Melhores do Mundo

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Nov 9

A gente lemos: Mondo Urbano, Vol. I


Três quadrinhistas brasileiros num gibi autoral. Mas o material é pós-gringo...

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Quem está um pouquinho que seja ligado no mundo do quadrinho nacional, sabe que quem quer publicar, quem quer aparecer, só consegue se sacar a publicação do próprio bolso. Mesmo quando você tem trabalhos publicados pela Boom! Studios, Dark Horse, DC e Marvel Comics, como Mateus Santolouco; ou pela Image, Boom!, Dark Horse e um contrato de exclusividade com a DC Comics como Rafael Albuquerque; ou ainda, quando você já ilustrou para a Folha de São Paulo, as revistas Mundo Estranho e MAD, ou participou da animação Woody & Stock, sexo, orégano e rock 'n' roll, como Eduardo Medeiros.
Mondo Urbano, escrita e ilustrada por esse power trio e publicada mês passado pela Devir Livraria, só ganhou as bancas e revistarias em larga escala depois de ser lançado (e elogiado) na gringa. Pode uma coisa dessas? Não só pode como aconteceu e acontece.

Ano passado, no FiQ, tive oportunidade de adquirir a última parte da história autografada pelo Medeiros. É que os caras haviam lançado Mondo Urbano de forma independente, em quatro partes: Powertrio, Overdose, Cabaret e Encore. Apesar de só então ter lido Encore, a trama me empolgou: um trio de rock 'n' roll, onde o frontsman (acidentalmente a cara do Kurt Cobain) e grande astro se suicida depois de um show apoteótico. A história era toda contada por um repórter, empenhado em escrever a biografia de Van Hudson, o astro da banda De-Mo, e sua história de sucesso relâmpago, sexo, drogas, rock 'n' roll e um pacto com aquele-que-ronca-e-fuça. Quando li Encore, achei uma boa história curta. É claro que ela fechava um arco que eu não tinha lido, mas era auto-contida o suficiente para que isso quase não incomodasse. Bem, não incomodava até eu ler Mondo Urbano!

Pode procurar por aí: você vai achar muita gente dizendo que a HQ é um thriller de suspense sobre um trio de rock e uma guitarra (para canhotos) amaldiçoada. Nada poderia ser mais míope! Ainda que a história da De-Mo (na verdade, a história do último show deles) seja o fio condutor da trama (é em torno desse evento que tudo que acontece no gibi se dá), ela é muito mais o pano de fundo do que a estrela: o ponto alto (altíssimo) da HQ são as pessoas que orbitam o show. Albuquerque, Medeiros e Santolouco povoaram as 128 páginas do álbum com um monte de tipos comuns, gente que com certeza você conhece aos borbotões - roqueiros, nerds virgens, aquele amigo machão-pegador, a garota que cometeu um erro e vai pagar por ele, ou um groupie no melhor estilo Penny Lane (de Quase famosos). Se juntar esses tipos e contar suas histórias pode parecer banal (e talvez fosse) é a forma como o trio de quadrinhistas resolve fazê-lo que conta e faz a diferença.

Tá, o recurso da narrativa não-linear já tá mais pisado que o entorno da estátua de Padre Cícero, a constante mudança de estilo gráfico (os autores se alternam em ritmo aleatório) faz com que você precise prestar mais atenção, conhecer bem os personagens para não se perder. E, por incrível que pareça, isso não é ruim. Mondo Urbano é uma HQ que você precisa ler duas vezes, para perceber todas as intercessões que esses três malucos colocaram na trama, e com isso poder montar a história com começo-meio-fim. Esse é o maior mérito de Mondo Urbano: trabalhar com tramas paralelas de se cruzam de maneira muito natural, sem forçada de barra, de modo que você diria "Hey, isso pode acontecer!" e justamente por isso mesmo ser genial. Pra mim, é remota a possibilidade de este ano eu ler outro material nacional (talvez até internacional) melhor (ou até tão bom quanto) este. Quadrinho de primeiríssima qualidade.

Como se pode ver, este é o volume I. No final da edição, há uma prévia curta (quatro páginas) do próximo capítulo e, caramba, a sensação De volta para o futuro II já me deixou de orelha em pé aguardando o lançamento! Acorda Devir! Vai deixar os gringos passarem a perna na gente de novo?

P.S.: Falando em gringos, a edição amerikkkana da revista, lançada pela Oni Press, trouxe um brinde ducaralho quando de seu lançamento na San Diego ComicCon deste ano: uma palheta com a cara do Van Hudson de um lado e do outro uma máscara de Oni (que, pra quem não sabe, são figuras míticas japonesas normalmente associadas aos demônios da nossa cultura). Jogada de mestre da Oni Press que não inspirou a Devir nem um pouquinho. Bastardos...

Mondo Urbano, de Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque. Devir Livraria, 128 páginas, R$25,00.

Nota: 10 (com louvor)


Poderoso Porco • 18:00:09 • Quadrinhos, A gente lemosPermalink 51 comentários
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