A Folha de São Paulo publicou semana passada um editorial no qual afirma que o governo criou um desnecessário ambiente de animosidade ao afirmar que existe uma campanha para derrubar o Lula. Eis um trecho:
"Ao procurar associar o noticiário da imprensa a mentiras fabricadas ou manipuladas por conspiradores, o PT iguala-se a personagens periféricos e obscuros, como o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que não conseguem perceber que o país mudou."
Mudou mesmo? Lendo o artigo O Ponto Limite…, do Tenente-Brigadeiro Ivan Frota, publicado com destaque na Revista Aeronáutica (e que pode ser lido na página do Clube de Aeronáutica do Rio de Janeiro), acho que nem tanto. Em 1964, boa parte da imprensa (Folha inclusive) apoiou o golpe militar.
Um trecho do artigo de Frota:
"Saibam, entretanto, os eventuais aventureiros, de hoje e de outras épocas, que as Forças Armadas, estarão vigilantes, do lado da lei e da ordem, como historicamente sempre o fizeram, para, se necessário, mais uma vez, impedir que se instale o definitivo descontrole das instituições nacionais – estratégia, possivelmente, perseguida por irresponsáveis inocentes úteis domésticos, bem como por alguns interesses internacionais.
Esteja tranqüilo o Povo brasileiro. Não serão míseros 23% de salário que desviarão os militares de sua nobre destinação, apesar de se sentirem, neste momento, abandonados e desconsiderados pelo Governo Federal e por seu Comandante Supremo.
A verdade, porém, é que estamos chegando muito próximo do PONTO LIMITE e, este alcançado, tudo poderá acontecer. As insanidades de alguns atingiram um perigoso nível de ebulição, comprometendo gravemente a estabilidade nacional."
A Folha fala em teoria conspiratória. Eu tenho uma também: será que não foi justamente porque o PT, o governo e os movimentos sociais gritaram e se mobilizaram para impedir o linchamento político que Lula e o PT começaram a sofrer após à entrevista do Roberto Jefferson na Folha, que os jornais mudaram de tom nos últimos dias? Sim, porque no DIA SEGUINTE à entrevista, já havia colunista afirmando que Jefferson era o Pedro Collor de Lula, que o governo estava acabado, que era melhor pedir licença e sair de fininho, entre outros comentários não menos torpes…
E meu amigo Fábio José também me envia texto do Clovis Rossi de 2002 que é bem emblemático. Segue abaixo:
"No sábado, o jornal venezuelano "El Nacional" publicou charge em que o presidente Hugo Chávez é retratado como "Baby Doc", o nefando ditador haitiano da dinastia Duvalier.
É parte de uma campanha para torcer os fatos e mostrar o presidente como um tirano. O que, por sua vez, justificaria sua remoção.
Chávez pode ser tudo o que se quiser, mas não é um tirano. Fatos:
1 - Sua eleição e posterior revalidação do mandato, devido à nova Constituição, foram legítimas.
2 - O Legislativo está aberto e funciona normalmente. Nele, Chávez tem apenas tênue maioria (87 de 165 parlamentares).
3 - Se o Judiciário fosse mero apêndice do "chavismo", não teria inocentado os militares que participaram do golpe de 11 de abril, que o afastou por 47 horas.
4 - A liberdade de imprensa é tão absoluta que beira a libertinagem. Que tirano aguentaria cinco minutos de críticas ferozes e xingamentos nos meios de comunicação?
Chávez aguenta o dia inteiro uma barragem de propaganda negativa, de distorções de fatos e de unilateralismo (a versão oficial mal aparece), em todos os cinco canais privados e em nove dos dez principais jornais. (grifo d'O Escriba)
5 - A liberdade de manifestação é tanta que há marchas oposicionistas dia sim, o outro também.
É verdade que houve mortos em duas dessas manifestações (na véspera do golpe de abril e agora, em dezembro). Mas não está claro quem atirou, se comandos governistas ou oposicionistas (ou ambos).
O que está se fazendo na Venezuela parece muito com o que se fez no Chile contra Salvador Allende. Sabe-se o que veio depois: um tirano, aí sim, que hoje não pode sair do país sob pena de ser preso como genocida.
Se funcionar com Chávez, pode funcionar com qualquer outro presidente legitimamente eleito."
Faz sentido…
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