Post do Leitor #31 - Morte, RPG e Ouro Preto: o fim do caso? Tweet

O nosso estimado Poderoso Porco preparou um post sobre o caso que comentamos por aqui ontem. A visão mais técnica do cara dá mais conteúdo para rebater os ignorantes que vêem RPG como fonte do mal.
Depois de uma batalha que se estendeu por oito anos, neste final de semana chegou ao fim uma novela que deixou muita gente preocupada: os quatro envolvidos no assassinato de Aline Soares, ocorrido em 2001 na cidade de Ouro Preto/MG, Edson Poloni Lobo de Aguiar, Cassiano Inácio Garcia, Maicon Fernandes Lopes e Camila Donabela Silveira, foram absolvidos.
Bem, pode ser que você esteja se perguntando qual a relevância deste fato para os MdManos e MdMinas, ou até mesmo para o entretenimento em geral que este site aborda. Bem, há mais de um ano atrás eu abordei num post publicado no blog do Projeto Continuum, justamente esse homicídio em particular. Este caso ficou conhecido (errônea) e nacionalmente como uma "morte envolvendo o RPG". A própria UOL Notícias, refere-se ao homicídio como ocorrido num "ritual de RPG".
Qual a importância da absolvição dos garotos? Significa, logo de cara, que a tese (porcamente) defendida por delegados, promotores e a imprensa envolvida no caso é mentirosa e não se sustenta. E que tese seria essa? De que Aline morreu em decorrência de um "ritual" de RPG. Tudo bem se você não entendeu o link entre uma coisa e outra. Vou explicar melhor.
Aline Soares foi encontrada morta no dia 13 de outubro de 2001. No dia seguinte à famigerada Festa do Doze, evento que reúne as várias repúblicas estudantis da cidade de Ouro Preto (o que mais tem na cidade é república) e muitos, mas muitos turistas mesmo. A cidade fica abarrotada de gente jovem, disposta às maiores porralouquices que a idade permite (e outras não permitidas). Aline não era moradora de Ouro Preto. Do contrário, era de Espírito Santo, o que indica que fora (salvo engano com a prima Camila Donabela Silveira, uma das acusadas) para a cidade afim de curtir a festa. Até aí, nada de mais.
Elas se hospedaram na república dos rapazes envolvidos (outra prática comum à festa) e foram curtir a vida. Para Aline, pela última vez. Encontrada brutalmente assassinada no dia seguinte à festa (nua, no cemitério, os braços abertos em cruz e com 17 facadas pelo corpo), o fim de Aline mobiliza todo o (pouco) efetivo policial da cidade. Como manda a lógica e o figurino, os últimos passos da moça são refeitos. Chega-se à república onde ela se hospedara. Reviram tudo. Pelos cantos, entre livros acadêmicos, pululam livros de RPG. Aline, a prima e os moradores da república eram jogadores de RPG. Aline foi encontrada morta num cemitério, nua, os braços em cruz. RPG, vampiro, cemitério, morte com pinta de ritual, um delegado religioso além do bom senso. O resultado dessa equação é simples: Aline foi morta num ritual de magia negra ligada ao RPG. É uma "verdade" que nenhuma testemunha diz, para a qual não existe um só que seja indício direto. Só um monte de peças soltas que se juntam com as graças da imprensa mais preocupada em vender jornais do que informar¹ e de um delegado preocupado em aparecer como cidadão de bem, o último cristão. O que não se percebeu (ou talvez tenham percebido) é que essa operação matemática gera resto. Quatro jovens com a vida arruinada, milhares pelo Brasil mal vistos e evitados por gostarem de um hobby sadio.
Fazendo uma pausa rápida, é preciso deixar claro que os "milhares pelo Brasil mal vistos e evitados por gostarem de um hobby sadio" não são santos. Muito da má reputação que o RPG possui é decorrente dos próprios jogadores, que gostam de ter à sua volta uma aurinha infantil de mistério e antissociabilidade, com suas roupas pretas e caras de mau. Quem faz a fama acaba por deitar na cama.
Voltando ao curso dos argumentos, a absolvição de Edson Poloni Lobo de Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes Lopes representa a quebra daquilo que era mais frágil e forçado: se a única razão para acreditar serem os rapazes os autores do homicídio era o fato de na casa deles haverem livros de RPG e por lá Aline ter se hospedado, então eles não são culpados. Ao mesmo tempo, penso que o júri pontuou-se em sua decisão naquilo que toda a cidade de Ouro Preto sempre soube: Aline morreu por ter se envolvido com drogas.
"Mas Lucas Ed., você ficou maluco? A mãe de Aline disse que ela nunca usou drogas!", você pode estar pensando indignado. Meu chapa, é a mãe da garota! Por mais que ambas fossem próximas, ainda são mãe e filha! Vejo poucos jovens virando para os pais e dizendo: "Nossa mãe, experimentei um bagulho hoje e foi sensacional! E aquela carreirinha? Nunca tive um pique tão bacana!" E antes que você contraargumente dizendo que um amigo da garota também falou que ela não usava entorpecentes, eu já te aviso: também acredito que ela não usava drogas. Não acho mesmo que ela era uma usuária contumaz, como muitos por aí. Mas acredito piamente que, no meio da loucura que é a Festa do Doze, longe dos olhares de qualquer sujeito representante da lei social, Aline quis experimentar. Ali no cemitério, um cantinho escondido e quase sem visão, encontrou-se com alguém (pelas ruas da cidade se diz de um tal "Cigano") e com esse alguém foi experimentar, talvez um cigarrinho, talvez uma carreirinha ou uma picadinha. Desse ponto as histórias divergem. Uns acham que ela quis pagar o prazer com outro prazer, a negociata não deu certo e ela morreu. Outros creêm que tanto sexo quanto homicídio ocorreram em decorrência do frenesi causado pelas drogas. Pouca diferença faz. Em ambas as hipóteses, não há espaço para jogos de interpretação de papéis ou rituais de magia negra.
Assumir que os quatro jovens não são culpados, como o fez o júri de ouropretanos, é assumir que nessa história o RPG entrou como Pilatos no credo. É assumir que se a polícia judiciária e o ministério público estivessem realmente comprometidos com a verdade e a justiça e não com manchetes de jornais e sensacionalismos, estariam sendo julgados (e condenados!) os verdadeiros responsáveis por essa barbárie que ceifou a vida de uma jovem ainda com muito pela frente. Daqui, só posso me orgulhar de um grupo de jurados que fez a coisa certa, quando o mais fácil e vistoso era fazer o errado.
E que os RPGistas adultos e responsáveis possam enfim dormir de cabeça tranqüila, sem serem acusados de coisas que nunca fariam.
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¹ Com essa responsabilidade toda para com os fatos que os jornalistas normalmente têm apresentado, me espanta o tempão que se gastou até admitirmos que pra vender jornal não precisa-se de diploma universitário...
² Mas nem tudo está perdido. Aqui, uma matéria jornalística diferente sobre o RPG.



