15.04.07

Permalink 14:44:41, por felipefonseca   Portuguese (BR)
Categorias: Economia, Política, Tecnologia, Livros

Diálogos na Casinha

Anotações do Ciclo Gambiarra com Stalker, quinta-feira, 12 de abril de 2007.

Arquivo de áudio (formato OGG) com a íntegra da conversa no Acervo Livre.

- numa semiótica pouco antropocêntrica - mente difundida na realidade - máquinas têm uma mente própria - propósito dos equipamentos - disponíveis pra apropriações imprevisíveis - acaso da apropriação que vem da autonomia que a gente não dá muito pros objetos. isso deixou de ser estranho pras humanidades, principalmente depois da onda pop do pierre levy. mas ele é deslumbrado. como se pensa complementarmente com os equipamentos que a gente usa. não se assiste mais a uma aula sem uma caneta. eu não consigo ler um livro sem um lápis sem anotar nas bordas, sem balizar a minha leitura. não leio o livro dos outros por isso, acabo xerocando. manuscrito - máquina - processador de texto, difícil voltar a escrever linearmente.

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Temos que pensar de maneira ativa o desenvolvimento dessas tralhas. elas envolvem práticas políticas o tempo todo.

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Primeiras referências ao termo "máquina" no teatro grego: dispositivo cenográfico que fazia coisas "impossíveis" de trazer pra percepção coletiva. deusas voando, guindastes, cintos. outro conceito de máquina que aparece, no liceu de aristóteles - um cara introduz a "máquina". um arranjo que se faz para que aquilo que demoraria muito tempo pra ser visto ou percebido ou se tornar compreensível seja acelerado por determinado arranjo técnico e social.

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Máquina tem primeiro a maneira de encenar alguma coisa, depois a maneira de fazer com que a natureza se manifeste. Em terceiro tem a máquina de guerra, que envolve ao mesmo tempo a ampliação de força e ocultação da própria intencionalidade.

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Máquinas muito mais do que simples instrumentos pra se chegar a um objetivo pré-determinado. têm um papel de fazer transformar forças físicas presentes (máquinas simples - alavancas, roldanas, polias); forma de controle - máquinas cibernéticas, caixa de descarga que quando enche a bóia fecha. mecanismo de retorno. máquinas têm função heurística - um livro é uma máquina de juntar uma série de signos para facilitar o acesso à informação, o transporte dela. Mântica, jogo de búzios, tarô, livro das mutações - máquinas no sentido de servirem como heurística - acelerar a inteligência, a forma de pensar. Linguagem são pensáveis como máquinas.

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Na cultura grega, a techné é um negócio meio desprezível. arquimedes foi morto defendendo seus projetos de máquinas de guerra. grande inventor de máquinas de guerra, grande observador da natureza. banheira - heurística (heurística vs. eureka) - manhas para descobrir as coisas. na real, ele queria proteger a si próprio, para que os cidadãos não vissem que ele fazia isso. sociedade escravista - coisas para diminuir o trabalho e esforço não eram tão importantes.

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Revolução industrial é divisor de águas. engraçado ver as pessoas falando que as máquinas vão dominar a sociedade, tomar cuidado. isso aconteceu já no século XVII. se transferiram as atividades - não-humanas. bruno latour toma a sociedade não como somente humana, mas mista - as máquinas têm humanidade e são parte da sociedade, assim como as outras espécies. se não houvessem os levedos, a gente não se embriagava.

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Peirce - conceito do alumínio - "elemento tal na tabela" - não esgota o assunto. onde encontra o minério, como purifica, separa. o caráter procedimental tá incluído no conceito do alumínio. quando a gente fala em cultura digital não se fala só por exemplo no streaming que dá pra escutar no brasil inteiro, mas também de um modo de relação de gestão em rede, lista, opiniões, decisões, que é derivada de uma vivência, de um suporte de comunicação que tem características que abrem essas possibilidades. processos deliberativos por consenso, organização horizontal, auto-sustentabilidade, não são traduções da idéia do digital, telemática, rede, mas outras manifestações desse conceito. "máquina" envolve inovação social - funções sociais transferidas pras máquinas - se vê muitas vezes como acumulação capitalista ou aumento do controle do estado sobre o cidadão. programas que pré-existem, subjacentes ao desenvolvimento das máquinas. e outras máquinas sendo produzidas como anti-programas em relação ao lucro e controle.

