19.07.07
É fácil entender porque, depois de uma tragédia horrível como a do vôo 3054 - mais assombrosa porque estúpida -, se procure com tanta força e imediatismo um responsável, um culpado.
É o nosso senso de justiça falando mais alto. Não à toa a noção de Justiça eficiente seja igual a de Justiça rápida. A punição rigorosa, exemplar e rápida é a única coisa que amaina o desespero.
Nessas horas, preferimos não ouvir a voz da razão (não confundir com a dos governantes) que clama por cautela e parcimônia. Da noite para o dia, nos investimos de especialistas no assunto e logo apontamos os dedos e procuramos soluções: foi a pista, foi o piloto, foi a companhia, foi o apagão aéreo.
Declarações contraditórias aparecem e nós escolhemos aquelas que parecem mais razoáveis ao nosso entendimento. Logo você tem uma teoria e o vizinho tem outra. Mas a "resposta" quem fornece são os competentes (competentes?).
Cada um tem o direito de defender sua opinião, entenda de grooving ou não. Lanço aqui a minha, tentando não fingir conhecimento sobre coisas que nunca estudei ou vi.
O aeroporto de Congonhas é o mais movimentado do Brasil, seja ele seguro ou inseguro, crítico ou não. Ele também é encravado no meio de São Paulo, a maior cidade do Brasil, com a cabeceira da pista a poucos metros da rua. Ponto.
Por mais que as condições de segurança fossem as mais altas possíveis - a pista estivesse em perfeita ordem; não houvesse sobrecarga no uso; pilotos, controladores e aeroportuários estivessem desestressados e ganhando bem -, ainda assim estaríamos sujeitos a falhas humanas e mecânicas. Sempre.
Se a estatística aponta que a cada X anos acontece algum desastre aéreo - mesmo que esse seja o tipo de transporte mais seguro do mundo -, é de se supor que seja menos catastrófico que um avião caia sobre áreas desabitadas do que num edifício, após atravessar uma avenida.
Boa parte do supermovimento de Congonhas acontece porque as companhias aéreas concentram ali sua atividade. Para ir a qualquer destino do Brasil é preciso passar por Congonhas.
Ora, me parece perfeitamente possível que aeroportos como Guarulhos ou Viracopos façam esse papel - tornem-se referência de conexões e escalas entre destinos Norte/Sul. Se a vantagem de Congonhas é sua localização, então que o movimento ali seja limitado a quem precisa embarcar ou desembarcar no meio de São Paulo.
Interessante notar que nenhuma autoridade, até agora, apontou uma solução factível para o problema de Congonhas. Fala-se em cifras assustadoras, em falta de atendimento à massa de passageiros, dificuldades mil. Mas esse é o custo de se tomar uma decisão importante, não?
É isso ou preparar o discurso de condolências para os próximos desastres. Qual o custo menor?
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