Tron – O Legado Tweet

Chegamos ao momento mais aguardado do ano por... mim!
Tá certo, Tron – O Legado pode não ser um filme que todos vocês estavam se roendo pra ver, nem ser tão falado quanto os bruxos, vampiros e outros seres mágicos de sexualidade duvidosa, mas certamente é o filme de ficção científica que nerds, geeks e outras categorias de nomes estranhos nas quais costumamos nos encaixar desejavam ver há anos.
E digo mais! O filme está plenamente à altura das expectativas!

Quando Tron – Uma Odisseia Eletrônica chegou aos cinemas em 1982, os computadores eram vistos como ferramentas de potencial incrível, algo que certamente mudaria nossas vidas. Os criadores de Tron resolveram extrapolar essas ideias ao levar um ser humano para dentro do computador, sobrevivendo num ambiente eletrônico hostil e convivendo com programas antropomorfizados feitos à imagem e semelhança de seus criadores.
Hoje em dia, vivemos cercados de computadores, às vezes sem nem mesmo perceber. Os recursos dos gadgets eletrônicos de hoje soariam como mágica no início da década de 80. Joe Quesada certa vez disse (com seu típico exagero) que o iPhone era uma versão real da caixa materna criada por Jack Kirby nas histórias dos Novos Deuses. Como seria possível fazer uma continuação de um clássico da ciência fantasiosa num mundo em que a ciência miraculosa é parte do cotidiano?
Pois os criadores de Tron Legacy (é uma penca de gente; não vou listar aqui) resolveram fazer jus ao nome e abraçaram o legado do primeiro filme, que deixou o público da época maravilhado com esse "mundo no computador". Num universo fictício no qual em 1982 um homem foi digitalizado e passou a viver dentro de um computador, o que aconteceria 10, 20 anos depois? Como esse mundo e essas ideias evoluiriam? Esse é exatamente o legado de Tron e (sem revelar spoilers) digo apenas que a ideia levantada pelos criadores é tão boa ou melhor que a original!

A trama do longa dirigido por Joseph Kosinski é até bem simples. Apesar de começar novamente na Encom (que rende uma cena divertida com a participação não creditada de Cillian Murphy – o Espantalho, porra!), a espionagem empresarial não é importante dessa vez como foi há quase 30 anos.
O início do filme serve para mostrar que, após os acontecimentos de Tron, Kevin Flynn (Jeff Bridges) se tornou o pica-grossa da Encom, mas gostava mesmo é de ficar passeando no novo mundo computadorizado ao lado de seus camaradas eletrônicos Tron e (um novo) Clu (respectivamente, Bruce Boxleitner e Jeff Bridges reprisando papéis de 28 anos antes graças à magia dos computadores! Irônico, não?).
Flynn passava cada vez mais tempo naquele mundo (tipo aquele seu amigo que não sai do World of Warcraft, saca?). Um dia o cara simplesmente não volta pra casa. Já crescido, seu filho Sam (Garrett Hedlund) recebe um sinal, resolve ir atrás do pai, cai no velho truque do raio laser digitalizador pelas costas e vai parar no mundo de Tron (agora com équio em 3D!) e daí começa a putaria propriamente dita.

A renovação do mundo eletrônico de Tron foi uma jogada interessante. O Grid "2.0" tem outras regras e outro visual, o que permite criar algo novo sem entrar em conflito com a primeira história, e ao mesmo tempo utilizar toda a tecnologia de efeitos especiais que existe à disposição hoje.
Se em muitos filmes o 3D parece desnecessário, aqui a tecnologia parece perfeita para mostrar de forma adequada o incrível mundo computadorizado. O velho joguinho das motos de luz agora é jogado/lutado em vários níveis, com rampas transparentes criando atalhos e desvios, criando um novo desafio que exige uma nova forma de se pensar em uma solução. O mesmo raciocínio se aplica a todas as sequências de ação, seja com carros, naves ou uma briga de bar, num mundo em que tudo é sempre móvel, transparente e brilhante.

Entretanto, se o visual está mais complexo, a moralidade está mais crua. Na primeira luta de Flynn no mundo digital de Tron, o personagem vai contra as regras do vilão e poupa seu adversário da "morte". Na continuação, Sam é jogado num mundo onde as opções são matar ou morrer e não tarda a fazer sua escolha. O próprio efeito visual da "morte" dos programas é um tanto desumanizado, o que faz sentido se pensarmos que programas não estão vivos no sentido estrito do termo, mas deixa de lado o impacto de cenas como a desintegração do Clu original em 82.
Outra importante evolução no aspecto visual é o grau de imponência do novo mundo digital. As paisagens, as construções, os veículos, tudo é não apenas grande, como opressor e ameaçador. A sensacional trilha sonora do Daft Punk (que participa do filme, aliás) ajuda a reforçar o caráter épico da aventura.
Um assunto que sempre foi de grande interesse para os nerds em geral, a participação da Treze Olivia Wilde como Quorra é extremamente interessante (e não digo nada além disso para evitar spoilers), mas infelizmente não chega nem perto de ter peitinhos no filme; a guria de jeitão robótico fica o tempo toda coberta. Mal aí...

Se a nova produção traz de volta aspectos positivos da primeira parte, também carrega aspectos negativos desse legado. As interpretações em geral continuam muito rasas e a trama é divertida porém simples ao extremo, o que deixa a sensação de que o filme poderia ter uns 20 minutos a menos sem perder muito conteúdo.
Mesmo assim, o longa é muito empolgante e extremamente divertido, principalmente pelas ideias e questões (científicas, sociais, religiosas e filosóficas) que aborda, que não poderiam ser consideradas nem como ciência especulativa. Tron Legacy é pura ciência fantasiosa, é um exercício de imaginação que tem tudo para agradar mesmo pra quem nunca ouviu falar de Tron.
O fã ainda terá o prazer extra de ver incontáveis citações ao original, além de observar o (surpreendente) futuro de personagens que conhecemos há quase 30 anos. E o final em aberto deixa no espectador a curiosidade crescente de saber para que lado seguirá a história. Sim, o final praticamente grita por uma continuação. Só faltou aparecer na tela "Tron Kills" e "Tron Kills Again". E tomara que dessa vez não demorem tanto!
Nota: 10
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