Fui convidado a participar de uma mesa sobre "tecnofobia x tecnofilia" na plenária da IETM, que acontece em duas semanas em Montreal, Canadá. Estou evitando pensar muito no que falar, porque eu sempre acabo mudando de idéia na última hora...
Atualizando: não vai mais rolar. Muita coisa pra resolver por aqui, pouca grana pra sair agora também. Não vou mais pro Canadá.
Catado geral e anotações sobre os últimos dias na rede MetaReciclagem
* Dei uma palestra sobre a MetaReciclagem para os alunos do Sergio Amadeu na Cásper. Dei uma geral sobre o contexto, movimento hacker, software livre, mídia tática, coisas no Brasil, o MTB, e outras coisas. Bom pra exercitar a narrativa. Falei pacas, pra variar.
A primeira edição do Ciclo Gambiarra, com o Stalker, foi bem interessante. Estamos agora planejando a próxima.
Mbraz questionou sobre a "sucata" na lista:
Nao so' devemos considerar a gambiarra como uma das praticas disseminadas pela metareciclagem, mas ainda a sucata entendida como sobra de um mundo industrial quase caduco.
Se no's, feito homens_maquinas pela logica capitalista, ja' cansamos da doacao da mais-valia; em contrapartida buscamos a mais-valia das maquinas que a mesma logica do processo industrial descarta.
Se menos-valia das maquinas para eles, muito mais-valia para nos outros. Ou dito de outra forma, sucata no dos outros, nao e' refresco para no's (hehe)
Stalker respondeu direto, acho, e não entrou nos arquivos da lista:
Há dois filmes geniais para "ilustrar" essas coisas... ou três:
1 - Johnny Mnemonic: a revolução e a resistência vem dos Loteks, que são ciborgues metarecicleiros não-conformistas e anti-corporativos
2 - Robots: o direito à peças de reposição é o direito a identidade dos robots, assim como à sua persistência como enquanto entes vivos e auto-determinação como entes pensantes; a resistência vem da aliança de um herói bricoleur com o inventor original de robos; o nêmesis é um robot corporativo que quer exterminar os robots obsoletos e forçar a todos a só usar peças novas que ele fabrica. (Vista à vista...)
3 - Matrix Reloaded: ótimos diálogos sobre máquinas (a) com o meta-algoritmo "oráculo" (b) com o antagonista-virus e seu argumento de metástase (c) com o conselheiro da cidade rebelde (d) com o meta-algoritmo "grande arquiteto".Alguma conceituação:
* Sucata são materiais e máquinas que não se ajustam mais aos programas de uso preexistentes (por uma conjunção de desinformação, desimaginação e alienação em relação às técnicas)
* Gambiarra é a utilização de máquinas e materiais adicionando outros, induzindo derivas nos programas de uso preexistentes.
* Manutenção é o ajuste de máquinas e materiais para que se mantenham nos programas de uso anteriores, predefinidos.
* Engenharia é a imposição de programas de uso a materiais e máquinas, em geral, programas não emergentes desses, mas predefinidos segundo interesses em finalidades prefiguradas alhures.
* Reciclagem é a utilização de máquinas e materiais para a incorporação em programas de uso preexistentes, mas distintos (às vezes completamente) dos programas dos materiais e máquinas originais. Em geral, são formas de engenharia com sucata, nenhuma inovação emerge.
* Bricolagem é a utilização intuitiva e estética de materiais e máquinas à revelia dos programas de uso preexistentes, em função de virtualidades que emergem do contato entre entes variados (interesses estéticos, demandas de comunidades, possibilidades de fontes de energia e materiais, virtualidades de máquinas, pressões de outros grupos sociais &c).
* MetaReciclagem é a atividade de uma rede de ativismo que faz meta-reciclagem. (hahahá, argumentos recursivos são sempre divertidos!)
(Ou seja, um híbrido de bricolagem e reciclagem, principalmente de máquinas heurísticas. Em termos globais da ação, estratégico-recicleiros, busca-se redefinir de diversas maneiras os programas de uso das máquinas para favorecer (a) o seu uso coletivo e público; (b) a recepção ativa, a produção e difusão de conhecimentos e inovações tecno-cuturais; (c) a autonomia tecno-político-cultural. Em termos tático-bricoleiros, sabe-se lá o que vai acontecer, deixa-se o ciborgue a ser sugerir que ente ele deseja ser, como na bricolagem mais intuitiva e estética.)
Note que não falo mais nem de revolução, nem de tomada do poder: quando algum grupo toma o poder instituído, é a instituição do poder que tomou o grupo. A gente tem que criar uma forma de poder não-apropriavel por nenhum particular, seja individual, seja privado, seja coletivo/corporativo.
Não sei se concordo totalmente com essas definições. Em alguns casos eu faço outro corte...
