A panela de pressão da cachola aqui apitou avisando o momento de dar uma desanuviada. Contatei alguns camaradas do GP e fomos prum chope e algo mais na terça à noite na vila madá. A ralação online é insana e morar no Brooklyn pra quem sempre morou em Pinheiros e adjascências em SP é um isolamento desafiador. Já falei pra Ana: na primeira oportunidade, nos debandamos novamente para lá, sem pestanejar. Mas enquanto isso não acontece, faço minhas incursões pela região sempre que tenho uma brecha - e nada como uma terça-feira véspera de feriado para isso. Ok, Martim e Sofia me acordariam cedo na quarta como sempre, mas tava disposto a bancar essa. Não seria a primeira nem a última vez que ficaria meio zumbi pela casa…
E lá fui eu com meu golzinho audaz pra vila madá, encontrar os camaradas num daqueles predinhos do BNH ali no final da Purpurina, sempre me chamaram a atenção, simpáticos. Cheguei primeiro, rua cheia de vagas (uma raridade na região!!). Os caras chegam, trazem um chileno a tira-colo, recém chegado, vai morar no Brasil por uns tempos, saludo!
Depois do pit-stop, fomos a pé para um tal Bambu ali na Purpurina mesmo, puta ladeirão pra subir, puf puf puf, eis que camarada Flufy diz: "Vamos tomar uma no boteco do portuga?" "Bora", respondi de pronto em coro com Madá e Christian, o chileno. Apesar da azia que sentia (uma carne assada hiper-temperada no almoço dá nisso…), uma cervejinha com os amigos num boteco sempre é bem-vinda. Mas eis que me deparo com uma padaria. Ok, paulista gosta de beber em padaria, mas Flufy é carioca da gema e mora há pouco tempo em sampa, porra, o cara me levar pra tomar uma numa legítima padoca?
Mas logo vi que não era bem assim. Como posso dizer? Bem, a padaria do portuga é, digamos assim, um dos lugares mais surreais que já conheci na vida - e olha que não foram poucos… Pra começar, o próprio portuga é um figuraça, o Raul Julia dos trópicos como bem definiu Flufy. Rouco toda vida, cheio de medalhões no peito, nos cumprimentou esfuziantemente, juntou as mesas, colocou cerveja, copos e ligou a jukebox nas alturas (ou já estava ligada? ô memória…). Como soube que um de nós era chileno, tascou um Gipsy Kings e se pos a dançar no meio da padaria! Não pude resistir e comecei a rir. Aí o cara se anima ainda mais e nos oferece um poderoso uíscão. Recusei pois minha gastrite gritou só de pensar. Estava determinado a pegar leve na cachaça.
De dia, ao que tudo indicava, era uma padaria normal, pão, leite, manteiga e tal, mas à noite, principalmente na madruga, era quase uma boate! No final da noite tinha até um deputado estadual na parada! Não sei o nome do cara, mas portuga confirmou. E se ele confirmou, tá confirmado!
Duas rodadas de cerva depois, fomos enfim para o tal Bambu, lugar de música brasileira, xote, baião, xaxado, coco, ciranda, embolada. Como estou com motor 3.7, fiquei imaginando o mico que ia pagar por entre chinelos de couro, batas e a meninada em seus 20 e poucos anos. Mas logo na porta a grata surpresa de ver um pessoal legal, caras boas, gente bonita e alegre de idades variadas. Ok, vamos ver lá dentro.
O som mecânico que rolava era o default, Jorge Ben, Chico Science, Chico Buarque, Jackson do Pandeiro, ok ok, tá bom… entra então um som muito louco, não consigo identificar intérprete mas o ritmo é irresistível e ao final, tchã-nã, a banda aparece no palquinho ao nível do chão. Boa entrada. Eles se apresentam (grupo Cataia, da Ilha do Cardoso, pelo o que soube lá) e começam a tocar. Muito bom, corajosa e criativa mescla de ritmos brasileiros em arranjos modernos e bem trabalhados. Deu pra sacar que os caras não estão ali só para reproduzir o que já foi feito, têm um trabalho próprio consistente. E a molecada lá quase toda conhecia de cor as letras. O tiozão aqui ficou meio de quina, só observando a movimentação dos camaradas que voavam baixo nas gatinhas, sem muito sucesso. Lá pelas tantas, encontramos uma amiga, a Claudia, também do GP, e ficamos trocando uma idéia.
O chileno já tinha se debandado quando vi que já passavam das três da matina. Ops, saída estratégica pela direita… Os caras também desistiram da colheita e rumamos todos para casa. Inevitavelmente passamos novamente no portuga e a padoca estava a mil, som nas alturas, rolando The Doors (Spanish Caravan). O cara tinha incorporado de vez o tipo latino. O mesmo sorriso confiante estampado na cara, nos recebeu aos abraços again. Tomamos uma saideira e comi um pedaço de pizza horroroso (a la carioca, massa dura, haja ketchup pra disfarçar o gosto). A azia virou uma África e eu tentei aplacá-la com um toddynho. Piorou. Mas deu pra chegar em casa na boa. Com uma puta saudade da Vila Madá.
Sou urbanóide, não tem jeito…
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