22.07.08

Historinha paranaense e lição de moral propriamente dita

Há algumas semanas o setor de Comunicação Social do governo do Paraná deflagrou uma campanha, que poderíamos apelidar de “Censura, não!”, que reúne em seu site de notícias depoimentos de personalidades diversas – a maioria de políticos do partido do governador, o PMDB – criticando a determinação judicial que impede o governador Roberto Requião de achincalhar adversários, imprensa e outras instituições na TV Educativa do estado, que todas as terças exibe ao vivo “para toda a América Latina”, se você acredita, o programa “Escola de Governo”, reunião semanal do governador com secretários de estado, demais lideranças, aspones e puxa-sacos em geral.

Desde o início das transmissões, lá por 2002, Requião sempre esteve à vontade para bater em quem quisesse. Não só durante a Escolinha, diga-se. As intervenções do governador na programação da TV estatal são comuns e feitas de variadas formas. Desde a veiculação de boletins virulentos – sob a forma de letterings frente a uma tela azul – até depoimentos gravados em que o governador é o protagonista do recado. Isso sem falar nas aparições durante a programação jornalística da TV – que segue o governador em todas as suas ações pelo estado e até fora do país.

Há alguns meses – não há rigor jornalístico algum aqui – Requião subiu o tom do discurso contra o Ministério Público, motivado, se não me engano, por ações que visavam comabter o nepotismo no governo estadual – mirando especificamente os irmãos governador, o então secretário da Educação, Maurício, e o superintendente dos Portos de Paranaguá e Antonina, Eduardo. A metralhadora do governador atingiu muita gente boa (seu contra-ataque falava em “abrir a caixa preta” das aposentadorias do órgão). Pouco depois foi expedida a ordem judicial que proíbe o governador de bater nos adversários, sob pena de multa de R$ 200 mil para cada bravata desferida.

A medida fez com que o Requião arrefecesse os ânimos na “Terça Insana”, e desde então foi só choradeira contra a “censura”. A cada vez que o governador era acometido pelo ímpeto de lascar a lenha num desafeto, a razão lhe falava mais alto e tudo o que ele fazia era lamuriar contra a ordem do juízo.

Até que a Justiça resolveu lhe multar retroativamente a um impropério bradado em março último. Nenhum dos piores, anote-se. Mas a canetada significou 200 mil pratas a menos no bolso do gov – que não foram ainda pagas, porque à coisa toda cabe recurso etc e tal. E aí a maionese desandou. Se mesmo “contido” o governador foi multado, de que adiantava segurar a onda sobre o que pensa de tudo e de todos? Requião mandou a decisão do Judiciário às favas e voltou a detonar quem ou o que melhor lhe conviesse na TV pública. “Multem à vontade, mas meu silêncio não vão conseguir”, disse.

E foi mais ou menos nessa hora que a Comunicação do governo entrou em ação, colhendo depoimentos contra a “censura” – como o mais recente, do senador José Sarney – imposta ao governador. Além de políticos, compõem a lista alguns jornalistas (talvez aqueles não se enquadrem nos limites da “imprensa canalha”, a qual o governador gosta de espezinhar, hmmm).

Rotulada de “censura”, a questão ganha facilmente o apoio de entidades civis e personalidades. A estratégia é vitimizar o governador e relembrar os anos de chumbo. A decisão – que, certa ou errada, foi tomada sob a égide dos usos que o governo faz da TV estatal –, então, passa a ser completamente antipática. “Indo de encontro ao Estado de Direito Democrático brasileiro”, clamariam alguns. Como a relação entre o governador e a imprensa local é terra arrasada, os depoimentos não ganham repercussão alguma além do sítio oficial do governo. E vamos em frente.

Ao mesmo tempo (literalmente), o governador emplaca o irmão no cargo de conselheiro do Tribunal de Contas, vitalício. Sim, o Tribunal que julga as contas do estado. Hmmm. E ganha apoios até inesperados, como do próprio presidente da Assembléia Legislativa (de partido que, em tese, é oposição ao governo, DEM), que, ao menor sinal de tentativa de impedimento judicial da posse do caçula, é o primeiro a questionar formalmente qualquer medida que impeça o trabalho do novo membro da côrte. Questionamentos, aliás, que costumam ser atendidos com assombrosa rapidez por desembargadores do Tribunal de Justiça do estado (a tal “censura” foi imposta por tribunal federal).

É bastante provável que, se você, estimado e improvável leitor, não tiver qualquer ligação particular ou afetiva com o Paraná, esteja bocejando ao saber dessa lenga-lenga irritante. Realmente não é coisa para se dar importância para além dos muros da província. Só trouxe o tema a tona para tratar de uma questão mais específica, que talvez seja efetivamente compartilhada por toda a nação: Por favor, vamos parar com o moralismo. Vamos abandonar qualquer idéia de que aquilo (aquilo!) que acontece na esfera pública que fingimos nos causar espanto é “errado” e que o “certo” está do lado de cá. Vamos combinar que, se o “certo” existir, não é desse lado do quintal que ele mora. Não somos depositários de moral alguma. Somos, em essência, imorais. E, por imorais, não temos moral alguma (opa) para criticar a imoralidade alheia. Aliás, nesse jogo não há alheios. Somos definitivamente farinha do mesmo saco.

