Top 5,5: Melhores gibis de 2010 Tweet

Todo mundo pelos sites e blogs de quadrinho mundo afora já mandou suas listas de melhores e piores do ano que passou. E nós aqui não fizemos nenhuma. Para manter nossa tradição de atrasados, resolvi fazer uma agora.
Revisando as minhas pilhas de gibis de 2010, dando uma revisada no que eu li no correr do ano, descobri que eu li bem pouca coisa. Enxuguei o número de mensais (agora só LJA, Batman, Lanterna Verde e Vertigo) e foquei a grana em edições especiais. Isso aumentou exponencialmente o índice de boas leituras, ainda que não tenha conseguido extirpar completamente as leituras ruins (vou fazer um top sobre isso ainda).
Então vamos agora nos deter nas boas leituras, por enquanto.
5ª Posição: Tropa dos Lanternas Verdes (Panini)

Numa editora que tem J. M. Strakzinsky, Grant Morrison e o superestimado Geoff Johns encabeçando seu grupo de roteiristas, é difícil um escritor de fora da panela se destacar. Peter J. Tomasi deve saber disso. Mesmo escrevendo um título participante da grande aposta da editora nos últimos anos, o cara segue correndo por fora. Mas muitas vezes, sua dupla com Patrick Gleason em Green Lantern Corps supera (na arte nem tanto), com vantagem, o trabalho de Geoff Johns e Ivan Reis em Green Lantern. Seus diálogos costumam ser muito melhores do que do colega estrela (Johns) e seus personagens são muito melhor explorados. Kyle Rayner, Soranik Natu, Guy Gardner, Killowog, Arísia, Sodam Yat, Salaak e cia têm apresentado histórias muito mais interessantes e profundas do que as do cansativo Anal Jordan. Muito se fala do trabalho de Johns na revigorada que o universo do Lanterna Verde recebeu nos últimos anos, mas a consistência toda da coisa não sai (nem saiu) das mãos dele, mas dos dedos do injustiçado Peter J. Tomasi...
4ª Posição: Y, o último homem volume 3: Um pequeno passo (Panini)

Confesso que continuei a ler Y, de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, meio que no hype da galera que falava bem da série do que pelo que eu estava lendo mesmo. Uma premissa sensacional (algo misterioso mata todos os seres de sexo masculino da Terra exceto um jovem e seu macaco), mas que não mostrava a que tinha vindo, sobretudo por conta de seu protagonista irritante e inconsequente. Até que o terceiro volume nacional mudou tudo. Lembrando o leitor de um elemento óbvio mas impercebido até então (a praga atingiu os homens na Terra), Vaughan traz uma mudança e tanto injetando na trama um fôlego que ela só tinha tido, ao menos para mim, no primeiro número gringo. Com a adição do recente volume 4, a trama mostra que realmente engrenou, e que nada está lá por acaso.
3ª Posição: Namor: as profundezas (Panini)

Eu nunca gostei do Namor. Exceto num arco sobre o Tocha Humana original e os Invasores (desenhado pelo John Byrne), sempre achei o rei dos mares da Marvel um pé no meu saquinho de filhos. Exatamente por isso, nunca que por iniciativa própria eu compraria esse volume do personagem, em capa dura e cheio de geri-geri, apesar do preço convidativo. Quando o Marshall Law me recomendou (mais de uma vez) o material, foi ainda com um pé atrás que comprei e me sentei pra ler. E foi uma gratíssima surpresa! Peter Milligan nos brinda com uma história de suspense tão boa, tão bem construída, que eu não me lembro de já ter lido algo sequer similar com super-heróis antes. É praticamente um prequel de Marvels, num clima igual ao início de 20.000 léguas submarinas, mas com o atlante no lugar do Náutilus. Coisa fina no último.
2ª Posição: Mondo Urbano (Devir)

