
Quando botei os olhos na coleção de soul de um primo meu, lá em Copa, fiquei de cara. Entre centenas de discos, maioria esmagadora de MPB, lá estava cerca de uma dúzia de LPs originais de uma galera incrível. Otis Redding, Carla Thomas, Solomon Burke, Isaac Hayes e, claro, Wilson Pickett. A capa do disco dele era a mais colorida, In The Midnight Hour, álbum de estréia. Como tinha a tarde inteira livre, acabara de voltar da praia e não havia ninguém em casa pra perturbar ou pedir pra baixar o som, coloquei a bolachona preta no toca-discos. Com o volume quase no máximo - como manda o figurino -, entre chiados e estalos, começa o som. Um bateria seca, um naipe de metais, baixão, guitarrinha marcando o compasso e vem ele:
I'm gonna wait to the midnight hour, that's when my love comes tumblin' down, I'm gonna wait till the midnight hour, when there's no one else around…
Voz d'alma, não da garganta, ensinou Pickett certa vez. Fiquei vidrado no disco, principalmente na segunda faixa, Teardrops Will Fall, na qual ele divide os vocais com Cissy Houston (uma bela cantora, nos dois sentidos), e na quinta, I Found a Love (com direito àquele corinho de negão de fundo e tudo), em que revela toda força de sua voz. Estou escutando ela enquanto escrevo agora.
Lendo sobre o disco na internet, fico sabendo que trata-se na verdade de uma coletânea de sons gravados desde 1961 (o LP foi lançado em 1965), a maioria com o grupo The Falcons, do qual Pickett era líder. Fundamental em qualquer discoteca.
Foi uma tarde incrível aquela. E como bom expedicionário musical que era - essa eu roubei do Bob Dylan -, pedi pra levar os discos pra casa, pra curti-los um pouco mais. Tinha acabado de entrar na faculdade, onde iniciamos uma rádio pirata - a Rádio Livre 91.50 - e nela eu tinha um programa chamado A Hora do Dinossauro. Fiz um programa especial só com os tesouros que descobri.
Mais tarde consegui uma coletânea dele, um LP duplo de 1985, importado, minha mãe estava na Europa e teve que gastar sola de sapato pra trazer uma lista de LPs escolhidos por mim, de Van der Graaf Generator a Led Zeppelin, passando pelo All Things Must Past do George Harrison.

É esse disco aí. Nele, praticamente tudo do bom e de melhor de Pickett. Mustang Sally, Engine Number 9, Don't Let The Green Grass Fool You, Mamma Told Me Not To Come, Hey Jude (considerada a melhor versão da música dos Beatles), Sugar Sugar (outra versão, mais uma vez imbatível) e por aí vai.
No Brasil, só encontrei coletâneas mequetrefes. Parece que nenhum disco de Wilson Pìckett está em catálogo por aqui. E o cenário não deve mudar agora que o cara morreu. Eu mesmo fiquei afim de curtir o som de novo, só pra homenagear, e descobri que não podia porque não tenho mais vitrola e nem CDs ou MP3s dele. Mas tenho internet, conexão banda larga e soulseek. Já corrigi o erro… ![]()
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