a Sandy me bolinou


Essa é uma história real postada no Jacaré Banguela em 2007. Não há testemunhas, imagens ou marcas corporais que comprovem o fato. Apenas a palavra de um blogueiro que se viu num dos momentos mais palpáveis de sua curta e insignificante existência.

Eu vi Sandy Lima. De perto, o possível para sentir o seu perfume. E admito a quem desejar ler: a Sandy de vestido cinza decotado exibe certo olhar de afronta. O fato aconteceu foi na festa para os indicados do VMB de 2007. Foi após a premiação que descobri o instinto insano dessa jovem que um dia jurou ser virgem.

No local haviam bares. Quase uma dezena deles. Estava eu encostado num desses bebendo algo que vou fingir dizer não lembrar o que era. A música alta e boa. Um certo cansaço me fizeram ficar parado naquele ponto por um instante. Glorioso seja o instante. Pois, ela , a filha de Chitãozinho e Xororó, se aproximou. Disse ao barman, com confiança em sua voz de leite condensado caramelizado, com flocos crocantes e chocolate Nestlé:

- Uísque. Puro.

Bom, aí fique imobilizado. Respeito uma mulher que bebe uísque. E se ela bebe uísque, usa vestido e aqueles saltos, se ela tem todas essas credenciais, coisas estranhas me turvam os olhos. Mas não por muito tempo. Não ali. Eu Precisava dizer algo. E disse:

- Vodka. Pura.

Ela, ao meu lado esquerdo, não virou os olhos em minha direção. Não, esse tipo de mulher não faz isso. Apenas levantou o queixo, de tal forma que ficasse clara a sensação de um arrepio que teria corrido sua espinha. O barman percebeu. O cantor percebeu. Rafael Carvalho, Calixto Neto e Guilherme Piraja, quem nem foram à festa, perceberam.

Sandy pegou o copo com uísque, passou o dedo indicador na borda, virou-se agora inteira para mim. Primeiro o ombro esquerdo, depois o resto do colo, exibindo generoso decote. Observou meu copo, mordeu o lábio inferior, olhou pela primeira vez para o centro dos meus olhos. Nesse momento todo mundo olhava Sandy dar um passo a frente, passar a mão esquerda por volta de minha cintura, posicionar o queixo sobre meu ombro e dizer sedutoramente:

- Odeio gelo.

Disse isso seguido de uma apalpada na porção musculosa esquerda da parte dorsal traseira do meu tronco, como se estivesse fazendo uma recepção no handebol. Apalpou. Bolinou. Tirou uma casquinha. Uma barbaridade explicitamente pornográfica.

E ela se foi com seu uísque caubói. Desfilando de costas nuas e uma estranha e debochada expressão satisfatória.

A festa não mudou. Mas meu conceito sobre bebidas, gelo e mulheres virgens nunca mais foi o mesmo.

Fred Fagundes
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15 anos em 10


10 coisas que aprendi com 10 anos de idade.

1. O futebol às vezes é cruel.
2. A guria mais bonita da sala sempre será a mais insuportável.
3. Waterworld é o melhor filme de todos os tempos.
4. Você era apaixonado pela sua melhor amiga o tempo todo.
5. Ela era apaixonada por você também.
6. Seu pai estava sempre certo. Ou pelo menos em 90% das situações.
7. Amor é mais complicado que nos filmes.
8. Comer brigadeiro quente, tomar coca-cola e ir jogar bola no sol não é um bom negocio.
9. Bons amigos são aqueles que trocam a festa junina da escola para passar o dia jogando video-game com você, doente por ter comido brigadeiro quente, tomado coca-cola e jogado bola no sol.
10. Ninguém vai conseguir fazer um jogo mais animal que Street Fighter.

10 coisas que aprendi com 15 anos de idade.

1. O futebol sempre é cruel, assim como o treinador que escala o Junior Baiano de titular na Copa do Mundo.
2. Os papeis mudam: as gurias bonitas do colégio ficam com os caras insuportáveis.
3. Waterworld não é tão bom assim.
4. A guria que você é apaixonado vira sua melhor amiga.
5. A sua melhor amiga arruma um namorado e você morre de ciúmes.
6. Seu pai continua certo, mas com uma queda de 5 pontos percentuais para mais ou para menos.
7. Amor não mata.
8. Beber para ficar bêbado e chegar ao colégio segunda-feira dizendo que entrou em coma alcoólico no final de semana não é lá muito atraente.
9. Bons amigos não são aqueles que surgem para separar a briga, mas sim os que chegam na voadora.
10. Eu sou o melhor jogador do mundo de Street Fighter.

10 coisas que aprendi com 20 anos de idade.

