Post do Leitor: Dez anos sem Peanuts Tweet

O leitor Marshall escreveu um perfil fodão abordando o nosso imortal Charles Schulz e tudo o que rolou desde sua partida. Como faz falta o pai do Charlie Brown...
Certa vez, numa cidade chamada St.Paul, do estado americano de Minnesota, uma professora de jardim de infância disse a um de seus alunos:
- Um dia Charles, você será um grande artista.
Charles – ou Sparky, como gostava de ser chamado - era um garoto tímido e solitário. Gostava das histórias do Popeye e do Mickey Mouse e amava desenhar. Não era popular e não se achava especial.
Ninguém poderia imaginar o quanto aquele garoto seria grande na arte que escolheria: os quadrinhos.
Charles M. Schulz em 1956.
Seu nome completo era Charles Monroe Schulz. Nascido no dia 26 de novembro de 1922, na cidade de Mineápolis, Minnesota, filho único de Carl Schulz (alemão/americano) e Dena Halverson (de origem norueguesa).
O Criador de Peanuts, a mais famosa tira de todos os tempos, faleceu no dia 12 de fevereiro de 2000, na cidade de Santa Rosa, Califórnia.
Charlie Brown e seus inseparáveis companheiros
Durante 50 de seus 77 anos de vida ele escreveu, desenhou e arte finalizou sozinho todas as 17.897 tiras – um verdadeiro estúdio de um homem só.
Seus icônicos personagens são reconhecidos e amados por pessoas de todas as idades, nos mais diversos cantos do globo. Em 2004 estimava-se que possuía 350 milhões de leitores em mais de 2.500 jornais de 75 países.
Sua obra foi adaptada para cinema, televisão, teatro e musicais.
Fenômeno de licenciamento sem paralelo nos quadrinhos, Peanuts tornou seu criador um dos artistas mais bem remunerados do mundo.
Charles Schulz era um homem reservado e dedicado ao trabalho. Avesso a estrelismos, no auge da fama e do sucesso, aos 58 anos escreveu:
”Às vezes eu gostaria de poder voltar aos tempos em que vivia com a minha mãe e o meu pai. Seria ótimo poder entrar naquela casa, onde encontraria minha mãe na cozinha e os meus gibis ali na sala, e eu poderia deitar no sofá, ler alguns gibis e depois jantar com meus pais”.
A persistência é marca registrada de Charlie Brown.
Sparky teve uma juventude difícil.
As vésperas do seu sétimo aniversário a “Grande Depressão” desabou sobre os EUA levando milhões de americanos ao desespero.
Não teve nenhuma namorada no colegial (achava que nenhuma garota prestaria atenção num cara como ele) e fazia curso de desenho por correspondência.
Aos vinte anos de idade foi convocado para o exército e embarcou para a guerra na Europa, apenas três dias após a morte da mãe, vítima de câncer. Foi oficialmente dispensado do serviço militar em janeiro de 1946, como sargento.
Na volta ao lar, tornou-se professor de desenho no mesmo curso que completara anos antes. Estreou profissionalmente em 1948, com a tira “Li´l Folks”, publicada no Jornal “Pioneer Press” da cidade de St. Paul.
Em outubro de 1950 apresentou projetos dois projetos de tiras numa reunião da United Feature Syndicate, em Nova Iorque. Um dos projetos trazia personagens adolescentes e foi rejeitado. Peanuts era o outro. Na verdade o nome não foi escolhido pelo autor, que jamais o aprovou, mas sim por um dos editores executivos, que queria um nome infantil fácil de aprender.
O sucesso foi tão rápido que em muito pouco tempo já não havia possibilidade de alteração do nome.
È importante ressaltar que o início da década de 50 foi um período histórico auspicioso para os EUA. Uma época de otimismo contagiante e ufanismo patriótico. Ironicamente, a tira apresentava como personagem central um menino deprimido, protagonista de histórias engraçadas, porém distantes da euforia do mundo real.
Lucy sempre disposta a ajudar.
Superando as expectativas de seu autor, a tira foi um sucesso, e sua publicação cresceu rapidamente durante os anos 50. Na década de 60 atingiu centenas de jornais em dezenas de países. Simultaneamente estreava na televisão a fantástica animação produzida por Bill Melendez. Em dezembro de 1969 o especial de Natal do Charlie Brown foi recorde de audiência e recebeu um Grammy. Seu primeiro longa, “Um Garoto Chamado Charlie Brown”, provocou filas quilométricas nos cinemas.
A popularidade crescia sem parar, ano após ano, levando o licenciamento de produtos a um nível jamais imaginado.
O próprio Schulz tinha dificuldade em explicar tamanho sucesso.
Era um homem bastante simples. Não apregoava nenhuma filosofia, ideologia ou política. Não tentava explicar a vida ou passar uma mensagem definida. Dizia que cada leitor deveria encontrar ali o que bem entendesse.
É bem sabido que Schulz criou Charlie Brown como seu alter ego (o pai de ambos era barbeiro). Ele também projetou muito de si em todos os outros personagens. Sua paixão pela música, esportes, seus sentimentos e experiências pessoais – está tudo lá.
E de forma lenta e sutil, ele convidava seus leitores a imitá-lo.
Esta talvez seja uma explicação possível para a extraordinária aceitação da tira.