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Transformar essa política de colaboração e doação em algo quantificável. pra aquelx que rala pra caramba se aliviar emocionalmente e se sentir menos isolado, e ter crédito pra contar com as pessoas. quantificáveis.

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[Marcelo Braz] Gambiarra. Oficina tecnologias do cotidiano. Máquina, tecnologia, técnica, ferramenta. Computador tem múltiplas funções.

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[Stalker] a Gambiarra seria o estado da máquina antes de ela ter se estabilizado, quando as peças ainda estão meio frouxas.

[Marcelo Braz] - não consigo definir máquina separado de ferramenta.

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[Stalker] "inteligência artificial" é um termo redundante. inteligência é artificial. a gente pensa por artifício. essa coisa humana de usar algo no lugar de algo deliberadamente, de tomar um ente do real como estando num lugar, representando ou manifestando algo que não é ele, de maneira consciente por algum motivo que é seu, é totalmente artificial. a humanidade é um artifício dela própria. hominização - parar de resolver na pancada, passar a negociar, resolver problemas físicos com outros objetos.

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[Marcelo Braz] a técnica criou o homem ou o homem criou a técnica?

[Stalker] ou os dois estão se criando o tempo todo e não faz sentido separar um do outro? peirce tem um exemplo legal: se eu sei ler e me tiram a parte do cérebro que permite ler, eu não consigo ler, meu pensamento está afetado por isso. mas se eu não tiver minha caneta-tinteiro pra fazer minhas anotações, não consigo pensar, e o efeito é o mesmo de tirar um pedaço do cérebro. a gente pensa com o corpo próprio e alheio, com os objetos que usamos, a ponto de ter muito questionável essa idéia cartesiana de objeto externo - não existem objetos externos. nós somos objetos e sujeitos o tempo todo, tá nesse trânsito.

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"Pra conseguir dinheiro tem que enfrentar a máquina burocrática do marketing cultural" - pensando em um conjunto de entes que estão integrados, encaixados, tratados na pluralidade como um só, um bloco. dá pra pensar em "o computador" ou "a internet", sabendo que um computador não é um ente, ele é montado com zilhões de coisas, que são montadas com outros zilhões. essa idéia de que o pensamento não é humano, mas está fundido no real. o limite não está nos fenômenos vivos, a regularidade do mundo físico é uma forma de quase mente.

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Romper com a funcionalidade das funções sociais - por exemplo, o aniversário serve para as pessoas terem apego à própria vida, laços etc. práticas sociais e estendendo, as máquinas existem para ter uma funcionalidade. visão positivista de achar que existem essas funções antes e as pessoas quebram a cabeça para gerar instituições, práticas sociais e máquinas para cumprir esas funções. não: as próprias instituições emergem de maneira indefinida, criam nas práticas sociais um campo de funcionalidade que é peculiar a elas, e algumas relações entre as pessoas, com o mundo, vão se apoiando nessas instituições, práticas, relações sociais, e se estabilizam ou não.

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Importância da metareciclagem, bricolagem. gambiarra: estão no limiar de inventar novos dispositivos de mediação e construção de relação que vão gerar transformações sociais que interessam pra nós, e não simplesmente atender funcionalidades externas como gerar lucro ou o poder de controle sobre os governados. aí o que a gente está fazendo é uma ação de política radical - criar máquinas e ferramentas para forçar a sociedade, as relações entre nós e com o mundo natural - embora essa separação já não faça algum sentido - transformar essa relação que a gente tem em outra - gerar espaços novos de relação em que a gente possa ter outra subjetividade - pseudônimos de internet mostram isso.

