A MetaReciclagem andou bastante desde que a gente a criou, lá no fim de 2002. De um pequeno grupo de pessoas querendo simplesmente captar doações de computadores e reaproveitá-los em projetos sociais, a coisa cresceu ao ponto de virar uma rede distribuída que toma corpo de diversas formas diferentes. Montamos laboratórios autônomos, desenvolvemos uma metodologia que pode ser replicada virtualmente em qualquer lugar, influenciamos projetos de governo e aprendemos pra caramba. Nesse tempo, eu me envolvi diretamente com um monte de coisas que não imaginaria, me empenhei bastante em convencer as pessoas a não só desenvolverem seus projetos de maneira autônoma, mas também usar as ferramentas online que, na base da administração tosca de servidores e com muita ajuda de amigxs, eu coloquei no ar: a lista de discussão, o wiki, os blogs, o scuttle e a galeria. Os ambientes estão lá, muitos ainda com temas padrão e pouco customizados, mas tão rolando.
Recentemente, um artigo sobre a MetaReciclagem escrito pelo Sergio Rosa no Overmundo, algumas situações complicadas em um ou outro projeto e a minha angústia de não conseguir mais dedicar tempo a ler, pensar e escrever, aliados à perspectiva de grandes transformações na minha vida para o próximo semestre, me fizeram tomar algumas decisões. Estou me afastando totalmente da manutenção do servidor da MetaReciclagem - deixei tudo nas mãos de um pessoal, co-ordenados pelo Liquuid, chamei mais gente pra moderar a lista, e vou ficar mais quietinho no canto. Isso é acima de tudo uma aposta no caráter emergente da MetaReciclagem - e uma intuição de que meus dois centavos na lista não são tão importantes quanto eu costumava pensar.
Vou em busca de um pouco de liberdade e de menos peso no que eu falo. Tipo aquele momento do pai soltar a bicicleta do filho e ver que ele, pô, já aprendeu a andar!
O artigo do Sergio me fez ver também que aquilo que a gente já conversou tantas vezes sobre re-mitificação já está tomando forma, de maneira muito mais profunda do que poderíamos imaginar. Mas esse assunto fica pra depois.
Liga correria de studio de design de produto com reciclagem. Bem louco.
Lá em 2003, no meio de tudo-ao-mesmo-tempo que estava roland - MetaReciclagem tomando forma, experimentação toda semana no galpão, idéias brotando de tudo que é lado, eu comecei a conversar, primeiro por email e depois por telefone, com um indiano chamado Rajesh Jain. Conheci ele através do Emergic.org, blog sobre tecnologia, inovação e soluções de computação para países "em desenvolvimento". À época, ele escrevia bastante sobre a idéia de um computador de 100 dólares (antes desse corre todo do Mit), sobre redes TC-TS (iniciais em inglês pra "terminal leve - servidor parrudo"), sobre como o computador deveria ser visto como somente mais um eletrodoméstico, e um monte de outras idéias interessantes. Ele mantinha o hábito de blogar todo dia, várias vezes por dia. Ultimamente, achei difícil acompanhar o blog dele justamente por isso - lotava meu agregador de posts - e deixei um pouco de lado.
Mas voltando a 2003, a gente conversou bastante sobre tentar trazer pro Brasil algumas das coisas que ele andava fazendo com a sua Netcore: soluções de terminais leves pra usar computadores velhos. Nunca deu muito certo, mas só em saber que era viável flexibilizar daquela maneira o sistema operacional foi uma inspiração forte pra alguns dos nossos primeiros projetos, como os Autolabs e o CyberSocial. Serviu como inspiração também em outro sentido: na época, pensamos seriamente em levantar uma grana pra comprar lotes de computadores usados, remanufaturá-los com o pessoal que freqüentava os esporos, e depois deixar a molecada vender as máquinas pra levantar uma graninha. Só que parecia meio viagem a gente oferecer máquinas sem nada de infralógica. Aí bateu de fazer um site onde as pessoas tivessem um primeiro contato com a tecnologia, e de quebra já pudessem se articular em rede, conversar umas com as outras, re-conhecer os seres humanos que estavam por trás daquelas outras máquinas (e isso tudo antes de qualquer Orkut aparecer pra dominar o Brasil). Pensávamos em ter dois públicos - micro e pequenas empresas; e usuários domésticos. Para os usuários domésticos, apareceu de cara o nome do portal: Linganóis. Isso deu início ao site (história mais completa aqui), que duraria algum tempo e depois fecharia, mas serviria de base fundamental pra criar