Quando a Liga da Justiça virou um grupo pastelão... Tweet

A DC Comics queria reformular seu mais famoso grupo (então composto apenas de heróis pouco conhecidos, como Vibro e Cigana) após a mini-série Lendas. Porém, os maiores heróis, como Super-Homem, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman (ok, isso foi piada) e o Lanterna Verde (Hal Jordan) não estavam disponíveis por causa dos arcos de seus respectivos títulos mensais.
O que fazer então?
J.M. DeMatteis e Keith Giffen (roteiro), com Kevin Maguire (desenhos), equipe responsável pelo título, criaram a irresistível Liga da Justiça Internacional, que usava os conflitos internos da equipe para criar piadas e não conflitos emos como os X-Men outros grupos da época.
Os dois redefiniram a personalidade dos personagens com foco em humor, com a exceção do Batman. O Cavaleiro das Trevas não fazia piadas nem era escrachado, mas estava sempre sisudo, o que acabava gerando momentos hilários, como:
Besouro Azul: Ei, você podia roubar o anel do Lanterna Verde! Aí, você poderia se chamar Morcego Verde... Hum, pensando bem, melhor não. É um nome tão ridículo quanto... quanto... quanto...
Batman: ...
Pegou? Pegou?

A Canário Negro deixou de ser uma pin-up com superpoderes e se tornou uma combatente entediada com seus colegas losers, sempre com um certo ar blasé. Praticamente uma Fernanda Young loira! O Lanterna Verde era representado por sua quarta versão: Guy Gardner, uma antítese do clássico Jordan. Gardner era brigão, ranzinza e uma sátira aos anti-heróis da época. Posteriormente, ele bate com a cabeça (literalmente) e sua personalidade se transforma, tornando-o um sujeito excessivamente amável. Do tipo que oferece biscoitinhos e fica com pena de bater em monstros.
O Capitão Marvel passou a ser encarado como um Super-Homem com a personalidade de uma criança ao invés de um adolescente-prodígio que se transforma em adulto. Gardner apelidou o herói de "Capitão Fraldinha". Antes desse arco, o Besouro havia sido originalmente criado para ser uma versão decenauta do Homem-Aranha, embora usasse o mesmo nome de um antigo herói da DC. Entretanto, boa parte de seus roteiristas tratou o alter ego de Ted Kord como uma espécie de Batman mais jovem (especialmente em Lendas). DeMatteis assumiu a semelhança com o Amigão da Vizinhança e o tornou muito mais engraçado do que Peter Parker. O herói ainda fez uma dupla sensacional com o Gladiador Dourado, praticamente se transformando em uma versão de O Gordo & o Magro com superpoderes. Vale lembrar também da dupla Fogo & Gelo. A brasileira aparece na capa abaixo:

Houve ainda a entrada de outros personagens, como Ajax (que nunca deixou a equipe), Doutora Luz, Senhor Milagre, Senhor Destino, Órion, General Glória, Soviete Supremo e muitos outros. A equipe chegou a ser dividida em duas: Liga da Justiça Internacional (América) e Liga da Justiça Internacional (Europa). A versão européia do grupo seria composta basicamente por: Metamorfo, Flash, Raposa Escarlate, Capitão Átomo, Poderosa, Gaio e Feiticeira Prateada.
Esqueci alguém? Até mesmo uma pouco conhecida Liga da Justiça Antártida chegou a ser criada. Quem lembra?
Toda a história começa quando o misterioso empresário Maxwell Lord passa a capitanear as ações do grupo, buscando investidores para bancar equipamentos e até salários para seus membros. Dessa forma, os heróis teriam mais tempo para se dedicar às suas aventuras... e confusões!

Vou fazer um mea culpa: nessa época, eu odiava o arco de DeMatteis e Giffen. Comprava todas as revistas da época e preferia a dose daquilo que hoje acho chato: realismo. Muitos anos depois, reli a coleção e morri de rir. Tive a chance de ler pela primeira vez os personagens com outros olhos quando Formely Known as Justice League, saga que trazia a dupla de autores e os personagens originais de volta em uma nova aventura.
Essa época coincidiu com o início do Melhores do Mundo.net e boa parte da minha inspiração para escrever nesse blog vem daquelas histórias. Até mesmo as tiras do Universo MdM sempre tiveram algo dessas HQs. É difícil pensar em paródia de super-heróis sem deixar de analisar o que a dupla fez com esses personagens naquela época.

Apesar de hilárias, boa parte das tiradas da dupla eram bem datadas, como os grandes clássicos do teatro besteirol. Aquela Liga satirizou muitos personagens, filmes e cenários da época. Hoje, boa parte das piadas poderia não fazer sentido para leitores mais jovens. Apesar disso, vale a pena ler uma história como "Querida Encolhi a Liga da Justiça", mesmo sem ter visto o filme com Rick Moranis. Mesmo que você não entenda a capa, vai morrer de rir com a paródia do Universo Marvel com os Avanteadores. E não se esqueça de ler também sobre o Senhor Nebulosa, o Decorador de Mundos.
A idéia do "internacional" no nome da equipe criada em 1987, quando o Flamengo se sagrou tetracampeão brasileiro, era que cada região tivesse uma "embaixada" com os heróis. Infelizmente, assim como Os Trapalhões, a fórmula se desgastou e a DC chegou a criar destinos bizarros e nada engraçados para seus heróis, como: morte, coma etc. Nem vale a pena lembrar disso.

A coisa mais importante que a Liga da Justiça Internacional deixou para os quadrinhos é que os super-heróis, embora sejam símbolos clássicos da cultura pop, também podem - e devem - fazer rir para entreter. Em uma época onde a ditadura não era um mal tão distante e o muro de Berlim ainda estava ali, foi indispensável saber que o bem venceria o mal. E que seria engraçado pra caramba.
Bugman curtia os Avanteadores...