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Trabalhar mais nesse sentido - gerar novas instituições através das máquinas. quando você age de maneira explicitamente proposital de interferir nos processos, ir contra, resistir, estabelece uma funcionalidade pré-concebida em relação a sua ação, isso gera muita resistência. basta a microsoft lançar uma modificação no sistema operacional pra galera das listas, do "movimento cyberpunk brasileiro", descerem o cacete completamente. e com razão. mas seria muito diferente se aparecesse sem muito motivo, de um lugar desconhecido, uma rotina que fizesse tal coisa que começa a ser apropriada de maneiras muito diferentes por pessoas diferentes como o próprio computador, um projeto de garagem que ninguém sabia direito pra que servia, e isso foi gerando a própria funcionalidade, a própria lógica, as próprias relações sociais peculiares. isso é de uma astúcia sem par. em vez de agir para produzir um resultado, age no sentido de criar espaço onde outros agentes tomem aquele espaço como digno de ser usado pra produzir resultados que elas queiram. wu-wei, agir vazio, central nas artes marciais, taoísmo, zen-budismo. wiki, lista de discussão, não são criadas com uma pré-definição de conteúdo. abrem espaços vazios. isso que interessa pra gente em termos de ação política. romper com a ação deliberada, com finalidades pré-determinadas, pré-concebidas. o "pelego". pt é exemplo - tinha um partido político institucional, com o objetivo de tomar o poder, e é capturado pela lógica de poder da república, pseudo-república, e aí moldado - o mais vazio, o que é tomado, é quem toma.

[[conversa entre braz e o amigo dele, muito baixo]]

Força presente em força presente - máquina simples. força passada em força presente - máquina cibernética. força futura em força presente - máquina heurística. tem operações de compactação, dobramento, deslocamento do tempo. no mundo real nenhuma é separada da outra - um porrete, máquina simples, se torna em máquina heurística, vara de marmelo pra bater em criança vira máquina de feedback. macacos, humanos, amebas, são vivos. não são máquinas. absoluta imprevisiblidade e abertura. mesmo máquinas heurísticas precisam estar encaixadas. vida não se explica. essa inexplicabilidade tem que trazer à mesa. pra quê eu vim ao mundo? pra ser a felicidade da mamãe, depois pra salvar a humanidade, pra resolver o sofrimento da humanidade, pra ganhar dinheiro. o problema é a gente sempre pensar que precisa ter um "para quê". nenhum de nós tolera isso completamente.

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A lógica da bricolagem não é funcional. não tem um projeto prévio. tem um monte de funções possíveis. tem o material lá e vai combinando aquilo. encaixa, desencaixa, conecta, desconecta, vê o que funciona, no que resulta, se resulta, até que ponto. a lógica do bricolador é a lógica da pesquisa científica mais especulativa, você não sabe pra onde vai, sabe que tá indo. é a lógica da vida, o que é o criativo. a dimensão última do mundo não pode ser a função. tem que ser um não sei o que é isso, meio que um mistério insondável.

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[Lucio, no chat] qual a melhor experiência mediática do stalker

[Stalker] O cibersalão de BH - nem vi o que foi discutido, mas encheu de gente, calor infernal, foi estrimado. Vi que dá pra fazer um tipo de atividade pública que não vai ser uma difusão massiva, que as pessoas do outro lado do fio tão fazendo isso que o pessoal do chat tá fazendo. Perguntar consistentemente as coisas. Não é "gostei ou não gostei". As outras experiências mediáticas são muito íntimas e vou contar não.

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Glerm é totalmente bricolador.

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Metáfora é um troço que acha uma semelhança entre coisas que estão distantes. Não que essa semelhança esteja nas coisas, mas a gente é que implicitamente bola uma perspectiva, e aí que tá o valor da metáfora, de projetar essa perspectiva muito sutilmente e implicitamente criando essa conexão. Coisas distantes que se superpõem e se tornam análogas. O barato não é a analogia ou a distância, essas coisas são produzidas por maneiras de pensar que são estabilizadas socialmente, historicamente. O legal é dar um salto e ligar a semelhança e a distância. Exemplo clássico, a charada da esfinge de Tebas - quatro pernas de manhã, duas à tarde, três à noite. Perspectiva do dia como o tempo, perspectiva da vida como um dia só, perspectiva dos apoios que nós temos como o próprio modo de vida. A metáfora é uma charada com resposta conhecida.

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[Marcelo Braz] Dá pra transpor o "seja você mesmo sua própria mídia" da mídia tática pra "seja você mesmo sua própria máquina"?