o que veio a ser o Conversê.Rajesh Jain tem uma história doida. Ele fez um dos primeiros portais de internet da Índia, que vendeu em 1999 por 100 milhões de doletas. E aí em vez de se mudar pra Inglaterra ou Estados Unidos e passar o resto da vida apostando em Baseball ou Rugby, decidiu investir em criar maneiras de trazer mais gente pra Internt. E aí me acontece de estar no aeroporto segunda-feira, esperando minha irmã, que se atrasou. Fui esperar na revistaria. Olhei pra Newsweek e achei que a matéria de capa era sobre o laptop de 100 dólares. Comprei, 11 reais. Sò depois que abri a revista percebi que na real a matéria de capa era sobre uma empresa indiana chamada Novatium, que desenvolveu uma solução mista de hardware - um terminal leve - com uma infra de rede, em que todo o ambiente de trabalho roda no servidor. O computador custa mais ou menos cem dólares, e deve baixar pra setenta. Liga direto na TV ou em um monitor de computador, e não tem nenhum periférico. Mas a minha surpresa na real foi outra: logo na página três da revista, tava lá estampado o Rajesh, com uma criança no colo. E não é só lá. Tá rolando uma pusta cobertura de mídia. A matéria da Newsweek conta toda a história dele, mas se equivoca ao colocá-lo como competidor do laptop de 100 dólares. São soluções que não têm o mesmo objetivo, não deveriam ser justapostas desse jeito. A matéria também parece não ter entendido o que é software livre (fala de "free software from an open source company like Linux"). Talvez esteja usando o Rajesh pra fazer propaganda anti-pingüim, ou é só mal-informada mesmo (duvido!).
De qualquer forma, mando aqui meus parabéns ao Rajesh. Que esse tipo de idéia cresça cada vez mais.
De modo a compartilhar toda a cocrância que senti ao ver Metapub in the air, resolvi postar os links dos álbums que criei na Galeria do Metarec, com fotos desses dois eventos fuderóticos by metarecicleiros:
Cibersalão.br/BH no Estilingue/Maletta + LaMiMe 2006-2007 no SESC/SP da Paulista.
Para o alto e avante!
Teve o dom! Liga q o mano Edney inaugurou essa correria tipo um blog farm, host coletivo, com a banca do Metareciclagem mais uma pa' de blogueiro famoso, centralizando a monetização usando adsense* pro catado, daquele jeito. Demorou! Cada um, cada um. Tipo, quem sabe rimar faz rima, quem sabe fazer conta faz a conta. Se virar, virou. Sem miséria!
A revolução não será televisionada!
* Tipo, por enquanto trombei com adsense só na home geral, se pam ainda tá só no sapatinho. Tá valendo!
Hoje abri meu email e encontrei um convite do Edney para participar deste blog. Na verdade, era um convite coletivo chamando também outrs metafóricos. Legal.
O Edney sempre está abrindo espaços informacionais para a comunidade blogueira. Ele hospedou o marketing hacker por um periodo. E, sempre foi mais do que um amigo digital.
O metapub pode trazer de volta, de forma metareciclada, algumas idéias que começamos a desenvolver na época do metáfora. Acho que depois de alguns anos estamos todos mais maduros. Desenvolvemos projetos muito diferentes e com muito sucesso. Vai ser bom retribuir a comunidade aquilo que dela catalisamos.
Só para atualizar o pessoal atualmente sou coordenador do LIDEC - Escola do Futuro | USP. Lidec é o laboratório de inclusão digital e de educação comunitária. Aqui desenvolvemos o conteúdo para o programa AcessaSP e otras cositas más. Aqui tenho a oportunidade de trabalhar com algumas idéias de descentralização, partilha e colaboração num ambiente de produção e, principalmente, para um número de pessoas considerável. E, vamoquevamo!
Sérgio Rosa, mineiro, fez um belo post no blog do Overmundo sobre o que ele entendeu da MetaReciclagem. Muito interessante é ver a idéia aos poucos se tornando aquilo que a gente imaginava há quatro anos, um conjunto de práticas que vai além do computador, vira uma metodologia desenvolvida de maneira descentralizada, e re-mitifica a relação entre pessoas e tecnologia. Trechim:
Vez ou outra surgem essas idéias “do bem”, que crescem escondidas e à parte da atenção das pessoas. Ninguém sabe direito como nascem, qual a sua origem, para onde vão ou quem está por trás delas. Isso não é muito importante. A metareciclagem é uma dessas idéias. Quando comecei a me interessar e pesquisar sobre o tema, percebi que já havia várias idéias e projetos surgindo em diversos cantos do país que buscam se apropriar de tecnologias para mudanças sociais.