31.03.09

Minha mãe nunca teve medo da morte. Sempre disse ter medo de envelhecer. Não sei como o envelhecimento está sendo para ela. Eu não me importo em envelhecer. Acho que a velhice combina comigo. Não me incomodo com cabelos brancos, juntas doloridas, falta de viço. As vezes chego a sentir, em acessos de estresse profundos, os cabelos embranquecendo. Espero que alguma sabedoria venha com a velhice, mas espero sem grandes esperanças. Meu único desejo é ter uma voz parecida com a do Paul Newman em The Hudsucker Proxy.
05.12.08

Morreu hoje, dia 5 de dezembro de 2008, em Curitiba, Valêncio Xavier, escritor, cineasta, criador. Figura incomparável da cultura brasileira. Valêncio junta-se a Manoel Carlos Karam, morto no ano passado, e a Jamil Snege, que partiu alguns anos atrás, no panteão de Grandes Curitibanos que nos deixaram recentemente. Sem ele a cidade está mais pobre, mais cinza, mais triste. Fica, claro, sua grande obra, mas desaparece o provocador, o gênio, uma daquelas figuras que não vieram ao mundo para entendê-lo, mas para transformá-lo.
Tive um contato bem próximo com Valêncio quando trabalhava na Gazeta do Povo. O jornal editava uma coleção especial sobre os 310 anos da cidade. Pedi a ele, na época já colaborador eventual do diário, um texto sobre o tema "a cidade do futuro". Dias depois ele apareceu na redação com um disquete. O texto não fazia qualquer sentido. Era um amontoado de frases desconexas e uma coleção de lugares-comuns. Pensei que, de verdade, faltava a mim capacidade para compreender seu estilo único. Consultei o José Carlos Fernandes, então editor-executivo do caderno de cultura, que confirmou que há muito tempo o Valêncio não escrevia como antes. Voltei para o computador com a vergonhosa tarefa de editar aquele texto e deixá-lo palatável para o leitor médio do jornal. Era o meu trabalho. Mas que trabalho ingrato. Achava que o Valêncio riria de mim quando visse aquilo publicado. E talvez tenha rido mesmo. Se riu, o fez com justiça.
O ano era 2003. Hoje descubro, no texto de Irinêo Netto, que Valêncio foi diagnosticado com o mal de Alzheimer em 2002. Não posso dizer o quanto a doença pode tê-lo afetado naqueles anos em que ainda freqüentava a redação. Que Valêncio ria disso de onde estiver.
Alguns anos mais tarde, tive a chance de mediar um debate nas Livrarias Curitiba em que participaram Daniel Pellizzari, Daniel Galera, Paulo Sandrini e Valêncio. Havia um mote qualquer de discussão, tipo "A nova literatura", que não foi levado a sério por nenhum dos participantes. Por uma questão prosaica, "respeito aos mais velhos", fiz com que Valêncio falasse por último. Ele sacou do bolso um papel amassado e disse algo como "Bom, vou falar sobre autores importantes pra mim", e começou a ler uma lista que ia de A a Z dos cânones da literatura e do cinema e mais um par de gente que eu não conhecia. Aquilo durou uns 10 minutos. Os convidados e a platéia em silêncio. Terminada a lista ele agradeceu a oportunidade e meteu o papel no bolso. Não disse muito mais que aquilo o resto da tarde.
No fim dos anos 90, eu e o amigo Luiz Andrioli estávamos em vias de formatura. Para algum trabalho da faculdade, fomos entrevistar Valêncio. Lamento não ter mais essa gravação comigo, era digna de ir para o arquivo do Museu da Imagem e do Som. Foi uma das coisas mais sensacionais que ouvi. No fim de tudo ele contou um causo:
"Uma vez estava andando e tive uma idéia genial para o fim de um livro. Imediatamente anotei aquilo num papel e guardei no bolso. Voltei pra casa pensando 'Porra, isso é fantástico. Depois disso todo mundo vai dizer que o Valêncio é genial, vão me dar um prêmio, vai ser uma coisa maravilhosa'. Só que cheguei em casa e troquei de roupa, e o bilhete se perdeu. Fiquei dias procurando em tudo que era lugar o bilhete com o final mais genial para aquela história. Mas não encontrei. Não lembrava mais o que era. Terminei a história com um final medíocre e ninguém nunca disse nada sobre ela".
Descanse em paz, Valêncio.
