Melhores do Mundo

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Mai 24

Fúria de Titãs

Não vi a primeira versão de Fúria de Titãs, de 1981, ou talvez até tenha visto, mas minha memória já misturou com os outros inúmeros filmes sobre mitologia clássica com monstros em stop-motion que assisti na Sessão das Dez do SBT.

De qualquer forma, sendo uma refilmagem, fica difícil de saber de quem é o mérito e a culpa pelos aspectos positivos e negativos do filme. Mas, se serve de parâmetro, a nova versão me fez perder a vontade de conferir a original.

[Mais:]

Perseu (Sam Worthington) é encontrado no mar ainda bebê por pescador e é criado como seu filho. Já adulto, ele e sua família são pegos no fogo cruzado de uma guerra entre os reis gregos e os deuses do Olimpo. Só Perseu sobrevive, e logo descobre que é um semideus. Sabendo disso, o rei de Argo envia Perseu numa missão pra salvar sua cidade da maldição dos deuses. Perseu aceita por ver na missão a chance se vingar do deus que matou sua família. Muita porrada. Coisas saltando da tela na sua cara (se a projeção for 3D). Final feliz e babaca.

Bom, pra quem ainda não conhecia, essa é a trama. Tem mais coisa no meio e umas tramas paralelas, mas nada relevante ou interessante. Na verdade, até essa sinopse parece mais interessante que o filme em si.

Existem dois caminhos básicos pra um filme falando das porradarias homéricas da mitologia grega (homérica, Homero, Grécia, entendeu? Hã, hã? ). Pode-se mergulhar naquele rico conteúdo da mitologia que formou o pensamento ocidental e que é utilizada por diversos pensadores como metáfora para falar de nossa própria sociedade (o Édipo de Freud, o Dioniso de Nietzsche etc.). Ou pode-se deixar a reverência de lado e transformar todo o poder dos deuses em pirotecnia pop, resultando num produto massa véio da melhor qualidade, como faziam os seriados Hércules e Xena.

A obra dirigida por Louis Leterrier (de O Incrível Hulk) não faz nem uma coisa nem outra. Tenta construir um blockbuster padrão, mas deixa a desejar. Leterrier fez um filme de ação que não é ruim, raso (em comparação com outros do gênero) ou constrangedor (vide Transformers 2), mas que comete o pior pecado de um filme de ação: não empolga o público.

Existe uma regra de ouro que qualquer diretor de filme de ação segue à risca. O filme não precisa ser inteligente, não precisa ser coerente, não precisa nem mesmo ter início, meio e fim. Mas as cenas de ação precisam empolgar o público. Essa é uma regra que Michael Bay conhece bem. Seus filmes são uma bosta, mas agradam o público em geral a ponto de fazer alguns ficarem inventando justificativas intelectuais para tornar o filme elogiável. Leterrier cagou pra essa regra.

O pior é que esse filme tinha tudo pra dar certo. Era a refilmagem de um clássico para vários velhos saudosistas como o Hell, usando o tema da mitologia, que sempre desperta o interesse das pessoas, com o astro do momento, o onipresente Sam Worthington, além de um elenco de responsa (Liam Neeson, Ralph Fiennes e a linda Gemma Arterton), tudo isso embalado no pacote do 3D, que ajuda a vender até gelo na Sibéria. Por isso, a sensação geral ao sair do filme é de desperdício de um bom conceito.


Perseu e o Chewbacca do deserto

Existem elementos positivos, claro. Sam Worthington parece ter se firmado definitivamente como o herói de ação que será o padrão daqui pra frente, um Bruce Willis com mais preparo físico, só que com talento e carisma limitados. Mas o fato deste ser o mais fraco dos três trabalhos mais conhecidos de Worthington (junto com Terminator Salvation e Avatar) já diz muito sobre a qualidade duvidosa do filme.

Que Liam Neeson e Ralph Fiennes são atores de qualidade, ninguém duvida. Mas Titãs não teve falas minimamente interessantes para seus personagens. Aliás, um fato curioso é que a legenda apresentou traduções que não chegavam a ser erradas, mas deixaram chatas as poucas boas frases de efeito. É como se o tradutor pensasse "essa fala está boa demais pra esse filme, vou piorar um pouco". Por fim, a presença da cuti-cuti Gemma Arterton (que também está no vindouro Prince of Persia) é sempre um aspecto positivo.

O 3D é aquilo que já era esperado, não faz nada que outros filmes já não tenham feito. Nas tão faladas cenas de batalha aérea, a combinação entre a tecnologia 3D e as imagens em CG muito descaradas dá uma sensação de videogame para a sequência. E ver uma imagem típica de gameplay sem poder controlar o que acontece é chato pra caramba (até os produtores de games sabem disso, dando um jeitão de cinema pras ceninhas não jogáveis da narrativa dos jogos contemporâneos).

Minha impressão é de que esse filme vai virar um bom tapa-buraco da TV aberta. Aquele filme que passa entre o programa de auditório e o futebol numa tarde de fim de semana e que você até assiste, mas depois nem lembra direito. Definitivamente não vale o preço do ingresso de cinema, muito menos do caro ingresso da sessão com 3D.

Nota: 4.

Fiquem aí com o trailer com edição de videoclipe que é melhor que o filme completo:

PS: Pra vocês que acham que o longa-metragem deve ser sensacional e que essa crítica é parte da campanha difamatória do MdM pra derrubar a bilheteria de mais um filme (como fizemos com Watchmen [valeu, Cardoso!], O Incrível Hulk, o Quarteto Fantástico e o Superman Returns), mostrem que vocês são espíritos-livres e têm o pensamento divergente e paguem 22 reais para ver Fúria de Titãs em 3D. Já deixo antecipadamente um "parabéns, campeão!" a todos.


Nerd Reverso Email • 12:00:08 • Cinema, A Gente Vimos, TrailersPermalink 84 comentários
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