16.03.11
Ontem, a Fundação Cultural de Curitiba promoveu uma mesa-redonda sobre o tema "O QUE É SER CURITIBANO?", reunindo Cristovão Tezza, o jornalista José Carlos Fernandes e a editora Antonia Schwinden.
Eu não sei o que é ser curitibano, mas um OCORRIDO na plateia, repetido por três vezes durante a noite, mostrou um pouco do que talvez seja o espírito da cidade. Uma mulher - ativista e sexóloga, pelo que entendi - por três vezes levantou sua blusa, revelando a todos os participantes do evento seu bem conservado par de seios cinquentenário.
Não sei o que mostrar os peitos tem a ver com ser curitibano, mas aparentemente ela fez isso protestando contra o corte de árvores, a construção de um supermercado e as péssimas condições do IML do Paraná. Foi o que eu entendi. Ativismo.
Ninguém em sã consciência pode reclamar de gente mostrando suas partes em público, e não serei eu quem vai fazer isso. O maior problema da atitude da senhora foi ter despertado no público o desejo de PARTICIPAR do debate, no momento em que o microfone foi oferecido à plateia.
Não sei de você, mas quando vou a um evento ouvir Fulano, Beltrano e Sicrano, espero ouvir Fulano, Beltrano e Sicrano, e não as considerações dos populares. Mas o pessoal gosta de subir no caixote e dar o seu recado. A ponto da pessoa falar, falar e falar e terminar dizendo "bom, era isso o que eu queria dizer".
Obrigado.
O que EU queria dizer é...
01.06.10
No primeiro semestre de 2008, escrevi para o Terra um verbete sobre Curitiba para constar no guia de cidades do portal. Não era para ser nada muito diferente do óbvio - um texto bem ao estilo daqueles que você encontra por aí quando precisa saber mais ou menos qual é a da cidade. Ainda assim, foi divertido procurar por informações do tipo "rodovias de acesso" ou "número de companhias aéreas que atendem no aeroporto". O único momento em que exerci a faculdade de editor foi na hora de escolher os bares e restaurantes clássicos da cidade e os pontos turísticos. Inevitavelmente, optei por os que achava mais agradáveis e interessantes. Será que alguma coisa mudaria hoje? Voltarei ao tema mais tarde.

Foto: Carlos Ruggi/SMCS
Segue a lista de "bares e restaurantes clássicos" publicada pelo Terra:
Bar do Pudim
Legítimo boteco, com comidinhas simples e caprichadas e uma carta de cervejas servidas estupidamente geladas, freqüentado por jornalistas, publicitários e boêmios em geral.
Endereço: Praça do Redentor, 322, São Francisco
Tel.: (41) 3323-1553
Churrascaria Napolitana
A especialidade da casa são os cortes nobres, precisamente filé mignon e picanha. Rodízio com 16 variedades de carne localizado na cidade vizinha de São José dos Pinhais.
Endereço: Avenida Comendador Franco, 2.531, São José dos Pinhais
Tel.: (41) 3283-1375
Durski
No Setor Histórico da cidade, o restaurante oferece o melhor da culinária polonesa e ucraniana, além de contar com uma carta de vinhos completa. As sobremesas são especiais.
Endereço: Rua Jaime Reis, 254, São Francisco
Tel.: (41) 3225-7893
Estrela da Terra
Principal restaurante da cidade de comida regional paranaense, em que não se pode faltar o barreado (prato à base de carne bovina) e o pinhão, preparado dos mais variados modos.
Endereço: Rua Jaime Reis, 176, São Francisco
Tel.: (41) 3222-5007
Madalosso
Tido como o maior restaurante da América Latina, tem capacidade para 4,6 mil pessoas. Rodízio italiano com frango, polenta e massas.
Endereço: Avenida Manoel Ribas, 5875, Santa Felicidade
Tel.: (41) 3372-2121
Vox
Perfeito para quem quer dançar e flertar, a decoração do Vox é sempre inspirada nos clássicos do rock. A longa fila que se forma porta afora já é uma tradição.
Endereço: Rua Barão do Rio Branco, 418, Centro
Tel.: (41) 3233-8908
Original Beto Batata
A casa do restauranteur Robert Amorim é conhecida como a criadora da batata suíça - espécie de batata röti recheada. Nas paredes, sempre uma exposição diferente e música ao vivo da melhor qualidade (jazz e chorinho). Perfeito para um happy hour.