[Stalker] Mais divertido é
seja outro sendo você mesmo sua própria máquina;
seja você outro a si por ser pra si sua própria máquina;
seja para os outros uma máquina sendo pra si mesmo para os outros.
e coisas assim
Idéia de você não ser você mesmo. Não interessa você ser você mesmo. Se a gente quisesse isso, não usava pseudônimos nem tentava entrar nessa viagem doida de deliberadamente mudar o modo de pensamento da gente se expondo a escrever wiki em vez de texto linear. Quem quer coincidir consigo mesmo no extremo acaba se matando. Dioniso mesmo: "eu sou o outro para o outro". Eu só posso ser um sendo outro para o outro. E o outro é um eu que está fora de mim. As máquinas permitem essa desidentificação, essa ipseidade. Ser outro para ser.

31.03.07

Permalink 17:38:54, por felipefonseca   Portuguese (BR)
Categorias: Blogosfera, Economia, Egotrip, Política, Relacionamentos

O que tem rolado na lista MetaReciclagem

Nos últimos tempos, a lista de discussão da MetaReciclagem tem visto muita coisa acontecer. Fora uma impressão pessoal de que o volume de emails baixou e uma ou outra discussão fora-de-tópico que duram dias a fio e desencorajam outras pessoas a falar, fiquei muito feliz com algumas coisas que tem rolado por lá. Roberto Cury retornou, após um sumiço de um bom par de anos. Também voltou o Eduardo Fontanetti, depois de dois anos no Japão. Este perguntou o que tinha rolado, em resumo, e eu fiz um parágrafo gordão:

Cola aí que tem coisa boa acontecendo. Regis tem histórias
pra contar. Dalton também. Eu conto mais histórias do que
tenho, e o Bica sempre promete que vai contar mas não conta.
Tipuri vai e volta, Cury apareceu esses dias aí. Hernani ainda
me atrapalha quando eu tento falar. Fernando liquidSlave passou
dois meses na índia, um esporo de metareciclagem nasceu,
sumiu, reapareceu e hoje não sei como anda no IP, Lapa, Rio.
Tem um inglês chamado Vern fazendo metareciclagem na
Amazônia. Com nossa cumplicidade, o conceito de MetaReciclagem
foi apropriado, usado e abusado em programas de governo:
GESAC do Minicom, Pontos de Cultura do minC, casas Brasil
da casa Civil, Acessa São Paulo do Guberno do Estado, e
mais outros por aí. Sesc também promove oficinas de
MetaReciclagem e até um Laboratório de Mídias MetaRecicladas
(LaMiMe). Eu tô meio que largando a responsa de servidor e
sistemas e blogues e me dedicando mais ao Ciclo Gambiarra
e à rede internacional de Bricolabs.

Mas falta contar muita coisa aí. Gambiarra pode virar coisa bem interessante. E entrou na lista recentemente o Guilherme Maranhão, que parece ter um trampo legal com o seu Refotografia. Quero chamá-lo pro Ciclo Gambiarra. Outra coisa que me deixou feliz foi a Téia ir de mala e cuia pra Arraial d'Ajuda agitar as coisas com o Regis-Bailux. E também toda a movimentação do Estilingue, em BH, que tá com um processo bonito de formação - coletivo, auto-gerido, bem documentado. Galera no Espaço dos Sonhos, ali no Rio Pequeno, ganhou recentemente um prêmio de projeto wi-fi, e devem implantar em breve - Dalton foi buscar os equipos ontem, parece que tem muita coisa fina - além de a Thays ter tido a oportunidade de fazer um curso na EsLaRed, Escola Latino-americana de Redes, Venezuela. E o pessoal de Curitiba - organismos e além - têm agitado muita coisa interessante, incluindo aí o recente conSerto. Miguel Caetano continua mandando suas contribuições de além-mar. E mais um monte de coisas que eu esqueci ou ainda nem sei, porque estimular coletivamente uma cultura de auto-documentação aberta e online é um processo longo... Mas posso dizer que os rumos da MetaReciclagem têm me deixado bem satisfeito.

Pra acompanhar a lista, é só se cadastrar. Pra aquelas pessoas que não se misturam, também dá pra chupar idéias lendo os arquivos da lista no Gmane - que oferece até RSS.

