Melhores do Mundo

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Jan 19

Caraminhola #1

Lançado com o apoio do Coletivo de Quadrinistas Independentes Quarto Mundo, a revista do ilustrador Caio Yo apresenta poucas qualidades, mas como um todo decepciona. É torcer para que as próximas edições superem a original.

[Mais:]

Diversas vezes, Yo ressalta que o leitor tem a liberdade de interpretar a primeira edição de Caraminholas como ele achar melhor. Infelizmente, livres são os artistas, o leitor tem amarras muito precisas: ler, virar a página e se divertir. Ou não.

É dever do artista buscar as propostas que pode cumprir e ir atrás delas. Abrir mão disso é uma forma sutil, mas enganosa, de se proteger de julgamentos. Ressaltar a liberdade de interpretação é uma obviedade desnecessária. Até mesmo uma música do simples e popular Roberto Carlos pode ser ouvida de forma diferente se a cult Marina Lima cantar, por exemplo.

Na história Not My Own há um comentário abrindo mão até mesmo da ordem das páginas: "a história em quadrinhos que você lerá a seguir (ou que você acabou de ler, tudo é só uma questão de ponto de vista)". E se a história não acrescentar nada em qualquer ordem? Devo reler? Devo começar do meio? Ou mandar um e-mail e tirar dúvidas?

Essa frase é um misto de clichê e de engano. Se o artista não me oferece seu ponto de vista, sua visão, suas ideias, o que me faria lê-la? Por que deveria buscar quadrinhos que não buscam divertir - já que a HQ se ancora em puro experimentalismo - e nem me fazer refletir? Afinal, refletir de acordo apenas com a minha interpretação é possível em qualquer lugar. Até mesmo olhando para uma parede, literalmente.

Na última (ou segundo a "linha de pensamento" do autor a "primeira/última") página ele chega a dizer que começar a leitura por ali não é certo ou errado. "Comece a ler pela página que quiser, leia no sentido que quiser, aonde quiser e como quiser". Uma pretensão absurda de que sua revista faz sentido a partir de qualquer página. Autores consagrados não conseguiram isso. E nem mesmo procuraram.

Há até uma citação de Nietzche que parece insinuar que quem não entende essa "loucura" sofre de algum tipo de surdez ou insanidade: "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música".

É justo que o artista queira experimentar e tentar, mas não faz sentido publicar um trabalho se ele serve apenas para si mesmo. Ou, pelo menos, seria bom que o prefácio do genial Bira Dantas (de quem já falamos por aqui) deixasse claro que Caraminholas se trata de um experimento e apenas isso.

Infelizmente, é uma fórmula que já envenenou outros autores promissores. Pretensão e ousadia são atributos indispensáveis para que a nona arte evolua. Antes disso, é bom se preocupar em agradar o leitor, objetivo maior dos quadrinhos. Senão, qualquer revista vira uma coisa chata que só faz sentido para o próprio autor e seus amigos, para quem ele vai poder explicar o que estava pensando.

Apesar de ser um trabalho pífio, vale ressaltar o currículo de Yo. Participante de salões de humor com bastante sucesso, é um grande autor de charges (que são justamente a melhor parte de Caraminholas) e o grande problema da revista é justamente não parecer estar à altura do talento que ele demonstra em outras ocasiões. A arte do cara é boa, embora a qualidade gráfica do fanzine não seja das melhores. Se faltou um bom editor (e isso faz falta no mercado), dinheiro ou simplesmente bom senso, não sei. Mas certamente a lista de ausência de virtudes em Caraminholas é longa...

Nota: 2

Você pode conferir os pontos de venda da revista aqui.

Bugman espera que a Caraminholas #2 seja melhor


Bugman Email • 15:00:29 • A gente lemos, HQ nacional, já!Permalink 54 comentários
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