01.08.08

Bozo se espantou com o nível da discussão
Sério. Alguém precisa tomar alguma providêcia em relação a esses debates. A fórmula é pra lá de gasta, e não consigo imaginar cidadão algum que consiga dar alguma atenção à cantilena (quoting Heloísa Helena) batida dos candidatos. Quem assiste esse tipo de coisa fica à espera do primeiro escorregão, do ataque mais incisivo, da tropeçada forte em alguma palavra (ou preferencialmente em algum obstáculo físico, mesmo) pra sentir algum tipo de emoção.
E nesse ponto nós tivemos aqui um que se destacou. Lauro Rodrigues, do PT do B, foi o verdadeiro "vencedor" do debate (como disseram todas as assessorias de todos os participantes, antes e depois do show). Sério. Torçam para que alguém bote um the best of Lauro Rodrigues no YouTube. Logo! O completo desconhecido marcou presença na TV ao se notabilizar por não conseguir falar mais do que 30 segundos em todas as oportundades que teve. Sejamos francos: o problema do homem não era o tempo. Ele não conseguiu sequer pronunciar duas frases seguidas. Nem pra enganar com aquele blá-blá-blá de sempre do tipo "serviços melhores para o cidadão" ou "ninguém agüenta mais fila no postinho de saúde". O cara se atrapalhou de um tipo que foi realmente notável! No começo ele tentou falar alguma coisa sobre uma de suas "propostas" mas conseguiu misturar alhos com bugalhos de tal forma que, olha... Dalí se impressionaria.
Aliás, perdoem-me os mais polidos, mas acho que o problema ali não era nervoso, não. Era ignorância mesmo. Uma pergunta legal para ele seria algo do tipo "O senhor sabe o que é imposto?". Ou: "Diz aí, com as suas palavras, mesmo, o que é uma lei orçamentária". O cara não tem o menor trato com a coisa. O que pelo menos deu um tom divertido à experiência. Assistimos comendo pipoca.
O último debate para prefeito que realmente ENTERTEU o povo curitibano que eu lembro foi quando o Cassio Taniguchi (PFL) disputou o segundo turno com o Angelo Vanhoni (PT). Duas perguntas marcaram aquela noite: "O sr. sabe o que é o Procel?" e "O que o sr. pretende fazer para combater a Loxosceles intermedia?". O Taniguchi começou o segunto turno atrás, mas ganhou a eleição. Nesse mesmo debate, ele foi perguntado sobre o estado dos rios curitibanos. Ao responder, sacou uma fotinha muito bucólica e disse algo como "Este é um rio em que eu pesco freqüentemente"! Yay!
Mas, enfim, voltando ao embate de ontem. Não consigo lembrar de nada útil que alguém tenha falado. Exceto, talvez, pelo outro "notável" da noite, o Maurício Furtado, do PV. Lembro que no meio das falas ele saltou alguma coisa como "comida sintética" e "peixes que nadam na água". Hmmm. Na hora pareceu engraçado, pelo menos. O resto, não. Ninguém ali dá pra comediante.
23.07.08
Agente 86 (Get Smart, dir. Peter Segal)
Steve Carell presta uma bela homenagem a Don Adams, o Maxwell Smart original. E isso não é pouco, meus amigos. O filme consegue ser uma bela lembrança do quanto a série de Mel Brooks era realmente boa, especialmente se você a assistia no sofá, de pijamas, comendo bolacha de chocolate recheada e tomando nescau frio. O roteiro, apesar de apostar numa trama fraquinha, não tem medo de reeditar a Guerra Fria, o que evidentemente é mais interessante do que se a C.O.N.T.R.O.L.E. enfrentasse terroristas muçulmanos ou algo assim. A Agente 99 não era tão babaca quanto a personagem de Anne Hathaway, mas à peida com isso, porque ela está uma gracinha no filme. Depois de Carell, o melhor de Agente 86 são as incontáveis referências – tanto à série original quanto a outros clássicos do gênero, como Dr. Fantástico. Vale o ingresso. Mas, e aí, alguém sabe o nome do Chefe?