30.03.07

Permalink 21:01:57, por felipefonseca   Portuguese (BR)
Categorias: Blogosfera, Comportamento, Economia, Egotrip, Política, Relacionamentos, Tecnologia, Crianças

Lessons learned

Escrevendo sobre lições aprendidas com a MetaReciclagem:

If in the first actions we could think of MetaReciclagem as an effort dedicated to
providing infrastructure for people in need of it, time has shown us that the focus
was not exactly that. Often, the infrastructure we have provided lacked stability
and a qualitative concern with the content accessed by its users. The process
of developing MetaReciclagem as an open infrastructure, though, has proved
itself a very positive movement in the perspective of finding people with the
potential to make an innovative use of technology and empowering them providing
a pro-active network of experts in different areas, open and accessible tools to
communicate with that network, and a growing repository of useful knowledge
in those areas. Another perspective is that MetaReciclagem itself transformed,
from a group of people concerned with re-manufcturing computers, to an open
network dedicated to foster a different kind of sensibility for the relations
between people and technologies. This positioning, as an open and accessible
network, has brought us a number of other issues as well: how to keep the
innovation and the exchange running in a fluid organization, composed by
people with very different interests, backgrounds, skills and dreams. We're
still trying to figure that out.

27.03.07

Permalink 14:26:41, por Paulo Bicarato   Portuguese (BR)
Categorias: Blogosfera, Comportamento, Economia

:: GWEI ::

Entre várias discussões interessantes, projetos colaborativos, MetaRec, jornalismo cidadão, OLPC, aprendizado distribuído, autonomia e muito mais, um dos papos recorrentes no BarcampSP: business, *monetização* de blogs, business, start-ups, business. Se de certa maneira foi uma espécie de *desvio* do conceito primeiro dos Barcamps – colaboração --, talvez tenha sido sintomático que isso tenha ocorrido em Sampa: afinal de contas, é a cidade que vive de negócios, respira-se negócios. Talvez eu devesse escrever sobre o primeiro grupo de temas, mas vou dar prosseguimento a um papo que comecei com o Avório e com meu irmão: vem por aí uma nova bolha?

GWEI

Explico: mania crescente e, diria, exponencial é a dos auto-denominados *probloggers*, blogueiros que *monetizam* ao máximo seus blogs a fim de viver exclusivamente disso. Ou seja: ganhar dinheiro, o máximo possível, a partir do Adsense, de links patrocinados, do Mercado Livre, do Buscapé e quetais. Ok, cada um faz o que quiser com seu blog, mas o que se vê por aí são blogs em que mal se distingue o conteúdo *editorial* (se é que se pode chamar assim) do publicitário. Aliás, o próprio conteúdo editorial desses blogs é feito na medida visando amplificar o resultado nos SEOs da vida: palavras-chave cuidadosamente escolhidas, nomes de celebridades da hora e por aí vai...

Tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas... até onde isso pode ir? Pode-se argumentar a partir da potencial infinitude da web, da própria auto-regulamentação que se cria naturalmente nessa ecologia digital, mas aí mesmo é que tá o ponto crucial. Essa moçadinha que quer virar um Interney do dia pra noite não pensa e nem considera conceitos como reputação, meritocracia, compartilhamento de conhecimento: o negócio é ver única e exclusivamente cifrões em qualquer lugar, e como-fazer-dinheiro-com-isso. Pensamento típico do século 20, não percebem que esse canibalismo capitalista está falido, ainda não chegaram ao século 21. Ok, vão ganhar algum dinheirinho, mas acabarão aprendendo do jeito mais difícil.

De minha parte, e graças a Deus não estou só, fico com o que o Mr. Manson chamou de *internet moleque*: blogo porque quero, porque sim, quando quero, e acabou. Se vier alguma grana (como já veio um pouquinho), é consequência natural. Mas o princípio é compartilhar conhecimento à vontade, usar o blog como um grande bookmark e um espaço livre pra conversas, como um grande boteco.

Aí vem o André *embaixador-do-Barcamp* Avório e me manda o link desse artigo: The revolution will not be advertised, comentando o GWEI – Google Will Eat Itself, idéia bacana duns gringos que quer simplesmente aproveitar a auto-canibalização do Google pra depois redistribuir suas *cotas* pros usuários do GTTP Ltd. -- Google To The People Public Company. Simplesmente genial!

Pelo menos me senti mais aliviado, e constato que ainda não tô paranóico. Ou, se é nóia minha, não tô sozinho nessa... WTF?