1. Vejo sinais de calvície devido o futebol.
2. Os caras vazios e insignificantes continuam pegando mais mulheres, mas nós somos mais espertos.
3. Waterworld é uma bosta.
4. Aquela gordinha rejeitada na infância virou uma gata bem sucedida.
5. Ela era apaixonada por você. Otário.
6. Seu pai já começa a ouvir seus conselhos.
7. Amor não existe.
8. Trabalhar de ressaca é para os campeões.
9. Bons amigos são aqueles que, quando sua namorada liga perguntando sobre seu sumiço na noite passa, dizem que você dormiu na casa deles.
10. Emulador de Snes para jogar Street Fighter no trabalho é uma das grandes invenções da humanidade.

10 coisas que aprendi com 25 anos de idade.

1. O futebol é a coisa mais importante de todas as menos importantes do mundo. Ou até mais do que isso.
2. A colega de trabalho gostosa e burra sempre vai ganhar mais que você.
3. Kevin Costner é o MadMax dos mares.
4. Você acordar pelado e com ressaca ao lado da sua melhor amiga nunca é mal negocio.
5. Ela não costuma achar o mesmo.
6. Seu pai segue seus bons conselhos adquiridos a partir de tudo que ele ensinou pra você.
7. O amor trata-se de um sentimento que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.
8. Um homem não vive sem problemas. E beber é a melhor forma de esquecer um problema e começar outro.
9. Se aqueles amigos que trocaram a festa pela noitada de vídeo-game na infância continuam ao seu lado, agradeça. Você tem os melhores amigos do mundo.
10. Ninguém mesmo vai conseguir fazer um jogo melhor que Street-Fighter. Chame seus amigos e aproveite.

Fred Fagundes
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Al Green e David Gilmour together


Três e quarenta e sete da manhã. Nesse momento, quando escrevo o quê do quando são três e quarenta e sete da manhã. Acordei com um telefone desesperado, meio terrorista, com uma voz atônita e surpresa do outro lado da linha.

- "Cara, cara... Te acordei?" Bruno Fanzeres, 25 anos, carioca, palmeirense e criado em Mato Grosso.- "Não. To dormindo ainda. Pode falar."

- "Acharam ele. Acharam o Al Green, mano. Tem um vídeo dele no Youtube."

- "Tem vários."

- "Mas esse é novo. Al Green mandando Let's Stay Together ao vivo mês passado num programa inglês. Full hd 1080 dpi do negão. E mais: com David Gilmour na guitarra", disse, possivelmente com os olhos emaranhados e acendendo outro cigarro.

Parecia, mas não era trote. Al Green e David Gilmour juntos, uma das mistura mais imprevisíveis que a musica podia imaginar. E sem a hipocrisia de um show beneficente. Apenas fazendo um som no programa do Jonathan Ross, popular comdiante inglês. Um David Frost sem grife.

Assisti o vídeo. É visível que a voz do reverendo Al Green não é mais a mesma. Mas o conjunto presença de palco, carisma e, principalmente, tempo de música parece ter somente melhorado com o tempo. É emocionante ver a felicidade do Al Green frente ao microfone. A participação do público após o segundo pedindo também é de arrepiar.

Já o mestre Gilmour, apesar de não demonstrar um guitarwise lá muito surpreendente, fez bem o seu papel. Não chamou para si toda a atenção e acompanhou a banda. Tal como um gentleman.

Al Green e David Gilmour. Let's Stay Together. Surge um novo clássico no Youtube.

Fred Fagundes
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Arquétipo do trem


É engraçado ver como algumas coisas simples da vida podem mudar, inclusive, o conceito de seus argumentos. Eu, já há alguns anos, digo que com argumentos qualquer merda é aceita. Mudo de opinião. Mudo na mesma velocidade como mudo de desejo, paixão ou medo de errar. Um argumento só é forte quando ele gerado para rir o riso ao seu contentamento. Ou seja, quando é visando o bem para ambos.

John Nash, que introduziu o conceito de equilíbrio na teoria dos jogos, foi brilhante. Disse ele que o grupo só sai vitorioso se o individuo agir visando o melhor para ele e para o grupo. Na vida, por mais que necessitamos de momentos de egoísmo, o grupo deve estar sempre em primeiro plano.

Alguns dizem: “não me arrependo do que fiz. Só me arrependo do que não fiz”. Bobagem. Esse é o cumulo do orgulho. Eu me arrependo de muitos erros. De todos os erros, inclusive. Mas o mais questionável, o que mais me enchem o saco, é o fato de pensar no outro antes de pensar em si.

Hoje, sóbrio de orgulho e de alma, vejo que sempre pensei no macro. Dane-se eu. Quero ver os que estão ao meu redor bem. E isso, automaticamente, me faz bem. Inocente como um poema de quinta serie. Mas deprimente como uma bossa-nova.

Sendo assim, nada paga a reciprocidade da valorização.

Ninguém disse que a vida há de ser fácil. Muito menos que, mesmo difícil, ela seja ruim. O amor só é bom se doer.

Hoje eu sorri.

Fred Fagundes
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