20.11.07

Direção oposta

A coisa mais comum que se ouve depois de um confronto entre polícia e torcedores de futebol é o chavão "imagens lamentáveis". Caso da briga da última sexta-feira depois do jogo Coritiba x Marília, pela penúltima rodada da Série B.

Caso é que não há muito mais o que se fazer além de lamentar, mesmo. Ou se lamenta, ou não se vai ao estádio.

O problema do conflito entre as partes não é simplesmente da torcida vândala e provocativa ou da polícia violenta. Porque as imagens mostram que é óbvio que houve violência policial. Como é óbvio que só houve aquela reação por conta de alguma ação detonadora. Policiais não saem feridos à toa.

A solução desse problema passa necessariamente pelo fortalecimento de instituições que poderiam controlar a gratuidade das ações policiais, como a corregedoria da polícia ou o Ministério Público.

Mas isso, é claro, ainda está muito distante da realidade brasileira. Somos, afinal, o povo que suporta a maior carga tributária do mundo. Mas vamos levando, porque é da nossa natureza. Assim como vamos levando a violência policial e o caos aéreo, por exemplo.

Então o que temos que fazer depois daquela mini-barbárie é somente lamentar.

Inútil caçar bruxas nessas horas. A maioria dos torcedores, mesmo de cabeça quente, não tem interesse em confrontar um policial montado num cavalo e munido de cacetete e fuzil. E também os policiais, especialmente os que não compõem tropas de choque, não têm vontade de enfrentar uma turba enfurecida de 40 mil pessoas.

Mas é responsabilidade da polícia reprimir o vandalismo e manifestações violentas. E não se pode esperar que façam isso na base da conversa e do tapinha nas costas.

Certa vez, quando repórter de polícia, questionei um coronel da PM a respeito de imagens iguais às do pós-jogo de sexta, que mostravam policiais chegando a um local e distribuindo cacetadas em qualquer um que viam.

A resposta dele foi: "O cidadão de bem, nessas horas, precisa ir na direção oposta do confronto. O policial não entra no meio de uma briga para perguntar o que cada um está fazendo ali".

Sigamos na direção oposta, então.

27.07.07

80’s nostalgya

Mary-Louise Parker

Transformers, Thundercats, Armação Ilimitada. Até estúpidos reality shows do A&E estão apelando para a nostalgia dos anos 80 – ressuscitando Corey Feldman e Corey Haim juntos (você os viu em algum especial do E! sobre astros adolescentes que se entregaram à cocaína). Não tinha como ser diferente. Se você, como eu, passou sua infância nessa década, essa é a hora do mercado de entretenimento lhe render homenagens. Não se sinta grande coisa por isso. É que você virou adulto e se tornou um consumidor de respeito. Eles só querem o seu dinheiro, garoto. E você quer voltar um pouco à sua infância.

A mim, essa forçação de barra em cima dos anos 80 só faz com que me sinta mais velho. Os Coreys faziam sentido nas Sessões da Tarde, de tardes deitadas no sofá velho da sala de casa, com a lição de casa postergada para 10 minutos antes dos pais chegarem. Hoje sou um dono de casa gordo com poucas horas do dia disponíveis para o entretenimento. Assistir a um show com dois atores fracassados que estão presos ao sonho do forever young não faz com que eu me sinta melhor ou volte à infância. É só uma constatação de que o tempo passa.

Se bem que não é triste que o tempo passe. É até bom. Não se diz por aí que tem coisas que só o tempo cura? Imagine o drama de se viver preso a um momento único. Se fôssemos eternamente crianças, nunca poderíamos dirigir, casar, fazer sexo regularmente, ter filhos, viajar para os destinos que quiséssemos.

Yadda, yadda, fato é que a nostalgia dos 80 (que óbvio, já foi dos 70, 60, 50 e logo será dos 90 e 2000) não passa de falta de criatividade. Posso até imaginar a cara de exclamação de um produtor de tevê anunciando a outro a idéia de ressuscitar os Coreys. “Todos vão adorar. São os 80s de volta!”. Não vão, não são. Alguém me passa o carimbo do “Isso não vai dar certo”? Próximo.

Ilustrando este post está a atriz Mary-Louise Parker, que estrela a terceira temporada da série Weeds (Showtime/GNT). Mary-Louise não tem nada a ver com os anos 80. Prestes a completar 43 anos, ela bem que poderia ter sido uma estrela jovem dos 80, mas só apareceu mais em filmes dos 90, mesmo (candidata a Molly Ringwald da próxima década?). Só postei sua foto aqui porque, ao me deparar com esse anúncio da re-estréia da série, lembrei que ela é uma das top five mulheres de Rob Fleming, de Alta Fidelidade. Como eu, você e outros oito em dez marmanjos se indentificam com a obra do Hornby, fica a dica.

11.06.07

Será o Google a nova bolha?