Endereço: Rua Prof. Brandão, 678, Alto da XV
Tel.: (41) 3262-0840
Schwarzwald (Bar do Alemão)
O mais freqüentado bar do Largo da Ordem, passagem obrigatória de todos que visitam a cidade, oferece pratos e petiscos tipicamente alemães (com variedades de salsichas), sendo reconhecido pelo chope e pelo submarino.
Endereço: Rua Dr. Claudino dos Santos, 63, São Francisco
Tel.: (41) 3223-2585
Stuart
O mais antigo bar de Curitiba é reconhecido por servir como principal tira-gosto o testículo de touro, mas há opções mais ortodoxas. De meia em meia hora, os garçons rifam petiscos.
Endereço: Praça Osório, 427, Centro
Tel.: (41) 3323-5504
Zezito's
Tradicional ponto do Água Verde, o Zezito's prima pelo cuidado no atendimento. Os happy-hours são lotados por quem procura cerveja gelada e petiscos fartos.
Endereço: Rua Bento Viana, 118, Água Verde
Tel.: (41) 3014-0828
31.05.10

Foto: Orlando Kissner/SMCS
Há mais de um ano este blog não ganhava um novo post. E mesmo antes disso sua atualização era mais do que rara. Assunto? Em tese, não deveria faltar. Mas a experiência ensinou que escrever sobre qualquer coisa é mais difícil do que escrever sobre alguma coisa. Ainda mais se for qualquer coisa sobre si mesmo.
Meu primeiro blog, que existiu no tempo em que não era todo mundo que sabia o que era um blog, chamou-se "Sabblog", uma terrível evidência da união entre egocentrismo e mau gosto.
O Sabblog perdeu-se no espaço num momento qualquer de bom senso. Junto com ele, foram para as trevas meia dúzia de textos que poderiam ser guardados nem que por mera curiosidade científica. Mas pior: outros, que mereciam ou queimar no fogo ardente ou o esquecimento do fundo de uma gaveta qualquer, permaneceram vivos em outros cantos da rede. Foi quando aprendi que a internet faria uma biografia tosca e enviesada de todos nós, sem direito a edição ou ajustes, escancarando nossos momentos menos criativos e fazendo um retrato desfocado de nossos momentos mais irrelevantes e desimportantes. Um risco a se correr.
Pois depois do Sabblog vieram outros e outros blogs, que seguiram o mesmo caminho do esquecimento voluntário, até o convite dos chapas Inagaki e Edney para fazer parte do condomínio IB, ao lado de algumas figuras bastante salientes da tal blogosfera brasileira.
Só que tal qual o vício na coca-cola normal, a gente não consegue abandonar hábitos arraigados com tanta facilidade. E esta Pandorga, que um dia chegou até a pegar uma boa brisa graças à generosa força do Interney Blogs, cumpriu sua profecia e ao pó retornou, sem causar grande celeuma no nosso meio de escrevinhadores da internet.
Mas quis o destino que ao longo desses últimos dois anos, um post que escrevi por sugestão de outro broder das antigas, o Ian, fosse constantemente visitado por navegantes incautos que vinham parar por aqui por indicação do oráculo googleano. E assim, sem mais ou menos, atingiu um número bastante curioso de acessos, o que me fez parar para pensar um minuto.
E esse pensamento me levou a acreditar que talvez houvesse como ressuscitar esta Pandorga, desde que tivéssemos algo em comum sobre o que conversar, e me pareceu que seria um bom assunto falar sobre a minha cidade, Curitiba, onde vivo há mais de 30 anos, e que aprendi a conhecer e a gostar, e a saber das coisas sobre ela, e a falar dela.
Mas é lógico que no primeiro post da retomada, eu acabaria discorrendo mais sobre meu umbigo do que sobre o assunto que me propus a tratar, de modo que vou ficando por aqui mesmo para tentar, daqui em diante, falar mais sobre Curitiba.
Abraços.
31.03.09

Minha mãe nunca teve medo da morte. Sempre disse ter medo de envelhecer. Não sei como o envelhecimento está sendo para ela. Eu não me importo em envelhecer. Acho que a velhice combina comigo. Não me incomodo com cabelos brancos, juntas doloridas, falta de viço. As vezes chego a sentir, em acessos de estresse profundos, os cabelos embranquecendo. Espero que alguma sabedoria venha com a velhice, mas espero sem grandes esperanças. Meu único desejo é ter uma voz parecida com a do Paul Newman em The Hudsucker Proxy.
