Ontem recebi um link pelo twitter que traz 10 histórias incríveis que a História esqueceu - ou quase. É um resumo do que se propõe o livro Lost to Time (Martin Sandler), trazer à luz fatos históricos que se perderam ao longo do tempo. Histórias fascinantes como a do escravo persa (alguns dizem iraquiano) Ziryab, que viveu entre 789 e 857. Era um polimatemático (ou polímata), que basicamente significa 'gênio'. É da turma do Leonardo da Vinci, Ptolomeu, Aristóles, Michelangelo, Leibniz, Benjamin Franklin e outros menos conhecidos (e nem por isso menos geniais) - veja uma boa lista aqui.
Mas enfim, a história de Ziryab, que entre outras coisas era poeta, músico, cantor, cosmólogo, designer de moda, celebridade, estrategista, astrônomo, botânico e (ufa!) geógrafo, me fez lembrar o livro Meditações de outro cara genial, Marcus Aurelius, imperador de Roma que viveu bem antes, entre 121 e 180. Não pelo personagem em si, mas pelo fato de que a maioria das pessoas simplesmente ignorar a existência de um sujeito tão fabuloso como Ziryab - e mesmo de Marco Aurélio, é bem verdade. Um absurdo? Reflexo da 'mediocrização' da humanidade? Nada disso. Como bem observa Marco Aurélio - e todos os demais adeptos do estoicismo, ao qual me incluo (cada vez mais) -, a vida é melhor vivida quando nos atemos ao presente (isso, aliás é bem budista, né não?). O passado já era, o futuro ainda não existe. O que vale é o aqui e agora.
Por mais fodão, rico, genial, bonito, forte, etc que alguém tenha sido - e muitos certamente o foram, claro -, cedo ou tarde seus feitos somem na poeira do tempo/espaço. É inexorável. Ok, personagens como Gilgamesh, Abraão, Jesus, Buda, Lao-Tse sobreviveram com seus pensamentos, ideias, atos e quetais até os dias de hoje, mas quantos outros, tão ou mais geniais, sucumbiram ao esquecimento? E mesmo os que são lembrados acabam tendo sua existência posta em dúvida com o tempo, vão aos poucos saindo do campo do real para o das lendas - como vem acontecendo com Shakespeare hoje.
É até meio aflitivo ficar pensando nisso, mas após muita reflexão sobre o assunto, vem a serenidade: não estamos aqui para sermos reconhecidos pelas gerações futuras, ganhar honrarias e ter nossos nomes eternamente lembrados e homenageados. Pode até acontecer durante 10, 100, 1000 anos. Com a internet e o aumento e melhoria na capacidade de armazenamento da memória da humanidade que temos hoje, é possível que esse prazo seja estendido um pouco mais - 10 mil anos? Não importa.
Tem até um conto belíssimo do Neil Gaiman sobre essa temática. Se passa num antigo hotel de Los Angeles, já meio decadente, onde no início do século 20 se hospedaram a nata do cinema americano, atores, atrizes, diretores e roteiristas renomados em sua época, mas que hoje ninguém tem a mais vaga ideia de quem foram. O conto é uma conversa de um rapaz ligado à indústria de cinema atual (não lembro se roteirista, fotógrafo ou mesmo diretor) e um antigo empregado do hotel, que vai lembrando de nomes dos famosos de outrora, de como atraíam multidões aos cinemas e à porta do hotel. Melancólico toda vida o texto, e bastante revelador de como perdemos tempo glórias e honrarias, em vez de aproveitar a vida.
Acho meio mesquinho ficar esperando reconhecimento, louvores e celebrações. Mais do que mesquinho: é sem sentido. Mais dia menos dia, tudo se esvai. Imagina quanto conhecimento, autores e bons livros não sumiram quando bibliotecas como a de Alexandria ou a Casa da Sabedoria de Bagdá foram destruídas... Hoje temos discos rígidos e servidores que guardam boa parte de nossa memória. Se o Google sumir amanhã, imagina quanta coisa vai deixar de existir da noite pro dia... Pois é, nada é eterno. É muita presunção imaginar que alguém possa ser lembrado indefinidamente. Deixa a vida levar...
Caramba, tô totalmente "auto-ajuda" hoje, heim? :)
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