Já tem um bom tempo que eu acompanho o trabalho do Eduardo Medeiros. Primeiro porque a arte dele me lembrava muito o trabalho do Negreiros, ilustrador que eu gostava demais quando era moleque, e segundo porque suas tiras e histórias eram sempre sobre coisas do cotidiano de zilhões de jovens adultos brasileiros como eu. Foi no FiQ de 2009 que eu adquiri, autografada, a última parte da série que ele, em companhia de Rafael Albuquerque e Mateus Santolouco vinha produzindo, Mondo Urbano. Encore, a parte que eu tinha adquirido na ocasião, trazia a conclusão da história do roqueiro cujo sucesso pode, e provavelmente é, ser atribuído à guitarra endemonhada que possui. Era uma história boa, com boas ilustrações, mas sem nenhum brilho especial. Seria só mais um gibi bacana, tipo aqueles que eram publicados na extinta Mosh!/Jukebox se a Devir não tivesse importado a edição compilada da série, lançada na gringa pela Oni Press.
Mondo Urbano é uma HQ relativamente curta, sobre um show, uma banda e quase tudo que acontece dentro e ao redor disso num dia. Continua sendo uma história banal, no sentido de corriqueira, sendo a questão do pacto ou não apenas mais um atrativo nessa nossa vida de "celebridades" aos quilos. Mas é uma história banal muito bem contada eventos se encaixam com harmonia, com naturalidade, uma naturalidade difícil de se ver numa obra ficcional. Nada parece forçado, mesmo que nada seja gratuito. Palmas para os caras!
1ª Posição: Scott Pilgrim Vol. I (Quadrinhos na Cia.)

Isso eu já disse na resenha do filme, mas o primeiro volume (nacional) de Scott Pilgrim foi a coisa mais divertida que li neste ano que passou. Seu roteiro não é genial (nas mãos de muita gente seria apenas um saco de referências bizarras), a arte não é espetacular (em muitos momentos, é o exato contrário), mas trata-se de um gibi muito divertido. Divertido mesmo, de se sorrir, de ficar leve e não pensar em nada muito grande. É só você deixar a condução nonsense e rápida de Bryan Lee O'Malley te levar e tentar conter o sorriso. Scott Pilgrim não vai mudar a sua vida, não é um Watchmen, um Reino do Amanhã ou mesmo Um contrato com Deus, mas cumpre o principal objetivo de uma HQ, enquanto forma de entretenimento em massa: entreter, oras!
Personagens cativantes, uma narrativa ágil e que, ao contrário de muito autor por aí, não esconde em nenhum momento que se embriagou no mangá (e tampouco tenta se estabelecer como um mangá feito na América), fizeram de Scott Pilgrim o gibi que mais me impactou neste ano, justamente por ter me divertido muito. Sem guerras interplanetárias. Sem anéis de energia multicoloridos. Sem vilões chorando a morte de pessoas inocentes com quem ele pouco se importaria. Só um garoto vivendo um mundo de video-game para conquistar aquela que (parece) ser o bizarro amor de sua vida...
Posição 0,5: O arco de Gog na Sociedade da Justiça

Minha posição 0,5 o é simplesmente porque, salvo engano, esta história começou a sair ainda em 2009.
O universo DC tem algumas coisas que gastam a minha paciência. A idéia de cronologia, por exemplo, que funciona bem nas mãos de uns poucos bons escritores (como Grant Morrison). Outro, o conceito de Multiverso, que gera ainda maiores complicações. Pra completar, eu detesto o movimento encabeçado por alguns artistas da editora (como Alex Ross e Geoff Johns) de só o que foi criado na Era de Prata é que era bom. Entretanto, já há algum tempo, o único super-grupo da DC que tem segurado as pontas são os velhacos da SJA. E, num outro ponto, Reino do Amanhã é simplesmente minha HQ de super-heróis favorita de todos os tempos.
Então, o que esperar quando Geoff Johns, em companhia de Alex Ross (no argumento, o que é pior!) fariam um mugunzá juntando tudo isso: cronologia, multiverso, SJA e Reino do Amanhã? Merda, meus caros, o que se tinha a esperar era merda.
Mas aí sim fomos surpreendidos novamente! Ao misturar o velho-deus Gog, o Superman do Reino e a SJA "desta" Terra (com o tresloucado Starman da Legião), Johns, Ross e Engleshaw nos brindaram com o melhor arco de histórias que li em todo o ano passado! Questionando os heróis sobre o conceito de ajudar o próximo e combater o mal que (supostamente) guiam suas ações e colocando a hipótese sobre qual lado escolheriam caso um deus perceptível estivesse realmente a ponto de julgá-los (algo que Jim Starlin já tinha tentado fazer - sem sucesso - Na Cruzada Infinita, da Marvel), Johns expôs o verdadeiro caráter dos heróis, suas motivações e disposição para o combate em prol de seus ideais.
O arco de Gog junto à SJA é um daqueles raros momentos em que acompanhar uma revista mensal compensa. Pena que o termo "raros" ganhe mais força a cada ano...



