Arte de rua só é arte se estiver numa galeria?

Novembro 11th, 2009   (No views )

Fui com as crianças, no último fim de semana, à exposição d'Os Gêmeos na Faap. Uma beleza. Vários dos clássicos da dupla paulistana de grafiteiros estavam lá, para deleite do público. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas não pude deixar de perceber uma instigante contradição no que via ali: o público que babava com as obras expostas é o mesmo que despreza não só grafiteiros e pichadores, como também a rua e seu povo, que são a alma da arte d'Os Gêmeos.

Talvez, quem sabe, estimulados pelo texto da responsável pela curadoria da exposição, que logo na entrada do salão advertia: o que se veria lá dentro não tinha nada a ver com "vandalismo da pichação". Será que a gente só dá valor ao que está numa galeria, com a chancela de homens e/ou instituições de bem?

Ora, ora, ora, a sra. Celine, acho que muito em breve você vai se envergonhar do que escreveu e quem sabe até se desculpar. Isso porque a pichação 'vândala' já começa também a ganhar galerias de arte pelo mundo. Veja aqui, por exemplo, o que a Fundação Cartier, uma das mais respeitadas instituições do mundo em termos de arte contemporânea, tem a dizer sobre a pichação - principalmente a de São Paulo.

Viu lá? Pois é... Os garranchos ficam até mais respeitáveis, não?

Pode ser, mas o lugar desse tipo de arte é na rua...

(Trailer do documentário O Pixo, de autoria do fotógrafo João Wainer, lançado este ano e que vem fazendo um baita sucesso na Europa)

Obras d'Os Gêmeos em seu habitat natural, a rua - aqui e aqui.


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Izabella · http://www.izabellaoc.blogspot.com

Gostei do post... um abraço

PermalinkPermalink 11.11.09 @ 20:30



Comentário de: Flavia · http://ladyrasta.com.br

:-)

Tenho uma confissão a fazer: ando enjoada d'Os Gêmeos faz um tempinho. Eles viraram pichadores cult, aquela coisa "darlings dos culturetes". O trabalho deles é bacana? É. Mas sei lá... pra mim perdeu um pouco essa coisa da pichação roots - mas confesso que tudo isso que estou falando é intuitivo, não tenho embasamento técnico ou cultural pra falar disso.
Na real? Super curti o dia em que fui ver o @souzacampus (aka marido da @lilianeferrari) e mais uma galera ir pichar um beco na Casa Verde (fotos aqui http://www.flickr.com/photos/samegui/sets/72157615762200322/)
ou então ver o cara que pichou o buraco da Paulista ir restaurar o trabalho dele outro dia (adorei conversar com ele, aliás) e contar como o trabalho foi tombado pela Prefeitura. Ainda tem tempero sabe, é pichação no estado puro.

E last but not least, já que vc falou do pessoal da rua, não sei se conhece esse post meu http://ladyrasta.com.br/2009/09/01/sem-lenco-nem-documento/
Acho que vc vai gostar.
beijos

PermalinkPermalink 11.11.09 @ 22:39



Comentário de: sandro

assisti o filme PIXO na fundação Cartier em Paris durante um Mostra sobre Grafite. Muito bom mesmo esse filme e a reação do público tbm era super positiva em relação ao filme.
Qdo passar por aqui, quero ve-lo novamante.

PermalinkPermalink 12.11.09 @ 15:46



Comentário de: Alexandro Cruz

Fala meu camarada, tudo bem? Fiquei sabendo que agora o senhor é as mãos do Lula, que digitam os textos no blog do Presidente. Parabéns!
Cara, só um comentário, conheço OsGemeos do meu bairro, Cambuci City e, sinceramente, arte de rua tem que ser exposta na galeria da RUA. São Paulo já é bastante separatista em relação a tudo e a todos. Por isso, faço uma pergunta, os verdadeiros admiradores das obras estavam lá? Que são o motoboy, o pedreiro, motorista de ônibus, o camelô, dona de casa, entre tanto outros? Duvido!!! Mas, como sempre digo, arte só vira arte, quando fica cara!
Um grande abraço e precisamos marcar uma breja por aqui!
Ps.: quem vos fala trabalhou com você no GE ou melhor, no portal dos Telecentros.

PermalinkPermalink 13.11.09 @ 18:17



Comentário de: Luís

Caí de pára-quedas aqui no seu blog, por causa do seu texto sobre o Ali Kamel, e descobri outros bons exemplos de inteligência e senso crítico. Gostei muito do seu texto. Sempre achei formidável essa capacidade da arte de questionar e contestar, mas também acho que mesmo a arte não deveria ser isenta de questionamento e contestação, tal como você fez agora. Ultimamente tenho pensado muito nos textos ou cadernos de mediação que acompanham as exposições porque eles partem do pressuposto que o cidadão comum não compreende o sentido e o significado das obras, daí a necessidade de explicação de um "especialista". Não seria rescaldo dos valores aristocráticos que estão nas origens do próprio conceito de arte, tal como sugerido do livro "Arte - Inimiga do Povo" de Roger Taylor (editora Conrad)? É algo a se pensar... Um abraço e parabéns pelo blog.

PermalinkPermalink 20.11.09 @ 13:18



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