Quem melhor, no Brasil, para encarnar o personagem vivido por Peter Sellers no filme Dr. Fantástico (ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba), do Stanley Kubrick, do que o nosso ministro Mangabeira Unger? O Dr. Fantástico, no caso, é um misterioso cientista alemão que sofre de uma síndrome estranha na mão, que insiste em fazer a saudação nazista sempre que ele se empolga em seus discursos militaristas e eugenistas. No filme, ele trabalha para o governo americano e, uma vez que é deflagrada a guerra entre EUA e URSS, tenta fazer com que apenas seres superiores, fisica e intelectualmente, sejam recolhidos ao bunker anti-nuclear.
Mangabeira Unger já adotou pelo menos a parte militarista desse discurso: o cabra está doido para ver o Brasil com armas atômicas para defender a Amazônia, o pré-sal, as águas subterrâneas, o carnaval, sei-lá-mais-o-que… Para isso, já bateu o martelo: o Brasil não assinará o protocolo extra que revisará em 2010 o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). O discurso oficial é de que o Brasil, hoje integrante do Tratado, só o fará novamente caso as grandes potências se desarmem. Mas é público e notório o desagrado de várias figuras nebulosas (e influentes) com a adesão do Brasil ao TNP. São pessoas que gravitam há anos em torno do governo federal, como o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear (aquele da tentativa de explodir um artefato nuclear na Serra do Cachimbo, no início da década de 1990), Rex Nazareth (ex-presidente da Cnen) e embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty (um dos maiores defensores da retirada do Brasil do TNP). E eles exercem uma grande pressão para que o Brasil seja uma potência militar e atômica. Dr. Fantástico fez escola.
A propósito, Vinicius Mota escreveu neste domingo sobre o assunto em sua coluna na Folha. Segue abaixo:
Às armas, cidadãos
SÃO PAULO - O ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, conclamou -"O Brasil vai às armas!"-, e a população respondeu. Nas favelas, no Senado, na Baixada Fluminense, só se fala de outra coisa.Melhor assim. Entusiasmado com o verde-oliva, o professor defendia o serviço patriótico obrigatório para todos. "A transformação do país exige sacrifício", pregava. Sacrificaram-lhe a proposta. O documento que restou de sua curiosa interação com Nelson Jobim (Defesa), a Estratégia Nacional de Defesa, contudo, não deixa de acariciar uma certa nostalgia nacionalista.
Há um lamento antigo, numa corrente minoritária que preza acima de tudo o destino manifesto do Brasil de tornar-se potência, sobre a renúncia do país à bomba atômica. Mangabeira veste bem o figurino do nosso Doutor Fantástico.
A certa altura, o documento diz que o Brasil tem compromisso com o uso pacífico da energia atômica. "Entretanto, afirma a necessidade estratégica de desenvolver e dominar a tecnologia nuclear". Entendeu o emprego do "entretanto"?
A picuinha do momento é a recusa do Brasil em assinar o protocolo extra do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Não o faremos, exorta o documento, até que as potências atômicas comecem a desarmar-se.
O governo reluta em ampliar o acesso de fiscais da ONU a locais onde é processado material radioativo. Haveria segredos industriais a preservar, centrífugas de urânio sensacionais. O argumento provoca risos em gente que conhece o tema.
Não há nada a esconder, senhores. O "uso estritamente pacífico" da energia nuclear não depende de tratado internacional. Está claríssimo na Constituição. E os cidadãos brasileiros têm direito de saber o que se passa nessas instalações.
Em tempo: vale conferir também o artigo Banindo a Bomba (texto em inglês), de Peter David, editor de internacional da revista The Economist. Um tanto lúgubre, mas fundamental. Uma frase:
"Não é provável que algum Estado armado caminhe para o desarmamento (nuclear) sem que existam movimentos simultâneos para fortalecer as salvaguardas contra a proliferação".
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