05.04.07

Permalink 20:04:49, por felipefonseca   Portuguese (BR)
Categorias: Egotrip, Livros

Leiturinhas

Nos últimos dois meses, eu tenho tentado reciclar minhas leituras. Acho que não cheguei a ler nenhum livro do começo ao fim - não sou disso não, mas deixei alguns de lado e renovei a pilha de sete ou oito livros que sempre me acompanha. Algumas anotações sobre eles:

1. Ponto de desequilíbrio - foi o que eu cheguei mais perto de ler até o fim, depois de ter desistido meia dúzia de vezes nos últimos anos. Tem lá seus méritos, mas fica muito preso em querer demonstrar tudo, e na real a essência dele é bem curta - mudança social (em sentido amplo) tem a mesma topologia de epidemias. Depende de uma série de fatores, relativos à "mensagem" circulada, a características específicas dos agentes (que o Gladwell classifica em três tipos básicos). Depois eu pego as anotações de últimas páginas e transcrevo aqui, mas a base dele é essa. Não li o Blink, livro novo dele, mas também não me interessa muito.
Minha opinião: Se tu ainda não leu, dá uma olhada nele. Mas não precisa ler palavra por palavra não, que o cara é bem redundante.

2. Fui ler a Cauda Longa mais por obrigação mesmo. Que alguém me corrija se eu estiver errado, porque passei os olhos muito por cima. Mas me pareceu que o cara teve uma sacada estrutural, quase estatística: cada vez mais, as configurações sociais (e entre elas os "mercados", que - quem lembra? - são conversações) vão ter mais espaço para pequenas formações de nicho, sem a pretensão de tornarem-se globais ou ubíquas. Muitos nichos, poucos blockbusters. E aí ecoa no canto o Christopher Locke - que me foi apresentado pelo hdhd - naquele esforço eterno de tentar entender por que os blogs são tão transformadores, apesar de tanta m3rd4. Mas sobre o Cauda Longa, achei um desperdício de papel pra explicar um barato que se esgota em cinco páginas. Se pans o cara queria ter livro publicado, daquele jeito, pra dar peso pra idéia que afinal é interessante. Mas senti que estava perdendo tempo com ele.
Minha opinião: Leia um resumo, não gaste dinheiro nem perca tempo lendo todo.

3. E finalmente consegui imprimir e ler, com grande ajuda da infraero e dos atrasos em aeroportos, o ensaio do Geert Lovink sobre weblogs: Blogging, the nihilist impulse. Muitas observações interessantes por ali, contextualizando todo o cenário da mídia atualmente, fornecendo alguns links bons de seguir e me dando mais termos pra esbanjar em reuniões animadas a cerveja para desorientar interlocutores. De mais profundo, a noção de que o cinismo em si não é uma crítica consistente, a se levar a sério o que se pensa e escreve. E mais algumas coisas que eu anotei lendo o artigo:

* leva a normalização e banmalização
* Vague media - a falta de direção não é falha, mas a própria essência
* Toda a rede é construída em torno da auto-referência
* Blogs - dentro ou fora da mídia de massa?
* Feedback channels
* To blog merely means to quickly point to news facts through a link and a few sentences...
* Impressions around a topic
* Limites fluidos entre blogosfera e midiasgfera
* Bloggers rarely add new facts to a news story
* As pessoas cada vez mais ignoram as "notícias"
* Extensão digital das tradições orais, transformação das notícias - de palestra a conversação
* Auto big brother
* Enlightenment by confession
* Truth has become an amateur project, not an absolute value
* Expressar a opinião não é só uma opção, mas uma obrigação, um impulso imediato para estar "lá fora com todo mundo"
* Seguindo Baudrillard, blogs são um presente para a humanidade de que ninguém precisa
* Não é mais possível viver a vida confortável de um "intelectual público" do século XX
* Bases instáveis - acabou o jogo pré-definido
* Paulo Virno diz que as pessoas primeiro vivenciam regras, com mais freqüência do que fatos, e muito antes do que eventos concretos
* O cinismo em si não é crítica consistente. Em vez de profundidade conceitual, tem-se associações abrangentes
* Comments vistos como nuvens de buzz
* Cynicism is "enlightened false consciousness" - Sloterdijk
* Justin Clemens - "Nihilism is not just another epoch amongst a succession of others: it is the finally accomplished form of a disaster that happened a long time ago"
* blogs are witnessing and documenting the diminishing power of mainstream media, but they have consciously not replaced its ideology with an alternative
* there is a sense that the Network is the alternative... blogging is a bleed-to-death strategy. Blogging is the opposite of the spectacle. It is flat (and yet meaningful).
* Gianni Vattimo argues that nihilism is not the absence of meaning but the beginning of new social paradigms, with blogging being one of them
* We no longe "believe" in Nothing as in 19th century Russia or post-war Paris. Nihilism is no longer a danger or problem, but the default postmodern condition.
* Justin Clements: "nihilism... is the finally accomplished form of a disaster that occurred long ago". In the media context this would be the moment in which mass media lost their claim on the Truth and could no longer operate as authority
* Karen Carr: the presence of nihilism evokes not terror but a yawn
* Blogs are primarily used as a tool to manage the self
* Andrew Keen: blogs do not arise from political movements or social concerns. They have an obsessive focus on the realization of the self
* O pesadelo de Sócrates: the flat noise of opinion
* Toda a rede é construída em torno da auto-referência
* Blogrolls (e links) supõem simpatia (Amazon, Google Pagerank, essas coisas). Crítica não é possível ("não vou linkar pra Veja" é subterfúgio)
* Communality of bias -> massa crítica só em swarm
* Erich Fromm - Fear of Freedom
* Realize a positive freedom that is based upon "the uniqueness and individuality of man"
* Direito de expressão deveria vir depois do espaço necesário pra pensar
Minha opinião: leia sim, mas tenha paciência

4. Surpreendente, do Steven Johnson. Dei uma folheada, li um pouco, parei. Tive de novo a impressão de que é um livro inteiro baseado em reafirmar repetidamente um só argumento, nesse caso de que a cultura pop e os videogames não são a gota d'água na decadência dos valores culturais, mas o contrário: exercícios para novas habilidades cognitivas. Acho que o livro bom dele foi o Emergência. mesmo, que eu li e recomendo. Por causa dele até baixei o starlogo e comprei o Morte e Vida de Grandes Cidades, que ainda não li mas pretendo antes do dia em que for viver em Ubatuba.