Aí um dia me ligou uma jornalista da Nova Escola, a revista. Sentado debaixo de uma árvore nas Perdizes, respondi a algumas questões que ela tinha pra escrever uma coluna sobre MetaReciclagem.
Aí eu descobri onde tá o novo blogue do Banto e ele escreveu um pouco sobre MetaReciclagem:
Quando todo o processo de criação e descoberta é liberado de forma que mais pessoas possam ter acesso aos passos dados para chegar ao resultado, de forma que as pessoas também possam estudar a partir do documento, alterar e redistribuir.. o conhecimento tem um grande salto coletivo.
Legal ver que o processo espontâneo de crescimento da rede MetaReciclagem continua... um cara chamado Helio participou de uma oficina de MetaReciclagem, se apresentou na lista em 29 de março como "novato na área", e em 13 de abril já mandou outro email assim:
não estou mais agora como 'novato na área' mas sim como metarecicleiro, e como estamos criando um projeto de metareciclagem em prol da comunidade, gostaríamos de poder contar com idéias, informações e apoio de vocês.
O OLPC também foi assunto de algumas boas discussões na lista. Hudson avisou que estava disponível para download o LiveCD com o sistema que roda nos X-Os. Eu baixei e testei, por curiosidade. A interface é interessante, bem simples. Na minha máquina dá umas travadas, mas isso é de se esperar. A Tati, com base na experiência que tem com escolas públicas com o GESAC, falou que teme o que vai acontecer quando chegar nas escolas.
Continuo acompanhando à distância mas com bastante curiosidade as articulações do Regis e da Teia no Arraial com o Bailux. Um dos colaboradores de lá, o Renato, estava em sampa na época do debate com o Stalker, e já aproveitou pra participar, além de conversar com o Alê e Nano sobre wi-fi e outras coisas que eles estão querendo fazer no Bonete.
Uma declaração do presidente do CDI sobre o OLPC virou debate na lista também. Uirá compilou e recomentou em seu blogue:
e eu vim aqui pra dizer que esse baggio vacilou de falar mal,
e o que falou foi bla bla bla... educação, gestão comunitária?
claro. mas quem foi que disse que o olpc não preza por isso...
vai ler baggio...!
Uma triste notícia das últimas semanas foi o falecimento de Ricardo Rosas, em Fortaleza, 11 de abril. Apesar de algumas diferenças de opinião que a gente tinha, ele foi uma das pessoas que eu quis (e cheguei a tentar, sem resposta) convidar para o Ciclo Gambiarra. Eu tinha voltado a conversar com ele depois de ler o artigo dele (PDF) no Caderno Videobrasil sobre... gambiarra. Ele me falou que estava finalizando um livro sobre o assunto. Saiu uma nota de homenagem a ele no CMI, além de muitos comentários em listas brazucas e gringas. Eu fiquei em paz com a notícia depois que um email do David Garcia pra nettime me fez lembrar que Rosas era budista. Que tenha felicidades nessa próxima fase, então.
Nos últimos dois meses, eu tenho tentado reciclar minhas leituras. Acho que não cheguei a ler nenhum livro do começo ao fim - não sou disso não, mas deixei alguns de lado e renovei a pilha de sete ou oito livros que sempre me acompanha. Algumas anotações sobre eles:
1. Ponto de desequilíbrio - foi o que eu cheguei mais perto de ler até o fim, depois de ter desistido meia dúzia de vezes nos últimos anos. Tem lá seus méritos, mas fica muito preso em querer demonstrar tudo, e na real a essência dele é bem curta - mudança social (em sentido amplo) tem a mesma topologia de epidemias. Depende de uma série de fatores, relativos à "mensagem" circulada, a características específicas dos agentes (que o Gladwell classifica em três tipos básicos). Depois eu pego as anotações de últimas páginas e transcrevo aqui, mas a base dele é essa. Não li o Blink, livro novo dele, mas também não me interessa muito.
Minha opinião: Se tu ainda não leu, dá uma olhada nele. Mas não precisa ler palavra por palavra não, que o cara é bem redundante.
2. Fui ler a Cauda Longa mais por obrigação mesmo. Que alguém me corrija se eu estiver errado, porque passei os olhos muito por cima. Mas me pareceu que o cara teve uma sacada estrutural, quase estatística: cada vez mais, as configurações sociais (e entre elas os "mercados", que - quem lembra? - são conversações) vão ter mais espaço para pequenas formações de nicho, sem a pretensão de tornarem-se globais ou ubíquas. Muitos nichos, poucos blockbusters. E aí ecoa no canto o Christopher Locke - que me foi apresentado pelo hdhd - naquele esforço eterno de tentar entender por que os blogs são tão transformadores, apesar de tanta m3rd4. Mas sobre o Cauda Longa, achei um desperdício de papel pra explicar um barato que se esgota em cinco páginas. Se pans o cara queria ter livro publicado, daquele jeito, pra dar peso pra idéia que afinal é interessante. Mas senti que estava perdendo tempo com ele.
