Uma das coletâneas de roquenrol mais interessantes já feitas no Brasil não está à venda em nenhuma loja do país. Não, ela não está esgotada, nem sofreu algum tipo de boicote. Batizada de Achados e Perdidos - Tributo Valvulado aos Anos 70, essa coletânea simplesmente foi lançada apenas na internet, onde pode ser baixada gratuitamente. E não só as músicas. Quem quiser, pode baixar também as capas, contra-capas e ficha técnica das músicas, até o rótulo para o CD, para montar seu próprio disco em casa.
A coletânea reúne 27 bandas independentes brasileiras (a maioria de São Paulo) que homenageam grupos nacionais e estrangeiros. Boa parte das músicas escolhidas são obscuras, conforme regra estabelecida pelos organizadores.
- Isso foi definido desde o início do projeto. Se alguém resolvesse tocar Led ou Sabbath, deveria ser uma música menos conhecida. Daí, começamos a conversar com as bandas. Na verdade, escolhemos as bandas e não as músicas - lembra José Antunes, ou simplesmente J. Antunes, idealizador do projeto e baixista de um dos grupos que participa da coletânea, o BillyGoat, que apresenta uma versão poderosa de Amor, do Secos & Molhados.
J. Antunes vive e respira música 'stoner'. Além do grupo, que começou em 1997, ele mantém na internet o portal Planeta Stoner, especializado nesse tipo de música, e uma gravadora, a Válvula Discos. Há quem não goste do adjetivo 'stoner' por ter uma certa ligação com as drogas ('get stoned' é uma gíria para 'ficar doidão'), mas Antunes prefere ver apenas como uma referência musical.
- Quando se apresenta uma nova banda, você só será capaz de imaginar sua sonoridade antes de ouví-la se lhe for dada uma referência como "parece uma mistura de Grand Funk com Black Sabbath". O 'stoner rock' é uma reedição do som pesado dos anos 70 e, como tal, apresenta nuances que podem ir do som pesado ao blues, passando pelo psicodélico e progressivo… - explica ele.
'Stoner rock', para quem ainda não sacou, é um estilo calcado no som feito na década de 1970, com guitarras rascantes e baixo marcado, com muitos efeitos nos pedais, como o fuzz e o wah-wah. Fumanchu, Kyuss, Nebula, Brant Bjork e Monster Magnet estão entre os principais representantes da cena 'stoner' atual.
A coletânea, no entanto, focou em grupos mais antigos, considerados precursores do estilo. Na lista, dinossauros famosos como Focus, Humble Pie, Rolling Stones, Motorhead, ZZ Top e Grand Funk Railroad, mas também raridades como Budgie, Blue Cheer, Sweet e Mountain. Dos nacionais, Mutantes e Raul Seixas estão lá, mas também Patrulha do Espaço, Casa das Máquinas, Módulo 1000 e Saracura, banda gaúcha de Nico Nicolaiewsky, que tempos depois se juntou a Hique Gomez para formar uma hilária dupla no espetáculo Tangos & Tragédias.
No Brasil, além do próprio BillyGoat de J. Antunes, são legítimos representantes desse som bandas como Carbura, MQN, Sonic Volt, Flaming Moe e Água Pesada, que fez uma das versões mais interessantes do disco, Alô, Alô Marciano, de Rita Lee - eternizada na voz de Elis Regina.
- Tem a ver com minhas lembranças de criança, minha mãe ouviu muito esse som e ele ficou na minha cabeça. Um dia, brincando com o violão, descobri que podia virar um rockão pesado de primeira - lembra Ricardo Faller, vocalista do grupo Água Pesada responsável pela pérola. Ele é um dos maiores entusiastas do projeto da coletânea virtual.
- Todo mundo sabe a história do rock independente no Brasil, é tudo feito na raça. A idéia dessa coletânea é perfeita porque os custos são muito, mas muito baixos mesmo. E se adapta a um hábito que é muito comum a quem gosta de música que é garimpar pela internet - diz ele, confiante no sucesso da empreitada.
Pois é, a vida é dura e a banda, larga. Foi-se o tempo em que era preciso rezar pela cartilha das grandes gravadoras para conseguir um lugar ao sol no concorrido mundo da música. Com a internet chacoalhando geral as arcaicas estruturas desse mercado, horizontes promissores estão se abrindo para quem meter as caras e mostrar um bom som. Os malucos do Beatallica, o talentoso DJ Dangermouse e seu Grey Album, os ingleses do Artic Monkeys, e os brasileiros do Mombojó são provas de que há algo de novo no mundo da música. Quem curte um bom som só tem a agradecer.
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