Tive insônia esta noite e, além de fazer uma boquinha, abri um livro pra ver se pegava no sono. Era do Mário Lago e se chama 16 Linhas Cravadas. Nele encontrei este poema, que me deixou mais alguns minutos longe da terra de morfeus. Não tinha título e, abusado que sou, o batizei com esse do post:
Foi um lindo romance, reconheço,
lindo como uma jóia de alto preço,
este romance que não escrevi.
Foi síntese de todos os romances,
em que há toda as cores e nuance
dos sonhos que até hoje construí.
Meu romance foi lâmpada votiva
que desejei ver sempre acesa e viva
no templo da ilusão.
Por isso o silenciei. Confesso, tive medo
de profaná-lo sem o meu segredo,
de matá-lo com minha confissão.
Meu romance tem páginas sublimes
de renúncias, traições, heroísmos e crimes,
tem palavras de estranha suavidade,
tem gritos de revolta, de ansiedade,
e expressões brutais de desejo e ambição,
Tem confissões de amor sussurradas com calma,
tom muito de alma e coração.
Se alguém pudesse lê-lo encontraria
toda a meiguice,
toda ternura, toda covardia
das palavras de amor que eu não te disse.
Se alguém pudesse lê-lo encontraria escrita
numa página de ouro esta cruel verdade:
tu foste para mim esta coisa bonita
que todos chamam de felicidade.
Foi um lindo romance, reconheço,
Por isso de joelhos agradeço
Deixares que eu o vivesse até o fim
Anônimo e feliz na sua discrição.
Sem a glória de ter ouvido sim,
Sem a mágoa de ter ouvido não.
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