17.04.07
Para quem vive ou para quem passa uns dias em Curitiba há um mote constante que define a cidade: “qualidade de vida”.

É preciso separar o quinhão de propaganda vazia que essa expressão carrega. O termo foi usado à exaustão por políticos e muitos curitibanos, decerto por antipatia, viraram caçadores do slogan, argumentando, com toda correção, que a capital paranaense também é apinhada de miséria e violência, como a maioria das grandes cidades brasileiras.
Mas “qualidade de vida” não significa assepsia, ausência de mendicância e imunidade a desastres naturais. Para mim, o termo está mais ligado à tranqüilidade que algumas áreas da cidade emanam, a cortesia da maior parte da população (ao contrário do que reza o estereótipo da cidade fria e grosseira) e ao funcionamento razoável de alguns serviços públicos – que, ao menos em comparação com outras capitais brasileiras, funcionam com mais eficiência.
A cidade quer ser grande e caminha para isso, mas ainda guarda certos aspectos interioranos, que já se fundiram à sua personalidade. Metade da população da capital paranaense é composta por gente que nasceu em outros lugares, atraída pela tal “qualidade de vida” ou pelas indústrias que recentemente se instalaram na região. Resultado: Curitiba pode ser cosmopolita e provinciana ao mesmo tempo – depende do referencial. Renderia uma guia no SimplesCidade.
Motivado pela série inciada pelo Ian, listo aqui cinco coisas legais para se fazer em Curitiba, independente de se ser ou não turista. Parafraseando o amigo, a lista serve para quem quer estar muito vivo. E que lembra que a vida é boa e cheia de possibilidades.
Flanar no
BOSQUE ALEMÃO
(Jardim Schaffer)

Não daria para começar por outro lugar que não um dos pontos turísticos clássicos da cidade. O Bosque Alemão é uma das paradas da Linha Turismo, jardineira que leva os gringos para conhecer os cartões postais da cidade. Em Curitiba, cada uma das etnias formadoras da população tem o seu ponto turístico próprio (os italianos têm um bairro inteiro – Santa Felicidade). O meu preferido é o dos alemães. Lá, o mais legal é chegar por volta das 16h, passear pelo caminho de João e Maria e sentar num dos bancos ao redor da réplica da Catedral de Bach para ver o povo passar e ouvir os passarinhos cantar. A região é uma das mais altas da cidade e a vista é linda. Para comer, vale experimentar um legítimo apfelstrudel servido no café, tocado por uma alemoa bem germânica. Melhor é ir acompanhado, para se divertir com as crianças que se espantam com a fábula do miolo de pão, mas dá para passear sozinho sem problemas.
Medalha de honra ao mérito: Parque Barigüi (o mais agitado – evite aos domingos à tarde), Parque Tanguá (pequeno, idílico, pôr-do-sol inesquecível), Universidade Livre do Meio Ambiente (veja as capivaras e suba intermináveis escadas para uma vista que vale mais que o esforço), Museu Oscar Niemeyer (mesmo sem grandes exposições vale conhecer o Olho e deitar no gramado do parcão, habitado por cães e raças de donos de todas as espécies).
Passeie e compre no
MERCADO MUNICIPAL
(Av. Sete de Setembro, Centro)

Qual capital não tem seu mercado público? Em Curitiba não é diferente. Até poucos anos, o Municipal, reduto para compras de artigos raros e finos, era sujo e fedido. Uma reforma recente deixou o lugar apaixonante. Há bons restaurantes (alguns incrivelmente baratos), boas lojas (a maioria de quitutes japoneses, queijos e vinhos) e bancas de frutas lindas de se ver (as pimenteiras chamam mais atenção, mas os donos estão cansados de quem tira foto e não compra nada). A desorganização e o mau cheiro sumiram. A prefeitura também instalou painéis com haicais de Leminski e há um mural desenhado por Poty Lazarotto, habituée do local quando vivo, feito especialmente para os comerciantes do entreposto. Dá para almoçar e fazer um passeio que dura poucas horas.
Honra ao mérito: Feira do Largo da Ordem (só aos domingos. Muito empurra-empurra, mas não dá pra perder. Se tiver saúde, chegue cedo que dá para olhar as bancas de artesanato com calma)
Filmes e sossego no
NOVO BATEL
(R. Cel. Dulcídio, Batel)