Hancock (dir. Peter Berg)
Li por aí que o pior desse filme era o Will Smith. Não é verdade. Will Smith até que faz o filme ser mais suportável do que deveria. O personagem do super-herói politicamente incorreto é até que bem engraçado no começo do filme. Só piora quando ele descobre quem é, sua missão de salvar a humanidade etc. O que faz de Hancock um filme inapelavelmente ruim é, em primeiro lugar, o roteiro (de Vincent Ngo e Vince Gilligan, ambos vindos da TV), e, em segundo, a direção de Peter Berg (ator de longa carreira na TV e diretor anunciado da refilmagem de Duna (!)). Hancock é primário e confuso. Foi a única vez na vida (exceto em filmes como O Homem Elefante ou Norbit, óbvio) que reparei na maquiagem dos atores. Em suma, o que é ruim supera o que há de bom.
Wall-E (dir. Andrew Stanton)
Redundante dizer que qualquer animação da Pixar é excelente. Wall-E não é diferente. Meu objetivo particular, após assistir um novo filme animado, é atualizar meu ranking pessoal das melhores animações pós-Toy Story. E aí devo dizer que Wall-E é maravilhoso, mas não entra no panteão dos melhores-melhores, formado por Procurando Nemo, Shrek 2, Shrek, O Espanta-Tubarões, Os Sem-Floresta, Monstros S/A, Formiguinhaz, Carros... Bem, a lista é grande, e completamente pessoal. Esses são os filmes que me fizeram chorar de rir e criaram uma experiência de entretenimento realmente única. Então se você disser que, para você, Wall-E é o melhor de todos, não terei problemas com isso. O desafio me parece manter a espantosa qualidade desses filmes a cada novo projeto. Aliás – essa teoria não é minha –, a impressão é de que toda a qualidade que resta em Hollywood está concentrada nos filmes de animação. Não sei até que ponto eles conseguirão manter isso (Shrek 3 é um sinal evidente de decadência). Mas se existe algma coisa realmente original no cinema americano de hoje são os filmes animados.
Jogos do Poder (Charlie Wilson’s War, dir. Mike Nichols)
O roteirista Aaron Sorkin é o criador da (excelente) série de TV The West Wing, aquela do dia-a-dia na Casa Branca em que o presidente era o Martin Sheen. Jogos do Poder não é sua primeira incursão no cinema, embora pareça uma chance que Sorkin teve de desenvolver algumas idéias com uma profundidade que a TV não permitiria. Bem, devo dizer que esse é um problema do filme, se você compará-lo a qualquer episódio de qualquer temporada de The West Wing. O que não chega a prejudicá-lo. Para quem, como eu, gosta de filmes sobre bastidores da política (ia escrever “cinema político”, mas Deus nos livre do que essa expressão poderia significar), ainda é um prato cheio. Os diálogos são muito bons e Philip Seymour Hoffman está, para variar, incrível. Esse cara é muito bom ator, impressionante mesmo. O filme ainda tem a qualidade de falar sobre um tema bastante polêmico na história política recente americana – o armamento da Al-Qaeda pelos EUA durante o conflito do Afeganistão contra a então URSS – sem cair numa babaquice do tipo “colocar o dedo na ferida”. A coisa é o que é e ponto.
E, em breve, claro, algumas mal-traçadas sobre o BÁTIMA.
Chefe O'Hara: Como puta paga, porra!?
22.07.08

Há algumas semanas o setor de Comunicação Social do governo do Paraná deflagrou uma campanha, que poderíamos apelidar de “Censura, não!”, que reúne em seu site de notícias depoimentos de personalidades diversas – a maioria de políticos do partido do governador, o PMDB – criticando a determinação judicial que impede o governador Roberto Requião de achincalhar adversários, imprensa e outras instituições na TV Educativa do estado, que todas as terças exibe ao vivo “para toda a América Latina”, se você acredita, o programa “Escola de Governo”, reunião semanal do governador com secretários de estado, demais lideranças, aspones e puxa-sacos em geral.
Desde o início das transmissões, lá por 2002, Requião sempre esteve à vontade para bater em quem quisesse. Não só durante a Escolinha, diga-se. As intervenções do governador na programação da TV estatal são comuns e feitas de variadas formas. Desde a veiculação de boletins virulentos – sob a forma de letterings frente a uma tela azul – até depoimentos gravados em que o governador é o protagonista do recado. Isso sem falar nas aparições durante a programação jornalística da TV – que segue o governador em todas as suas ações pelo estado e até fora do país.
