Omelete, Panini e as dúvidas que não cabem! Tweet

Ontem o Change me citou em seu post sobre a "revolução" da Panini. Achei legal aprofundar o assunto, especialmente por outras informações que não vejo comentarem.
Para começar: já trabalhei como repórter e assessor de imprensa. Os dois lados têm suas obrigações éticas e profissionais. Como repórter, obtive e pedi muitas vezes exclusividade de uma informação. É um expediente normal. O repórter do Valor Econômico sempre terá um acesso mais privilegiado do que um profissional do Brasil Econômico. Justo? Não. Normal? Sim.
E qual o porquê disso ocorrer? Simples. As assessorias querem garantir o melhor espaço para seu cliente, mesmo respeitando todos os veículos. Já negociei muitas vezes conceder ou receber uma informação antes de outros, inclusive para este blog.
Apesar de tudo isso, nunca, em momento algum da minha vida profissional, vi a situação bizarra de uma empresa negociar a exclusividade e divulgar em qual canal a informação será dada. É como se um dirigente esportivo dessa uma informação para um veículo e avisasse a todos para lerem aquele jornal porque a notícia vai sair ali. Ele não vai falar para mais ninguém.
Isso dá margem para outras dúvidas: é uma informação ou um teaser? O veículo negociou uma exclusividade ou um espaço privilegiado? Porque se é uma informação, qual o interesse da fonte em divulgar? Ela divulga todos os que publicam suas informações?
E, principalmente, qual o motivo da assessoria da Panini fazer propaganda do site de graça? Diversos sites e blogs publicam informações sobre os produtos da editora. Qual o motivo de um deles receber um tratamento tão cordial quando deveria ser profissional? Em um mundo onde nada é de graça, será que uma empresa que publica produtos culturais pode trabalhar em parceria com outra que trabalha com informação cultural? E como seria essa parceria?
São tantas perguntas que não cabem em uma relação direta entre leitor e site. Erico Assis se refere às mudanças editoriais da editora como revolução em seu perfil e fez uma entrevista pouco incisiva com Helcio de Carvalho, responsável pelas mudanças. Seu bate-papo com Carvalho é, na melhor das hipóteses, de uma incompetência absurda em termos de comunicação. Não questiona de onde diabos o editor tirou seus números e simplesmente ignora o fato da empresa chamar de revolução algo que não altera nenhum paradigma editorial.
Será que ninguém lá vai perguntar para a Panini o porquê de chamar essas mudanças de revolução?
Assis já fez trabalhos para a Panini como tradutor, mas não revela isso em seu perfil no Omelete. Um conflito de interesses que poderia ser minimizado com outro redator pegando a pauta ou simplesmente comunicando o fato ao leitor e deixando que ele faça seu julgamento. Seu xará, Erico Borgo, foi o responsável pela primeira nota sobre o assunto e também é responsável pelo site da editora, como deixa claro na seção cozinheiros do Omelete.
Não vou questionar o direito de cada um se virar como pode em um mercado cruel com seus profissionais. O que me incomoda é deixar na mão do leitor que pesquise essas conexões para descobrir que os dois redatores recebem dinheiro da editora para outros trabalhos. Até que ponto isso os atrapalha? E por que o site não divulga isso na própria nota? Não vejo problema em usarem seu espaço para isso, desde que deixem tudo às claras. Eu mesmo já divulguei coisas do trabalho por aqui e tomei o cuidado de avisar que era algo do meu interesse pessoal.
Tudo isso independe de ser ética jornalística. É uma questão de respeito com leitores, uma ética da comunicação, comum a qualquer blogueiro, twiteiro ou redator de sites. Se o entretenimento é levado a sério, não é justo com todos os leitores do Omelete que não se dê o devido respeito e seriedade a uma matéria tão importante.
Os quadrinhos nacionais precisam de menos gente passando a mão na cabeça, apertando as mãos e mais discussões, debates e lançamentos. Para isso, cada pessoa envolvida com a nona arte deve cumprir sua obrigação. Profissionais dos quadrinhos devem trabalhar em cima da realidade e não de achismos ou miragens. E pessoas que falam sobre quadrinhos devem questionar, criticar e encorajar as editoras a trazerem a inovação de que precisamos.
Não vamos conseguir isso sem fazer as perguntas que incomodem.
Bugman incomoda muita gente