Também estão me esperando o Multidão, Reconhecimento de Padrões, As Veias Abertas da América Latina, o Magos, apresentado pelo Asimov, O Fogo Libertador do Pierre Levy, A Alma do Homem sob o Socialismo do Oscar Wilde e um monte de PDFs, pra épocas menos atarefadas. E agora olhando assim até uma vergonha de gastar tanto tempo lendo esses americanos todos.

Atualizando: É claro que sempre falta lembrar de algum... também estou lendo o Contracultura através dos tempos, cujo erro pode ser se pretender enciclopédico mas tá bem divertido, e esperando pra abrir o primeiro volume do Mil Platôs, que é daqueles de torcer feixes de neurônios. E ainda mais um me esperando é a Sociedade contra o Estado, do Pierre Clastres, indicação de Caminati.



Posts similares:
Stuff White People Like
Quick guide for a pleasant afternoon in Seoul
Qual é a religião certa para você?

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Miguel Caetano Email · http://remixtures.com

Felipe,

É, também já li o "Cauda Longa" todo na versão original e concordo que ele se estende um bocado. Mas o problema do livro mesmo é simplifica em demasia. Há ali muitas questões que ele descura, como a diferença entre cultura de massas e subcultura. Por outro lado, a grande contradição que eu encontro no discurso do Anderson é que a maior cauda longa que existe é o BitTorrent e outras redes P2P, e ele só refere isso ao de leve. Não é possível falar em termos de mercado quando todos os bens intangíveis são digitalizados. O que antes era escasso passa a ser abundante e deixa de ter valor. Pode ser "economia da dádiva" ou produção entre pares, mas não mercado, porque a tecnologia digital permite a cópia sem quaisquer limites. Por mais mecanismos de controlo que se tentem introduzir, a informação irá sempre escapar. Não digo que o mercado deixe de ser a forma económica dominante, mas ele apenas irá subsistir no que se refere aos bens tangíveis. A longo prazo, a única forma de grandes agregadores ganharem dinheiro online será através da publicidade a produtos e experiências que não podem ser digitalizadas. Essa é a sacada do Google e também do MySpace que são grandes armazéns de informação e cultura. E essa tendência para a bipolarização entre agregadores e o resto da rede livre tenderá a acentuar-se. Mas creio que isso irá gerar certos distúrbios no sistema. Eventualmente, capitalism will end up eating itself

A propósito da "cauda longa" no mercado da música, este artigo é interessante:

http://www.internetactu.net/?p=6931

PermalinkPermalink 07.04.07 @ 17:37



Comentário de: Karla Lopez Email · http://www.idearios.com.br

"mais espaço para pequenas formações de nicho, sem a pretensão de tornarem-se globais ou ubíquas".

Olha.. eu não sei você, mas sempre que eu defendo esse ponto de vista sou atacada de todos os lados por críticas do tipo "isso condenaria a internet a ser pra sempre um veículo economicamente inviável".

PermalinkPermalink 09.04.07 @ 09:42



Comentário de: felipefonseca

Oi, Karla. Economicamente, do grego óikos? A internet é totalmente viável. Acho que essas críticas devem ser interpretadas como "mas isso me impede de sonhar em ficar milionário com a internet".

PermalinkPermalink 09.04.07 @ 09:54



Comentário de: Karla Lopez Email

Tbm acho que é mais ou menos por aí...

Engraçado, olhando o comentário do Miguel, agora, me lembrei que os que mais chiam com essa história de pequenos nichos no lugar de um mercado são os músicos.

Todos os independentes querem usar a internet para se lançar, já que ela possibilita essa criação dos pequenos nichos, mas ninguem quer lidar com o efeito colateral, que pode ser o fato desses pequenos nichos até te darem uma carreira musical, mas não te permitir deixar eu dayjob.

Vc leu uma reportagem na uncut sobre esse "novo rock" vindo da america do norte, capitaneado pelo Arcade Fire? Pareceu-me bem bom... Chamaram isso de ´blogrock´(o termo é caído demais, mas o conceito deve interessar ao Miguel).

PermalinkPermalink 09.04.07 @ 13:32



Comentário de: felipefonseca

Karla, li não. Vou dar uma sapeada, se rolar.

E Miguel, concordo contigo. O cara tenta simplificar demais para caber no mundo Wired e justapõe exemplos pra provar uma tese que olhada a fundo não é abrangente. Vou dar uma lida no artigo.

PermalinkPermalink 09.04.07 @ 13:39



Comentário de: regis bailux Email

ff,
esperando vc abrir por ai os mil platôs...o fogo liberador emprestri ontrm para Teia....gostei das dicas e já comecei a mapear alguns.....parecido com vc mesmo acho que é Doglas adams....abs,
regis baiux

PermalinkPermalink 09.04.07 @ 22:57



Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Post anterior: Firefox ganhará funções de rede social

Próximo post: Diálogos na Casinha - 12/04/2007 - Stalker



Metapub

Busca

XML Feeds

Clique aqui para ver essa página no formato RSS/XML O que é RSS?

powered by
b2evolution