Qual a intenção do jornalismo?

Janeiro 2nd, 2006   (No views )

A análise que o escritor Gay Talese fez sobre o New York Times em entrevista à Folha de S. Paulo (publicada no dia 26 passado) cai como uma luva para o conjunto da imprensa mundial, que perde credibilidade e vê as vendas afundarem, a meu ver, porque se amalgamou com gosto às elites políticas e econômicas, dando as costas a boa parte de seus leitores.

Talvez seja reflexo do seguinte, conforme aponta Talese:

Os jornalistas hoje têm muito mais estudo. Sua educação é melhor, freqüentam melhores faculdades. Isso os fez ficar mais parecidos com as pessoas que estão no poder. Quando eu era jovem era diferente. Eu sou de família italiana, Halberstein é judeu, Salisbury é do meio-oeste.

Todas as pessoas com as quais eu trabalhei quando comecei no "New York Times" eram das camadas mais baixas. Seus pais, na maioria dos casos, não estudaram em faculdades. Nós não viemos das escolas de elite, éramos "outsiders", víamos o mundo com ceticismo. Hoje, quem cobre o poder estudou em Yale, Princeton, Harvard, Stanford. Seus pais são advogados, suas mães são líderes de empresas. Socialmente, o jornalismo está num nível mais alto.

Meu pai sempre me disse que para transformar alguma coisa (no caso, falava sobre o Exército) era preciso começar por dentro. Pode ser. O problema é resistir ao canto da sereia. A quantidade de coleguinhas que vejo hoje cantando de galo nas suas respectivas áreas de atuação por conviverem sempre com as mesmas figuras - ou fontes - é impressionante. Tornanam-se mais especialistas do que os próprios especialistas (vide Míriam Leitão), parecem mais preocupados em cagar suas regras do que ouvir e analisar o que os especialistas de fato - e das mais variadas correntes, não apenas aqueles que repetem o que o jornalista acredita - têm a dizer. Céus, kd a dúvida? Só sabem arrotar certezas, é na CBN com o mala do Sardenbergh, na Globo com o cínico do Alexandre Garcia, as meninas lambe-botas do Jô, os tais párajornalistas que tanto falam, o cinzento Jabor, o Mainardi e sua sanha autista, enfim…

O jornalismo perdeu há tempos o valor da sutileza. O que vale é empacotar bem a pauta bolada nos aquários com umas aspinhas bombásticas para garantir a manchete do dia seguinte de acordo com a linha política desenhada pelo baronato. E martela-se tanto as picuinhas nos moldes de realidade cultivados por nossa elite babaquara que a verdade vai se ajeitando, amoldando, encaixando na fantasia grotesca e cínica de quem faz e acontece por aqui.

Jornalista não é artista, não é político, não é economista, não é empresário. É jornalista. Mas está cada vez mais parecido com o zelig do cinema, que se transforma naquilo que mais lhe for interessante, que lhe trouxer mais dividendos. Dá no que pensar, por exemplo, a notícia de que César Tralli, o badalado algoz da família Maluf, teve sua festa de aniversário bancada pelo senador Gilberto Miranda, lobista de cassinos. Diga-me com quem andas que eu te direi quem és? Pode ser, uma relação dessas não é à toa, vai… Enfim, de qq maneira, ficará elas por elas, ele vai fazer mais uma penca de matérias bombásticas, com aquela cara séria e ternos bem cortados, sapatinhos de três dígitos, e babau, pronto, quem vai se queixar?

O que vale é a intenção, sempre. E qual é a do jornalismo hoje? Poder, notoriedade, fama - e alguns caraminguás, que ninguém é de ferro. Acho que podemos resumir isso tudo no bom e velho "farinha pouca, meu pirão primeiro!"

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