Bom seria Curitiba ter um belo cinema de rua, mas o melhor mesmo é o do Shopping Novo Batel. Não é nenhum multiplex. É uma sala apenas, das antigas, mas que tem a melhor programação da cidade. O preço do ingresso também é bem menor que os das outras salas dos shoppings. Além disso, a sala vive vazia, o que é um alento para quem tem ojeriza dos matracas-tricas dos cinemas. Só desconfie quando vir muitos velhinhos entrando juntos. Eles aparecem com freqüência, e normalmente precisam perguntar uns aos outros o que é que o ator disse. Nesse caso, opte por poltronas “alternativas”, às laterais ou próximas da tela.
Honra ao mérito: Cinemateca (durante a semana, exibe títulos importantes que passaram longe das salas comerciais, mesmo com meses de déficit. Aos finais de semana, projeta desenhos passados. Lá é que vão os “cinéfilos” da cidade, e a poltrona é desconfortável. Mas tem seu charme)
Coma e beba fartamente no
BEP’S
(R. Lívio Moreira, São Lourenço)

Não podia deixar de citar outro que não meu bar predileto de Curitiba. O Bep’s tem o melhor chope (500ml sempre geladíssimos) e serve uma picanha na chapa – à vontade, com salada, arroz, batata-frita, farofa e, às vezes, maionese – que é de matar o guarda. Para melhorar, é um lugar pequeno e discreto freqüentado por gente boa e que quase nunca lota. Tem, ainda, a simpatia do dono, o Paulinho, que está sempre no salão. Os sanduíches, simples e saborosos, também são notáveis. Mas prepare o bolso: os preços do Bep’s são salgados para a média dos botecos curitibanos.
Honra ao mérito: Bar do Pudim (reduto de jornalistas, a melhor comida de boteco da cidade. Peça o pernil com verde sem medo. Pra acompanhar, uma Serramalte estupidamente gelada), Pastelaria Juvevê/Bar do Japonês Ricardo (onde o pastel é conhecido como “orelha de elefante”. Por R$ 3,50 você tem a sua janta, mas tem que começar com a pior aguardente do mundo, o Pau do Tenente, cortesia [?] da casa), Super Dog (conhece cachorro-quente vegetariano? Então vá conhecer. É muito bom e os donos da banca, Paulo e Mamá, são pra lá de atenciosos).
Aquisição de artigos finos no
JOAQUIM
(Tv. Alfredo Bufrem, Centro)

Este sebo nomeado em homenagem à revista fundada por Dalton Trevisan nos anos 40 é novo mas já virou coqueluche entre os entendidos. No cardápio, vinis incríveis a preços honestos (na parede, há um duplo do Jet que os donos nem se arriscaram a tirar da embalagem), CDs e livros selecionados. Tudo feito para você torrar seus suados caraminguás com toda alegria. Lá não se encontra tranqueira e a trilha sonora é sempre de primeira. Um dos proprietários é integrante da banda Gente Boa da Melhor Qualidade. Aliás, se souber de algum show deles, não perca. Samba de bamba dos anos 30 e 40 nos melhores salões da cidade.
Honra ao mérito: Livraria Guerreiro (os tradicionalistas preferem a Livraria do Chaim, mas na Guerreiro o atendimento é melhor e você pode conversar com o melhor livreiro da cidade, o Eleotério. De lambuja, com sorte dá para conhecer o Dalton Trevisan, que sempre aparece por lá. Mas evite comportamento de fã, se este for o caso)
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Pandorga, no dicionário, é uma pipa, uma música descompassada, uma mulher obsesa ou uma pantufa. Mas, aqui entre nós, Pandorga será somente um espaço para falar um pouco sobre Curitiba e suas coisas. No twitter, @sabbag.