25.03.08
Alô mamãe. Até o dia 30 de março estou aportado no Terra cobrindo o Festival de Curitiba. Apareeeeçam!
11.03.08

Não consigo entender porque, depois de um crime bárbaro como o assassinato da Pró-Reitora da Universidade Federal do Paraná Maria Benigna, a única reação social que se vê é a promoção de mais um "manifesto pela paz" em praça pública.
Óbvio que o pacifismo - como "filosofia de vida", vamos dizer assim - é uma alternativa mais civilizada que o belicismo. Não podemos esperar que o cidadão de bem vá às armas para vingar qualquer ato violento. Mas essa reação do tipo vamos-nos-vestir-de-branco-e-dar-as-mãos-contra-a-violência é tão inócua que soa quase como ofensa aos parentes das vítimas.
E vítimas somos todos nós, ao menos em potencial. Maria Benigna foi assassinada porque bandidos a seguiram depois que ela sacou R$ 4 mil de um banco na Rua Augusto Stresser, em Curitiba, no bairro Jardim Social, um dos mais ricos da cidade. É um lugar que está longe de parecer perigoso.
A coisa toda aconteceu perto das 13h30. Eu próprio freqüento as agências bancárias dessa rua nesse horário. Não seria exagero dizer que poderia ser eu no lugar dela. Logo, me sinto como vítima em potencial desse crime.
Mas nós brasileiros, cordiais que somos (é da nossa essência), conseguimos no máximo, depois de tal barbaridade, vestir camisetas com a pomba da paz e pedir "basta!".
É tão absurda nossa relação de complacência com a violência urbana que vestir camisetas brancas é o máximo que conseguimos fazer como resposta. Damos um grito no vazio, na esperança de que alguma autoridade o ouça e se comova com aquilo, e logo voltamos para nossos afazeres. Se um dos assassinos de Maria Benigna aparecesse no manifesto pela paz, poderíamos atirar nele uma margarida branca. Seria um gesto de nossa revolta contra o crime que ele cometeu. Ele poderia voltar para casa e refletir sobre a natureza de seus atos.
Ainda em Curitiba, o delegado da Polícia Federal que prendeu Juan Carlos Abadía assume uma recém-criada secretaria antidrogas do município. Sua primeira atitude no cargo: convocar voluntários de ONGs para distribuir panfletos sobre prevenção de drogas em show na Pedreira Paulo Leminski.
Acho que o delegado Francischini não assistiu Os Intocáveis. Se tivesse, talvez lembrasse da cena em que o personagem de Sean Connery ensina a Eliot Ness como prender de verdade os contrabandistas. Basta ir aos lugares certo. Todo mundo sabe onde eles estão. É a mesma coisa com o tráfico. Todo mundo sabe onde encontrar traficantes (quer uma dica? Fique dando bobeira nos bares em frente à PUC). Mas melhor é distribuir panfletos. Assim quem sabe eles se conscientizam dos males que provocam e deixam de besteira.
Não se pode esperar que o chefe da polícia, o secretário da segurança, o ministro da Justiça ou quem quer que seja erga-se de sua confortável poltrona e, de uma hora para outra, resolva o problema da violência urbana com apenas "vontade política". Porque essas figuras representam meramente o anseio da sociedade sobre esses temas. E nossa vontade, ao presenciar tais crimes bárbaros, é sair às ruas vestindo camisetas brancas. É mais ou menos o que eles fazem quando, ao comentar a "questão" da violência, responsabilizam uns aos outros ou, na falta de um culpado com a arma do crime na mão, se voltam contra nossa herança colonial. É o bode expiatório portuga.
E nessa toada seguimos nós com nossa cordialidade, nosso pacifismo. Se um dia acontecer com você ou com alguém de sua família, não se preocupe. Lá estaremos nós em vigília silenciosa zelando pela tranqüilidade de seu espírito. E basta de violência.
Pandorga pode ser uma pipa, uma música descompassada, uma mulher incrivelmente obesa ou uma pantufa. Mas, aqui entre nós, Pandorga é o blog de Ricardo Sabbag, jornalista curitibano, sagitariano (com ascendente na Casa do Chapéu), amante das coisas boas e belas do mundo literário, cinematográfico, político, tecnológico, sensorial e artístico em que vivemos.