05.12.08

Morreu hoje, dia 5 de dezembro de 2008, em Curitiba, Valêncio Xavier, escritor, cineasta, criador. Figura incomparável da cultura brasileira. Valêncio junta-se a Manoel Carlos Karam, morto no ano passado, e a Jamil Snege, que partiu alguns anos atrás, no panteão de Grandes Curitibanos que nos deixaram recentemente. Sem ele a cidade está mais pobre, mais cinza, mais triste. Fica, claro, sua grande obra, mas desaparece o provocador, o gênio, uma daquelas figuras que não vieram ao mundo para entendê-lo, mas para transformá-lo.
Tive um contato bem próximo com Valêncio quando trabalhava na Gazeta do Povo. O jornal editava uma coleção especial sobre os 310 anos da cidade. Pedi a ele, na época já colaborador eventual do diário, um texto sobre o tema "a cidade do futuro". Dias depois ele apareceu na redação com um disquete. O texto não fazia qualquer sentido. Era um amontoado de frases desconexas e uma coleção de lugares-comuns. Pensei que, de verdade, faltava a mim capacidade para compreender seu estilo único. Consultei o José Carlos Fernandes, então editor-executivo do caderno de cultura, que confirmou que há muito tempo o Valêncio não escrevia como antes. Voltei para o computador com a vergonhosa tarefa de editar aquele texto e deixá-lo palatável para o leitor médio do jornal. Era o meu trabalho. Mas que trabalho ingrato. Achava que o Valêncio riria de mim quando visse aquilo publicado. E talvez tenha rido mesmo. Se riu, o fez com justiça.
O ano era 2003. Hoje descubro, no texto de Irinêo Netto, que Valêncio foi diagnosticado com o mal de Alzheimer em 2002. Não posso dizer o quanto a doença pode tê-lo afetado naqueles anos em que ainda freqüentava a redação. Que Valêncio ria disso de onde estiver.
Alguns anos mais tarde, tive a chance de mediar um debate nas Livrarias Curitiba em que participaram Daniel Pellizzari, Daniel Galera, Paulo Sandrini e Valêncio. Havia um mote qualquer de discussão, tipo "A nova literatura", que não foi levado a sério por nenhum dos participantes. Por uma questão prosaica, "respeito aos mais velhos", fiz com que Valêncio falasse por último. Ele sacou do bolso um papel amassado e disse algo como "Bom, vou falar sobre autores importantes pra mim", e começou a ler uma lista que ia de A a Z dos cânones da literatura e do cinema e mais um par de gente que eu não conhecia. Aquilo durou uns 10 minutos. Os convidados e a platéia em silêncio. Terminada a lista ele agradeceu a oportunidade e meteu o papel no bolso. Não disse muito mais que aquilo o resto da tarde.
No fim dos anos 90, eu e o amigo Luiz Andrioli estávamos em vias de formatura. Para algum trabalho da faculdade, fomos entrevistar Valêncio. Lamento não ter mais essa gravação comigo, era digna de ir para o arquivo do Museu da Imagem e do Som. Foi uma das coisas mais sensacionais que ouvi. No fim de tudo ele contou um causo:
"Uma vez estava andando e tive uma idéia genial para o fim de um livro. Imediatamente anotei aquilo num papel e guardei no bolso. Voltei pra casa pensando 'Porra, isso é fantástico. Depois disso todo mundo vai dizer que o Valêncio é genial, vão me dar um prêmio, vai ser uma coisa maravilhosa'. Só que cheguei em casa e troquei de roupa, e o bilhete se perdeu. Fiquei dias procurando em tudo que era lugar o bilhete com o final mais genial para aquela história. Mas não encontrei. Não lembrava mais o que era. Terminei a história com um final medíocre e ninguém nunca disse nada sobre ela".
Descanse em paz, Valêncio.
25.03.08
Alô mamãe. Até o dia 30 de março estou aportado no Terra cobrindo o Festival de Curitiba. Apareeeeçam!
17.09.07
Nesta quinta-feira medio o encontro entre Ram Devineni e Ademir Assunção pelo Impressões Pan-americanas - Literatura e Arte nas Américas, promovido pela Fundação Cultural de Curitiba com curadoria de Paulo Sandrini. Como diz o reclame: Apareeeeeçam!.
10.08.07
Sofria tanto de writer's block
que cada crônica
eram 100 metros com barreira
11.05.07
E o multi-homem Czarnobai aka Cardoso retorna às nossas caixas postais divulgando versão brazo-portoalegrense da Pecha Kucha Night. Para saber do que se trata, melhor clicar duma vez no link.
Um drops que representa a complexidade do evento: uma pessoa ou um grupo de pessoas projeta, num tempo total de 6'40", um total de 20 imagens. Quaisquer imagens. Acompanhadas de quaisquer sons, barulhos ou silêncio. Cada imagem só pode ser projetada durante 20". Findas 14 exposições, o evento está terminado.
A Pecha Kucha é, portanto, um happening, um evento cultural, uma manifestação artística propriamente dita. Numa definição mais simples e grosseira, uma FORMA DE EXPRESSÃO (o caps é inspirado pelo Cardoso).
E como a gente anda carente de se expressar, não? Num mundo em que blogs são criados aos milhares a cada minuto, em que aparelhos portáteis carregam produtos culturais que definem nossas personalidades, a sensação é de que precisamos lutar para nos destacar da multidão. Não é uma questão de fama, mas de auto-estima. Expressar-se é uma forma de existir num mundo tão vasto e infamiliar.
Leio uma notícia sobre o lançamento do novo livro de Christopher Buckley - autor de Obrigado por Fumar -, Boomsday. A legenda da foto atribui uma declaração a ele: "Os jovens deveriam largar seus iPods e expressar sua revolta contra um sistema que os asfixiará". Ele está falando da crise da previdência social americana.
Outras notícias falam da estréia do filme Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, adaptação do livro homônimo do Frei Betto. Mais um filme sobre a ditadura. É justo. A atual geração de cineastas, autores, artistas brasileiros está expurgando suas memórias do período. Sinto que ainda não há filmes sobre os expurgos da minha geração. O que minha (nossa?) geração precisa expurgar? Michael Jackson, Cometa Halley, Sarney, a abertura do mercado interno para importações?
Não é preciso encontrar respostas para isso. Não agora. Elas aparecem naturalmente. Você pode cruzar com elas em blogs, na Pecha Kucha, no cinema, no Fórum Mundial Social. Não importa. São experiências individuais, mesmo que realizadas no coletivo.
Talvez, então, o que precisemos expurgar seja exatamente isso: o excesso do individualismo exacerbado da nossa geração.
Pandorga pode ser uma pipa, uma música descompassada, uma mulher incrivelmente obesa ou uma pantufa. Mas, aqui entre nós, Pandorga é o blog de Ricardo Sabbag, jornalista curitibano, sagitariano (com ascendente na Casa do Chapéu), amante das coisas boas e belas do mundo literário, cinematográfico, político, tecnológico, sensorial e artístico em que vivemos.