Minha opinião: Leia um resumo, não gaste dinheiro nem perca tempo lendo todo.
3. E finalmente consegui imprimir e ler, com grande ajuda da infraero e dos atrasos em aeroportos, o ensaio do Geert Lovink sobre weblogs: Blogging, the nihilist impulse. Muitas observações interessantes por ali, contextualizando todo o cenário da mídia atualmente, fornecendo alguns links bons de seguir e me dando mais termos pra esbanjar em reuniões animadas a cerveja para desorientar interlocutores. De mais profundo, a noção de que o cinismo em si não é uma crítica consistente, a se levar a sério o que se pensa e escreve. E mais algumas coisas que eu anotei lendo o artigo:
* leva a normalização e banmalização
* Vague media - a falta de direção não é falha, mas a própria essência
* Toda a rede é construída em torno da auto-referência
* Blogs - dentro ou fora da mídia de massa?
* Feedback channels
* To blog merely means to quickly point to news facts through a link and a few sentences...
* Impressions around a topic
* Limites fluidos entre blogosfera e midiasgfera
* Bloggers rarely add new facts to a news story
* As pessoas cada vez mais ignoram as "notícias"
* Extensão digital das tradições orais, transformação das notícias - de palestra a conversação
* Auto big brother
* Enlightenment by confession
* Truth has become an amateur project, not an absolute value
* Expressar a opinião não é só uma opção, mas uma obrigação, um impulso imediato para estar "lá fora com todo mundo"
* Seguindo Baudrillard, blogs são um presente para a humanidade de que ninguém precisa
* Não é mais possível viver a vida confortável de um "intelectual público" do século XX
* Bases instáveis - acabou o jogo pré-definido
* Paulo Virno diz que as pessoas primeiro vivenciam regras, com mais freqüência do que fatos, e muito antes do que eventos concretos
* O cinismo em si não é crítica consistente. Em vez de profundidade conceitual, tem-se associações abrangentes
* Comments vistos como nuvens de buzz
* Cynicism is "enlightened false consciousness" - Sloterdijk
* Justin Clemens - "Nihilism is not just another epoch amongst a succession of others: it is the finally accomplished form of a disaster that happened a long time ago"
* blogs are witnessing and documenting the diminishing power of mainstream media, but they have consciously not replaced its ideology with an alternative
* there is a sense that the Network is the alternative... blogging is a bleed-to-death strategy. Blogging is the opposite of the spectacle. It is flat (and yet meaningful).
* Gianni Vattimo argues that nihilism is not the absence of meaning but the beginning of new social paradigms, with blogging being one of them
* We no longe "believe" in Nothing as in 19th century Russia or post-war Paris. Nihilism is no longer a danger or problem, but the default postmodern condition.
* Justin Clements: "nihilism... is the finally accomplished form of a disaster that occurred long ago". In the media context this would be the moment in which mass media lost their claim on the Truth and could no longer operate as authority
* Karen Carr: the presence of nihilism evokes not terror but a yawn
* Blogs are primarily used as a tool to manage the self
* Andrew Keen: blogs do not arise from political movements or social concerns. They have an obsessive focus on the realization of the self
* O pesadelo de Sócrates: the flat noise of opinion
* Toda a rede é construída em torno da auto-referência
* Blogrolls (e links) supõem simpatia (Amazon, Google Pagerank, essas coisas). Crítica não é possível ("não vou linkar pra Veja" é subterfúgio)
* Communality of bias -> massa crítica só em swarm
* Erich Fromm - Fear of Freedom
* Realize a positive freedom that is based upon "the uniqueness and individuality of man"
* Direito de expressão deveria vir depois do espaço necesário pra pensar
Minha opinião: leia sim, mas tenha paciência
4. Surpreendente, do Steven Johnson. Dei uma folheada, li um pouco, parei. Tive de novo a impressão de que é um livro inteiro baseado em reafirmar repetidamente um só argumento, nesse caso de que a cultura pop e os videogames não são a gota d'água na decadência dos valores culturais, mas o contrário: exercícios para novas habilidades cognitivas. Acho que o livro bom dele foi o Emergência. mesmo, que eu li e recomendo. Por causa dele até baixei o starlogo e comprei o Morte e Vida de Grandes Cidades, que ainda não li mas pretendo antes do dia em que for viver em Ubatuba.
Também estão me esperando o Multidão, Reconhecimento de Padrões, As Veias Abertas da América Latina, o Magos, apresentado pelo Asimov, O Fogo Libertador do Pierre Levy, A Alma do Homem sob o Socialismo do Oscar Wilde e um monte de PDFs, pra épocas menos atarefadas. E agora olhando assim até uma vergonha de gastar tanto tempo lendo esses americanos todos.