Em 1999 Artur Xexéo escreveu uma crônica que reclamava do sem-número de colegas jornalistas que despediam-se dos jornais e ingressavam em HOME-PAGES, SAITES e PORTAIS DA INTERNETE, dáblio dáblio dáblio, emeio, dáunloud. "Estou no Tutopia, e você?". "Eu fui chamado pela AOL". Eram os diálogos regados a uísque em festas de Ipanema. Xexéo, amargurado, dizia que ficara para trás. Que ainda era do tempo da imprensa impressa, dos tipos e das rotativas. Era o capitão de uma nau prestes a naufragar.

Três anos mais tarde a bolha estourou, a festa acabou, a luz apagou e voltamos nós à triste vaca fria.

Mas foram só mais três anos para a banda larga virar brincadeira de criança e o Google transformar-se numa companhia mais rica e importante do que Coca-Cola e GE, como exemplo.

Hoje quem quer ficar rico deve pensar em inventar alguma coisa para a tal web 2.0, 3.0, 16 válvulas, injeção eletrônica ou qualquer coisa. Nas festas de Ipanema você ouve: "Criei um software que permite que você faça upload de vídeos direto do seu celular para o YouTube". Como uma mãe de um país subdesenvolvido deseja que seu filho seja adotado por Angelina Jolie e Brad Pitt, você deseja que sua galinha dos ovos de ouro seja abocanhada pelo Google em troca de alguns mirréis de dólares.

Vocês amantes da tecnologia que me desculpem, mas não acredito nisso. Simplesmente acho que vai dar errado. Ou o Google vira o Big Brother ou ele explode como a nova bolha, vomitando sobre nossas cabeças esses milhares de serviços obsoletos por definição.

***

Pense comigo: quem realmente precisa de buscadores de fotos, de programas que mostrem a imagem de uma rua dentro de um mapa ou de planilhas compartilháveis? (a onda agora é conteúdo offline, hehe)

Acho que antigamente as coisas que existiam - as que eram inventadas e se tornavam palpáveis, populares, como a tevê em cores e o motor refrigerado a água - só existiam porque passavam por um teste de NECESSIDADE. Isto é realmente necessário à nossa existência? Em caso afirmativo, permaneça. Do contrário, rode.

Hoje a UTILIDADE parece ter sido substituída pela USABILIDADE. Tudo já foi inventado. Se você não conhece, este é um problema do departamento de marketing. Se você conhece mas não sabe para que serve, você é um burro.

***

Eu, que já me considerei muito antenado, ando com saudades do barulho do modem de 28800, das BBS, dos joguinhos madrugueiros do L.O.R.D. (Legend of the Red Dragon, conheceu?) - quando internet era coisa de notívago, porque telefone de dia era muito caro. Alguém mais?

São 10 anos desde a idade da pedra da internet caseira. Deve haver alguma eqüação física que demonstre isso: algo que mude tão rápido em 10 anos não pode ser perene!

OK, você pode falar em convergência, em gadgets que são mais importantes que guarda-chuvas e cadarços. Mas estamos falando de coisas que não têm história, que não têm histórico, que não são DEMANDADAS por toda la gente.

Mas vamos ficar por aqui. Este é um problema para os filósofos. Os de verdade. Aqui a gente só palpita.

22.05.07

Precisamos de uma nova palavra para 'cunhado'

Responda depressa: como você chama o cônjuge do seu irmão?

Se você disse "cunhado", bem-vindo ao meu problema léxico: Esta pessoa não é seu cunhado.

(Parêntesis necessário: Essa discussão "faz sentido" na minha casa e com os meus vizinhos. Talvez em outros lugares do Brasil não se chame o cônjuge do irmão de cunhado e este problema resuma-se a uma idiossincrasia local. Enfrentei isso certa vez que escrevi sobre 'a vingança do pipoqueiro'. Nesse caso, desculpe-me e passe para o item seguinte)

No dicionário, a definição de cunhado é a seguinte: "Irmão ou irmã do cônjuge em relação ao sujeito".

O dicionário não explica qual o adjetivo familiar para o cônjuge do seu irmão ou irmã (ele explica, no máximo, o que é um concunhado, que vem a ser o cônjuge do irmão de seu cônjuge [o cunhado de fato]).

Daí que convencionamos chamar este tal também de cunhado, numa livre associação. Se Fulano é meu cunhado, sou cunhado de Fulano.

A língua é mutante e não podemos ignorar que uma palavra ganhe novos significados ao longo de seu uso cotidiano. Mas a utilização de "cunhado" para descrever o cônjuge do seu irmão provoca uma confusão vocabular. Se essa livre associação torna-se regra, ela elimina a necessidade de outras palavras de uso corrente.

Como no exemplo: Se Beltrano é meu sogro, sou sogro de Beltrano.

E eliminaríamos a palavra "genro", empobrecendo nosso vocabulário.

Então fica aqui lançada a campanha. Precisamos de uma nova palavra para "cunhado" (mas não o cunhado de fato, e sim o cunhado por livre associação). Neologistas, agora é com vocês.

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