Arrogância científica põe em xeque futuro do planeta

Dezembro 15th, 2006   (No views )

Conversando com um conhecido, que é editor de meio ambiente de uma grande revista de circulação nacional, fiquei estarrecido com sua linha de raciocínio em relação ao debate cada vez mais intrincado que rola no Brasil sobre os transgênicos. Pra ele, as decisões sobre a liberação de cultivo e de comercialização de organismos geneticamente modificados (OGMs) no país, a cargo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), têm que seguir apenas as diretrizes científicas. Problemas sociais e econômicos gerados por bizarrias como as sementes Terminator ou o milho inseticida da Monsanto são questões menores, que não devem emperrar os trabalhos desses notáveis homens de saber. "O que faz lá um representante da Agricultura Familiar? Essas discussões paralelas emperram os trabalhos da Comissão. Eles não estão lá pra discutir questões sociais ou de mercado", questionou, lamentavelmente com a mesma entonação e empáfia que certos doutores adotam durante as reuniões da CTNBio.

Será que os sábios de plantão (dos laboratórios e redações) ignoram os inúmeros problemas até agora identificados em relação aos OGMs? É evidente que não. Casos como o desflorestamento e a concentração de terras provocadas pela soja geneticamente modificada na Argentina e a preocupação do governo da Noruega com a preservação da diversidade genética de sementes do planeta, devido ao avanço das lavouras transgênicas, chegam ao seu conhecimento com certeza. Mas do alto da torre de marfim, jornalistas e cientistas parecem considerar esse o preço do avanço tecnológico. Como a poluição do ar, mar e terra o foi da revolução industrial, e a exaustão dos recursos naturais do planeta o será em prol de nosso bem-estar (sic).

A indústria de biotecnologia faz cara de paisagem para esse cenário aterrador e chega a ser cínica em alguns casos, como quando argumenta que a transgenia pode ser a solução para a fome no mundo. Mas se o transgênico é tão seguro assim, porque não aceitam a rotulagem dos produtos que contêm alguma substância geneticamente modificada?

É preciso que a sociedade entenda que o objetivo número 1 das corporações é lucrar; responsabilidade social ou ambiental é apenas um detalhe que deixa seus executivos mais fofos nas fotos. Princípo da Precaução é pra elas apenas um obstáculo a mais a ser vencido em busca do pote de ouro. Cabe a nós, da sociedade civil, usarmos de todos os meios possíveis para segurar o touro na unha. Se eles não querem rotular, a gente faz então um guia com os produtos que têm ou não substâncias transgênicas, e divulga nas ruas, na internet.

Muitos acreditam (ou acreditavam) que a imprensa deveria fazer esse meio de campo. Pode esquecer. Há tempos debandou para o lado de lá. Não à toa a mídia maltrata tanto o assunto - é uma corporação como outra qualquer e como tal tem afinidades e interesses em comum. A gente que se vire pra limpar a informação de tanta craca corporativa.

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