Atualizando: É claro que sempre falta lembrar de algum... também estou lendo o Contracultura através dos tempos, cujo erro pode ser se pretender enciclopédico mas tá bem divertido, e esperando pra abrir o primeiro volume do Mil Platôs, que é daqueles de torcer feixes de neurônios. E ainda mais um me esperando é a Sociedade contra o Estado, do Pierre Clastres, indicação de Caminati.
Nos últimos tempos, a lista de discussão da MetaReciclagem tem visto muita coisa acontecer. Fora uma impressão pessoal de que o volume de emails baixou e uma ou outra discussão fora-de-tópico que duram dias a fio e desencorajam outras pessoas a falar, fiquei muito feliz com algumas coisas que tem rolado por lá. Roberto Cury retornou, após um sumiço de um bom par de anos. Também voltou o Eduardo Fontanetti, depois de dois anos no Japão. Este perguntou o que tinha rolado, em resumo, e eu fiz um parágrafo gordão:
Cola aí que tem coisa boa acontecendo. Regis tem histórias
pra contar. Dalton também. Eu conto mais histórias do que
tenho, e o Bica sempre promete que vai contar mas não conta.
Tipuri vai e volta, Cury apareceu esses dias aí. Hernani ainda
me atrapalha quando eu tento falar. Fernando liquidSlave passou
dois meses na índia, um esporo de metareciclagem nasceu,
sumiu, reapareceu e hoje não sei como anda no IP, Lapa, Rio.
Tem um inglês chamado Vern fazendo metareciclagem na
Amazônia. Com nossa cumplicidade, o conceito de MetaReciclagem
foi apropriado, usado e abusado em programas de governo:
GESAC do Minicom, Pontos de Cultura do minC, casas Brasil
da casa Civil, Acessa São Paulo do Guberno do Estado, e
mais outros por aí. Sesc também promove oficinas de
MetaReciclagem e até um Laboratório de Mídias MetaRecicladas
(LaMiMe). Eu tô meio que largando a responsa de servidor e
sistemas e blogues e me dedicando mais ao Ciclo Gambiarra
e à rede internacional de Bricolabs.
Mas falta contar muita coisa aí. Gambiarra pode virar coisa bem interessante. E entrou na lista recentemente o Guilherme Maranhão, que parece ter um trampo legal com o seu Refotografia. Quero chamá-lo pro Ciclo Gambiarra. Outra coisa que me deixou feliz foi a Téia ir de mala e cuia pra Arraial d'Ajuda agitar as coisas com o Regis-Bailux. E também toda a movimentação do Estilingue, em BH, que tá com um processo bonito de formação - coletivo, auto-gerido, bem documentado. Galera no Espaço dos Sonhos, ali no Rio Pequeno, ganhou recentemente um prêmio de projeto wi-fi, e devem implantar em breve - Dalton foi buscar os equipos ontem, parece que tem muita coisa fina - além de a Thays ter tido a oportunidade de fazer um curso na EsLaRed, Escola Latino-americana de Redes, Venezuela. E o pessoal de Curitiba - organismos e além - têm agitado muita coisa interessante, incluindo aí o recente conSerto. Miguel Caetano continua mandando suas contribuições de além-mar. E mais um monte de coisas que eu esqueci ou ainda nem sei, porque estimular coletivamente uma cultura de auto-documentação aberta e online é um processo longo... Mas posso dizer que os rumos da MetaReciclagem têm me deixado bem satisfeito.
Pra acompanhar a lista, é só se cadastrar. Pra aquelas pessoas que não se misturam, também dá pra chupar idéias lendo os arquivos da lista no Gmane - que oferece até RSS.
Escrevendo sobre lições aprendidas com a MetaReciclagem:
If in the first actions we could think of MetaReciclagem as an effort dedicated to
providing infrastructure for people in need of it, time has shown us that the focus
was not exactly that. Often, the infrastructure we have provided lacked stability
and a qualitative concern with the content accessed by its users. The process
of developing MetaReciclagem as an open infrastructure, though, has proved
itself a very positive movement in the perspective of finding people with the
potential to make an innovative use of technology and empowering them providing
a pro-active network of experts in different areas, open and accessible tools to
communicate with that network, and a growing repository of useful knowledge
in those areas. Another perspective is that MetaReciclagem itself transformed,
from a group of people concerned with re-manufcturing computers, to an open
network dedicated to foster a different kind of sensibility for the relations
between people and technologies. This positioning, as an open and accessible
network, has brought us a number of other issues as well: how to keep the
innovation and the exchange running in a fluid organization, composed by
people with very different interests, backgrounds, skills and dreams. We're
still trying to figure that out.
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