14.02.07

Permalink 14:59:54, por felipefonseca   Portuguese (BR)
Categorias: Blogosfera, Economia, Tecnologia

Novatium e Rajesh Jain na capa da Newsweek

Lá em 2003, no meio de tudo-ao-mesmo-tempo que estava roland - MetaReciclagem tomando forma, experimentação toda semana no galpão, idéias brotando de tudo que é lado, eu comecei a conversar, primeiro por email e depois por telefone, com um indiano chamado Rajesh Jain. Conheci ele através do Emergic.org, blog sobre tecnologia, inovação e soluções de computação para países "em desenvolvimento". À época, ele escrevia bastante sobre a idéia de um computador de 100 dólares (antes desse corre todo do Mit), sobre redes TC-TS (iniciais em inglês pra "terminal leve - servidor parrudo"), sobre como o computador deveria ser visto como somente mais um eletrodoméstico, e um monte de outras idéias interessantes. Ele mantinha o hábito de blogar todo dia, várias vezes por dia. Ultimamente, achei difícil acompanhar o blog dele justamente por isso - lotava meu agregador de posts - e deixei um pouco de lado.
Mas voltando a 2003, a gente conversou bastante sobre tentar trazer pro Brasil algumas das coisas que ele andava fazendo com a sua Netcore: soluções de terminais leves pra usar computadores velhos. Nunca deu muito certo, mas só em saber que era viável flexibilizar daquela maneira o sistema operacional foi uma inspiração forte pra alguns dos nossos primeiros projetos, como os Autolabs e o CyberSocial. Serviu como inspiração também em outro sentido: na época, pensamos seriamente em levantar uma grana pra comprar lotes de computadores usados, remanufaturá-los com o pessoal que freqüentava os esporos, e depois deixar a molecada vender as máquinas pra levantar uma graninha. Só que parecia meio viagem a gente oferecer máquinas sem nada de infralógica. Aí bateu de fazer um site onde as pessoas tivessem um primeiro contato com a tecnologia, e de quebra já pudessem se articular em rede, conversar umas com as outras, re-conhecer os seres humanos que estavam por trás daquelas outras máquinas (e isso tudo antes de qualquer Orkut aparecer pra dominar o Brasil). Pensávamos em ter dois públicos - micro e pequenas empresas; e usuários domésticos. Para os usuários domésticos, apareceu de cara o nome do portal: Linganóis. Isso deu início ao site (história mais completa aqui), que duraria algum tempo e depois fecharia, mas serviria de base fundamental pra criar o que veio a ser o Conversê.
Capa da NewsweekRajesh Jain tem uma história doida. Ele fez um dos primeiros portais de internet da Índia, que vendeu em 1999 por 100 milhões de doletas. E aí em vez de se mudar pra Inglaterra ou Estados Unidos e passar o resto da vida apostando em Baseball ou Rugby, decidiu investir em criar maneiras de trazer mais gente pra Internt. E aí me acontece de estar no aeroporto segunda-feira, esperando minha irmã, que se atrasou. Fui esperar na revistaria. Olhei pra Newsweek e achei que a matéria de capa era sobre o laptop de 100 dólares. Comprei, 11 reais. Sò depois que abri a revista percebi que na real a matéria de capa era sobre uma empresa indiana chamada Novatium, que desenvolveu uma solução mista de hardware - um terminal leve - com uma infra de rede, em que todo o ambiente de trabalho roda no servidor. O computador custa mais ou menos cem dólares, e deve baixar pra setenta. Liga direto na TV ou em um monitor de computador, e não tem nenhum periférico. Mas a minha surpresa na real foi outra: logo na página três da revista, tava lá estampado o Rajesh, com uma criança no colo. E não é só lá. Tá rolando uma pusta cobertura de mídia. A matéria da Newsweek conta toda a história dele, mas se equivoca ao colocá-lo como competidor do laptop de 100 dólares. São soluções que não têm o mesmo objetivo, não deveriam ser justapostas desse jeito. A matéria também parece não ter entendido o que é software livre (fala de "free software from an open source company like Linux"). Talvez esteja usando o Rajesh pra fazer propaganda anti-pingüim, ou é só mal-informada mesmo (duvido!).
De qualquer forma, mando aqui meus parabéns ao Rajesh. Que esse tipo de idéia cresça cada vez mais.

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