Há alguns meses – não há rigor jornalístico algum aqui – Requião subiu o tom do discurso contra o Ministério Público, motivado, se não me engano, por ações que visavam comabter o nepotismo no governo estadual – mirando especificamente os irmãos governador, o então secretário da Educação, Maurício, e o superintendente dos Portos de Paranaguá e Antonina, Eduardo. A metralhadora do governador atingiu muita gente boa (seu contra-ataque falava em “abrir a caixa preta” das aposentadorias do órgão). Pouco depois foi expedida a ordem judicial que proíbe o governador de bater nos adversários, sob pena de multa de R$ 200 mil para cada bravata desferida.
A medida fez com que o Requião arrefecesse os ânimos na “Terça Insana”, e desde então foi só choradeira contra a “censura”. A cada vez que o governador era acometido pelo ímpeto de lascar a lenha num desafeto, a razão lhe falava mais alto e tudo o que ele fazia era lamuriar contra a ordem do juízo.
Até que a Justiça resolveu lhe multar retroativamente a um impropério bradado em março último. Nenhum dos piores, anote-se. Mas a canetada significou 200 mil pratas a menos no bolso do gov – que não foram ainda pagas, porque à coisa toda cabe recurso etc e tal. E aí a maionese desandou. Se mesmo “contido” o governador foi multado, de que adiantava segurar a onda sobre o que pensa de tudo e de todos? Requião mandou a decisão do Judiciário às favas e voltou a detonar quem ou o que melhor lhe conviesse na TV pública. “Multem à vontade, mas meu silêncio não vão conseguir”, disse.
E foi mais ou menos nessa hora que a Comunicação do governo entrou em ação, colhendo depoimentos contra a “censura” – como o mais recente, do senador José Sarney – imposta ao governador. Além de políticos, compõem a lista alguns jornalistas (talvez aqueles não se enquadrem nos limites da “imprensa canalha”, a qual o governador gosta de espezinhar, hmmm).
Rotulada de “censura”, a questão ganha facilmente o apoio de entidades civis e personalidades. A estratégia é vitimizar o governador e relembrar os anos de chumbo. A decisão – que, certa ou errada, foi tomada sob a égide dos usos que o governo faz da TV estatal –, então, passa a ser completamente antipática. “Indo de encontro ao Estado de Direito Democrático brasileiro”, clamariam alguns. Como a relação entre o governador e a imprensa local é terra arrasada, os depoimentos não ganham repercussão alguma além do sítio oficial do governo. E vamos em frente.
Ao mesmo tempo (literalmente), o governador emplaca o irmão no cargo de conselheiro do Tribunal de Contas, vitalício. Sim, o Tribunal que julga as contas do estado. Hmmm. E ganha apoios até inesperados, como do próprio presidente da Assembléia Legislativa (de partido que, em tese, é oposição ao governo, DEM), que, ao menor sinal de tentativa de impedimento judicial da posse do caçula, é o primeiro a questionar formalmente qualquer medida que impeça o trabalho do novo membro da côrte. Questionamentos, aliás, que costumam ser atendidos com assombrosa rapidez por desembargadores do Tribunal de Justiça do estado (a tal “censura” foi imposta por tribunal federal).
É bastante provável que, se você, estimado e improvável leitor, não tiver qualquer ligação particular ou afetiva com o Paraná, esteja bocejando ao saber dessa lenga-lenga irritante. Realmente não é coisa para se dar importância para além dos muros da província. Só trouxe o tema a tona para tratar de uma questão mais específica, que talvez seja efetivamente compartilhada por toda a nação: Por favor, vamos parar com o moralismo. Vamos abandonar qualquer idéia de que aquilo (aquilo!) que acontece na esfera pública que fingimos nos causar espanto é “errado” e que o “certo” está do lado de cá. Vamos combinar que, se o “certo” existir, não é desse lado do quintal que ele mora. Não somos depositários de moral alguma. Somos, em essência, imorais. E, por imorais, não temos moral alguma (opa) para criticar a imoralidade alheia. Aliás, nesse jogo não há alheios. Somos definitivamente farinha do mesmo saco.
Pandorga pode ser uma pipa, uma música descompassada, uma mulher incrivelmente obesa ou uma pantufa. Mas, aqui entre nós, Pandorga é o blog de Ricardo Sabbag, jornalista curitibano, sagitariano (com ascendente na Casa do Chapéu), amante das coisas boas e belas do mundo literário, cinematográfico, político, tecnológico, sensorial e artístico em que vivemos.