
No ano 2000, quando ainda era um repórter de esportes, presenciei uma cena emblemática. Estávamos dezenas de jornalistas do mundo inteiro na imensa sala de imprensa de Interlagos burilando as palavras finais dos textos que seriam em breve enviados às redações mundo afora quando, de repente, um ruído estranho invadiu o ambiente: tec tec tec tec terectec terec terectec tec tec terec terectec tec. O barulho era familiar a todos ali, mesmo aos mais jovens. Terec tec tec terec tec, por vezes ficava tão alto que era irresistível tentar descobrir de onde vinha… terec tec tec terec tec… Não era possível, uma máquina de escrever no meio de tantos laptops de todos os modelos e tamanhos, um mais silencioso do que outro? Eu, que certamente era um dos mais jovens ali - no início dos meus 30 anos - fazia tempo que não ouvia aquele som nem via tal maquinaria. Em redação, só n'O Fluminense, nos idos de 1996. Depois, só no hall de entrada da casa do meu tio em Copacabana, onde jazia uma enorme Underwood do início do século passado.
Pois sim, era verdade, terectec tec tec terec terectec, lá estava ela, gigante por natureza, uma imensa e reluzente Olivetti sendo catamilhografada com certa destreza por um jornalista da velha guarda. Ele nem aí pros outros, continua absorto por suas idéias certamente geniais, que lhe garantiriam um bom espaço no jornal do dia seguinte. Terec tec tec tec, ah sim, de vez em quando tinha aquele som de sino (plim!), seguido de um ronco e uma pancada - era quando terminava o parágrafo e o sujeito tinha que acionar uma alavanca para posicionar o papel no início da próxima linha.
A curiosidade e os risos dos companheiros de trabalho do dino-jornalista foram substituídos por resmungos e, por fim, reclamações e pedidos de silêncio. E o cara lá terec tec terectec tec tec tec terec tec… Até que um alemãozão levantou-se, bateu no ombro do intrépido repórter e gritou "Stop!" Foi uma gargalhada só. O dino-jornalista tentou resistir mas acabou isolado num canto da imensa sala, onde o terec tec de sua máquina mal podia ser ouvido. Um alívio.
Lembrei dessa história ao ler o novo texto do Mário Sérgio Conti no NoMínimo, no qual o veterano jornalista - foi meu bigboss no JB - destila todo seu veneno contra internautas em geral. Na verdade, contra a tecnologia em si. Será que ele também é adepto das velhas e pesadas máquinas de escrever?
Lá pelas tantas, chega a fazer uma pergunta infame: "Em busca do tempo perdido" ficaria melhor se Proust tivesse acesso ao Google? Ora, já dizia meu pai, 'se' é irmão do 'quase' e primo do 'talvez'. Conjecturas como essas são impossíveis de serem respondidas. Vale como exercício para esquentar o papo numa mesa de bar, mas não se leva a sério.
As críticas feitas no artigo publicado online - veja bem, online! - provavelmente repetem o que Gutemberg ouviu lá em 1450, quando inventou a prensa tipográfica. "Quanta baboseira será escrita e divulgada por aí", vociferou o Conti do século 15.
O texto é preconceituoso, mas não surpreendente. Volta e meia esse discurso aparece por aí, dando super-poderes malígnos à internet. Já foi assim com a televisão, agora é com a rede mundial de computadores. Pedofilia, terrorismo, racismo, intolerância, não faltam argumentos aos adeptos da cultura do medo. O medo à liberdade ganha ares de cruzada moralista. E a internet é um alvo constante.
Conti está equivocado por não ter atentado para um simples detalhe: a internet é apenas uma ferramenta. Não cria nem gera nada.
Enquanto isso, a caravana passa: a Disney começa a ensaiar mudanças radicais no mercado de entretenimento. Quando esse negócio pegar pra valer, vai sacudir as estruturas como nunca.
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