Os leitores encontravam em Peanuts uma tela onde projetar seus próprios sentimentos, lembranças e experiências.
Quantas pessoas já tiveram sua própria garotinha ruiva ou tropeçaram e caíram quando alguém puxou a bola bem na hora do chute? Quantos passaram vergonha na sala de aula ou não eram bons nos esportes? E outros tantos certamente tiveram irmãos mais novos com hábitos estranhos ou irmãs mais velhas tirânicas e dominadoras.
É difícil imaginar alguém que não se identifique de uma maneira ou outra com algum personagem ou situação saída da imaginação de Charles M. Schulz.
Marcie, Paty Pimentinha e Chiqueirinho.
Durante toda sua vida, Charles Monroe Schulz sempre quis ser quadrinista. Tinha muito orgulho do seu trabalho. Atingiu enorme sucesso e reconhecimento, mas via a si mesmo como um homem simples. Exerceu sua profissão com amor e dignidade até o fim. Nos seus últimos anos tinha as mãos trêmulas e só com muito esforço conseguia desenhar. O traço tremido é bem visível em suas tiras de 1998/1999. Ainda assim, nunca quis parar. Só se aposentou quando sua visão e suas mãos já estavam muito debilitadas.
O biógrafo David Michaellis assim descreveu seus momentos finais:
“Na fria e chuvosa noite de 12 de de fevereiro em Santa Rosa, Schulz foi para a cama pouco depois das nove e puxou as cobertas até a cabeça. Às quinze para as dez, poucas horas antes de a última tira de Peanuts ser publicada em dezenas de jornais de domingo ao redor do mundo, Charles Schulz morreu – sua vida e sua arte chegaram ao fim exatamente ao mesmo tempo. Assim que deixou de ser quadrinista, deixou também de viver” (extraído do ensaio “ A vida e a época de Charles M. Schulz – Peanuts Completo volume 1).
A morte de Schulz representou uma enorme perda. Sua vida foi a realização de um sonho. Felizmente seu legado imortal continua conquistando legiões de admiradores ao redor do mundo. Seus personagens não respeitam fronteiras e parecem não se importar com a passagem do tempo. Podem ser encontrados em jornais, revistas, televisão, internet, na papelaria ou farmácia mais próxima.
Mas a imaginação dos fãs sempre será o verdadeiro lar dessa turminha da pesada.
Peanuts Completo v. 1
A notícia da publicação no Brasil da coleção Complet Peanuts causou espanto e encheu os fãs de ansiedade.
É uma iniciativa ousada, pra dizer o mínimo. Afinal são 17.897 tiras, em 50 anos de publicação ininterrupta. A coleção completa deve ocupar um espaço maior que uma Enciclopédia Barsa.
Felizmente, o primeiro volume da coleção em terras brasileiras correspondeu as expectativas, pra dizer o mínimo.
A encadernação chegou a ser anunciada em capa cartonada, mas veio em capa dura, no padrão da edição americana. É Material feito pra durar.
Além das 287 páginas ocupadas pela tiras, compõem o volume uma introdução por Garrison Keillor (que não é devidamente apresentado, mas supõe-se ser um conterrâneo de Schulz), um belíssimo ensaio pelo autor da polêmica biografia de Charle M. Schulz (ainda inédita no Brasil), David Michaellis e uma longa e reveladora entrevista com o autor, realizada em 1987.
Um prático índice temático fecha o conjunto.
Este primeiro volume guarda muitos detalhes interessantes, verdadeiras preciosidades para os fãs. Entre elas:
- Ocorrência de violência física;
- Primeiras aparições de Linus, Lucy e Schroeder;
- A primeira vez que Charlie Brown errou a bola de futebol americano (e não é a Lucy que puxa a bola).
É uma Oportunidade imperdível para os fãs. A chance de voltar 60 anos no tempo e acompanhar com olhar atento os primeiros passos de Charlie Brown e Cia rumo ao estrelato.
Há diferenças marcantes em relação às tiras mais conhecidas (anos 60 adiante), tanto nos roteiros quanto na arte.
Exemplo disso são seus primeiros protagonistas, ao lado de Charlie Brown.
Patty, Shermy e Violet começaram como astros, e mais tarde seriam “rebaixados” ao segundo escalão.
Schulz inaugura a tira com um traço bastante tímido e vai aos poucos aprimorando-o na busca de uma identidade visual. Seus primeiros personagens apresentam mais variações de personalidade, não possuindo ainda características perfeitamente definidas.
O maior exemplo é o próprio Charlie Browm. Sua tão característica melancolia está presente, mas alternada com arroubos de pura peraltice e até mesmo com inesperadas manifestações de carinho por parte das meninas.
Um momento profético.
Outros exemplos da experimentação de Schulz, são as variações de elementos de cenário e alteração da composição visual dos personagens. Olhos, cabelos e formatos de cabeça, perspectivas diferentes, pequenas alterações sutis aqui e ali, tudo traduzindo o esforço criativo do autor.
Em suma, trata-se de material inestimável para fãs e colecionadores.
O preço sugerido de R$68,00 intimida, mas o livro pode ser encontrado a R$47,60 em lojas virtuais (Fnac).
O segundo volume, contendo as tiras de 1953/1954 deve chegar brevemente as livrarias, contendo um fato inusitado: pela primeira e única vez, adultos são mostrados ao fundo de algumas tiras.
Imperdível.



