Como se tornar um quadrinista? #1 Tweet

É isso aí, galera! Depois de um longo inverno, Mallandrox está de volta! E para mostrar que eu não retornei em vão somente com as minhas cagadas de regras e ataques de pelancas, eu trago uma nova série de posts especiais no MdM.
Em "Como se tornar um quadrinista?", dois relevantes quadrinistas brasileiros tentarão responder essa maldita pergunta para que os pretensos quadrinistas já saibam do que está por vir.
No primeiro post, ninguém menos que Mozart Couto e Otoniel Oliveira!

Eu penso que a primeira coisa é ter a aptidão natural de desenhar de forma bem encadeada, em sequência, uma narrativa. Isso é muito importante porque há aptidões várias nesse ramo. Uns tendem para o cartum, outros para desenhar figuras separadas, ou cenas únicas com um ou mais personagens. É preciso perceber as diferenças e ver onde se encaixa de forma mais natural.
Para aprimorar essa aptidão, deve-se estudar técnicas do desenho tradicional além da narrativa e a linguagem dos quadrinhos. Em seguida, desenhar muito. Sempre! Observar o trabalho de outros profissionais, aprender bem como eles "resolvem" graficamente as situações nas HQs. Nesses casos, tendo-se a oportunidade de ver um roteiro e os desenhos que ilustram o mesmo, feitos por um bom profissional, é muito importante. Conhecer diversos tipos de materiais de desenho tradicional e digital também é essencial. Experimentar e encontrar aqueles que mais te satisfaçam.
Ter em mente de que o que vai fazer é um trabalho sério e que cumprir prazos, ter um bom relacionamento com editores e leitores, baseado na seriedade e veracidade também é vital. Manter sempre um portfólio atualizado com desenhos relacionados à área que deseja atuar. Sempre desenhos terminados. Nada de colocar coisas que nunca vai acabar em seu portfólio.Ter a capacidade de manter o mesmo padrão de qualidade numa produção, do primeiro ao último quadrinho. E sempre se inteirar das novidades realmente relevantes, não de modismos passageiros.
Nunca copie ninguém, a menos que seja para treinar. Busque sua forma particular de desenhar e narrar graficamente as histórias para que todos que olhem seu trabalho reconheçam a autoria de imediato. Respeite os colegas. Evite críticas e debates inúteis, recheados de vaidade ou opiniões sem embasamento. Aceite críticas sérias, vindas de pessoas do ramo. Solte a criatividade, trabalhe e estude muito. Por fim, tenha um conhecimento geral sobre quadrinhos.
Jamais fique preso a um estilo rígido, como só ver/ler comics, ou mangás, por exemplo. Estude e mantenha-se atualizado sobre os quadrinhos no mundo. Desenvolva uma cultura geral. Tudo poderá ser utilizado nas HQs.
Mozart Couto é quadrinista desde os anos 70, tendo em seu currículo quadrinhos eróticos, de super-heróis e autorais, que foram exportados para a Europa e Estados Unidos. Recebeu prêmios como Prêmio Angelo Agostini e Prêmio Jabuti.

Taí uma boa pergunta. Como se tornar um quadrinista. Bem sendo direto é fazendo quadrinhos. E por mais simples que essa resposta possa ser, ela tem uma certa complicação.
Fazer alguma coisa de verdade não é só reapresentar o que se viu antes, repetir o que se gosta, entrar em uma fórmula, mas eminentemente procurar algo novo, algo que tenha sentido pra si, pro mundo e visão do próprio artista. Esse caminho vai –logicamente– se basear no que já foi visto, no que já foi trabalhado antes, mas vai mostrar isso de alguma forma diferente, dentro de um significado próprio, em que o autor, o quadrinhista, vai ser sincero consigo mesmo.
Eu acredito, por exemplo, em super-herois brasileiros, mas nossos supers não iam, eu creio, lutar contra o crime de forma puramente autruísta enfiados em colantes coloridos. No Brasil, nossa forma de ver o mundo e nossa motivação é diferente. A resposta de nossos quadrinhistas também deve ser.
Quando comecei a fazer meus quadrinhos, eu vi gradativamente o quanto eu ainda estava preso a fórmulas do que se lia nos comics, e quanto mais eu lia quadrinhos de fora da indústria americana mais eu via que haveria uma outra via de ser sincero com o que me rodeava sem ficar preso a uma fórmula que funciona principalmente pra americanos. Não que eu não goste de comics, eu os leio muito até hoje, mas fazer quadrinhos depende muito de quem nós somos de verdade e o principal nesse caso e sermos sinceros som nossa visão de mundo, que nem o Laerte, o Angeli e o Maurício. Fazer quadrinhos é dizer alguma coisa, e o que se diz deve ser bem pensado.
Otoniel Oliveira é professor de Quadrinhos e Arte Sequencial para o curso de Comunicação de Design da FEAPA. Lançou em 2004 junto com o Casa Velha o Belém Imaginária, uma história de fantasia, em 2006 Encantarias, sobre a mitologia indígena e em 2009 Pretérito Mais Que Perfeito, sobre o tempo e o cotidiano urbano. Participou do MSP 50, da obra histórica Brasil 1500 e este ano lançará quadrinhos direto na web.
E aí, gostaram da ideia? No próximo post, a pergunta será feita para dois quadrinistas que conseguiram publicar seus próprios personagens no Brasil. Não percam!