05.12.08

Morreu hoje, dia 5 de dezembro de 2008, em Curitiba, Valêncio Xavier, escritor, cineasta, criador. Figura incomparável da cultura brasileira. Valêncio junta-se a Manoel Carlos Karam, morto no ano passado, e a Jamil Snege, que partiu alguns anos atrás, no panteão de Grandes Curitibanos que nos deixaram recentemente. Sem ele a cidade está mais pobre, mais cinza, mais triste. Fica, claro, sua grande obra, mas desaparece o provocador, o gênio, uma daquelas figuras que não vieram ao mundo para entendê-lo, mas para transformá-lo.
Tive um contato bem próximo com Valêncio quando trabalhava na Gazeta do Povo. O jornal editava uma coleção especial sobre os 310 anos da cidade. Pedi a ele, na época já colaborador eventual do diário, um texto sobre o tema "a cidade do futuro". Dias depois ele apareceu na redação com um disquete. O texto não fazia qualquer sentido. Era um amontoado de frases desconexas e uma coleção de lugares-comuns. Pensei que, de verdade, faltava a mim capacidade para compreender seu estilo único. Consultei o José Carlos Fernandes, então editor-executivo do caderno de cultura, que confirmou que há muito tempo o Valêncio não escrevia como antes. Voltei para o computador com a vergonhosa tarefa de editar aquele texto e deixá-lo palatável para o leitor médio do jornal. Era o meu trabalho. Mas que trabalho ingrato. Achava que o Valêncio riria de mim quando visse aquilo publicado. E talvez tenha rido mesmo. Se riu, o fez com justiça.
O ano era 2003. Hoje descubro, no texto de Irinêo Netto, que Valêncio foi diagnosticado com o mal de Alzheimer em 2002. Não posso dizer o quanto a doença pode tê-lo afetado naqueles anos em que ainda freqüentava a redação. Que Valêncio ria disso de onde estiver.
Alguns anos mais tarde, tive a chance de mediar um debate nas Livrarias Curitiba em que participaram Daniel Pellizzari, Daniel Galera, Paulo Sandrini e Valêncio. Havia um mote qualquer de discussão, tipo "A nova literatura", que não foi levado a sério por nenhum dos participantes. Por uma questão prosaica, "respeito aos mais velhos", fiz com que Valêncio falasse por último. Ele sacou do bolso um papel amassado e disse algo como "Bom, vou falar sobre autores importantes pra mim", e começou a ler uma lista que ia de A a Z dos cânones da literatura e do cinema e mais um par de gente que eu não conhecia. Aquilo durou uns 10 minutos. Os convidados e a platéia em silêncio. Terminada a lista ele agradeceu a oportunidade e meteu o papel no bolso. Não disse muito mais que aquilo o resto da tarde.
No fim dos anos 90, eu e o amigo Luiz Andrioli estávamos em vias de formatura. Para algum trabalho da faculdade, fomos entrevistar Valêncio. Lamento não ter mais essa gravação comigo, era digna de ir para o arquivo do Museu da Imagem e do Som. Foi uma das coisas mais sensacionais que ouvi. No fim de tudo ele contou um causo:
"Uma vez estava andando e tive uma idéia genial para o fim de um livro. Imediatamente anotei aquilo num papel e guardei no bolso. Voltei pra casa pensando 'Porra, isso é fantástico. Depois disso todo mundo vai dizer que o Valêncio é genial, vão me dar um prêmio, vai ser uma coisa maravilhosa'. Só que cheguei em casa e troquei de roupa, e o bilhete se perdeu. Fiquei dias procurando em tudo que era lugar o bilhete com o final mais genial para aquela história. Mas não encontrei. Não lembrava mais o que era. Terminei a história com um final medíocre e ninguém nunca disse nada sobre ela".
Descanse em paz, Valêncio.
Pandorga, no dicionário, é uma pipa, uma música descompassada, uma mulher obsesa ou uma pantufa. Mas, aqui entre nós, Pandorga será somente um espaço para falar um pouco sobre Curitiba e suas coisas. No twitter, @sabbag.