Melhores do Mundo

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Jun 22

A culpa é das grandes editoras?!

Semana passada, o Change publicou o excelente post As HQs estão mortas. Será que elas estão mortas, mesmo? Se estão, quem matou? E quem viu a morte delas e não fez nada? Não consigo culpar as grandes editoras...

[Mais:]

Como de costume, a culpa sempre cai no colo de caras como o Quesada e do Dan DiDio [editores da maiores editoras de quadrinhos do Ocidente], mas não sei se os caras são os únicos culpados. Pelo contrário, quando penso no assunto me lembro logo de uma tirinha dos Malvados.



Tá todo mundo vendo os quadrinhos afundando, mas não tem ninguém fazendo absolutamente nada pra resolver... Opa! Já imagino a turma dos gibis independentes levantando-se de suas cadeiras com lapiseiras na mão preparando-se pra furar meus olhos. Podem vir, pois vocês são os meus culpados.

Culpar as grandes editoras por nada acontecer de novo no mundo das HQs pode ser sim considerado um grande absurdo. Marvel e DC têm algumas décadas nas costas e, com isso, velhos hábitos difíceis de abandonar. Quem trabalha [eu trabalho] ou trabalhou numa empresa enorme e com décadas de história sabe como é difícil pra ela se acostumar a hábitos novos. O mecanismo de funcionamento dessas empresas é outro, e cobrar dela pensamentos fora da caixa me parece o mesmo que pedir pro seu tio não mandar pra você powerpoints com as piadas da hora [de 1997] ou ensinamentos de Jesus. Pra ele, isso é o máximo e muito distante do mundo que ele viveu há 15 anos [isso não é muito, acredite]. Claro que dentro dessas empresas tem gente que pensa ou tenta pensar fora da caixa, mas isso não adianta muito quando o presidente editorial tem uns 60 anos e/ou responde a acionistas sexagenários. Acredite, isso é praticamente impossível.

A tudo isso, some mais um agravante: as editoras precisam lucrar e o risco de uma ação alternativa demais [pros dinossauros que comandam as editoras] é algo que se deve evitar a qualquer preço. Ou seja, além de hábitos ultrapassados, as editoras não podem se arriscar muito, ou cabeças rolam caso alguma coisa dê errado. Sabe qual é o resultado disso? Aberrações como as Motion Comics.

Nunca viu uma Motion Comics na vida? Não sabe do que se trata? Bem, vou tentar explicar pra você. Desenvolveram uma tecnologia [e as editoras pagaram por isso] que permite que HQs sejam animadas [sem muito esforço]. Depois de "animado", contratam um narrador que lê todos os recordatários e diálogos do gibi. Como se fosse um audiobook. O resultado é uma animação tosca, semelhante aos desenhos desanimados da Marvel dos anos 60 e personagens [masculinos e femininos] com a mesma voz. Você acha mesmo que isso é um produto fora da caixa ou trata-se apenas de uma adaptação mal feita do que já fizeram antes? E as HQs pra iPhone que nada mais são do que HQs físicas mal recortadas que não exploram nem um tiquinho do potencial do aparelho? Mas eles fazem isso... Fazem isso porque precisam dizer pro mercado que eles estão fazendo algo pra entrar no novo mundo do entretenimento, no mundo do entretenimento digital. E só.

Não esperem deles a revolução. A revolução nunca saiu das grandes empresas ou dos ricos e poderosos. Por eles o mundo seria como antes e acabou. A revolução [o pensamento fora da caixa] precisa sair da cabeça de quem tá do lado de fora do mercado. A revolução tem que começar da galera independente!

As grandes mudanças sempre saíram do underground e se antes essas mudanças limitavam-se ao conteúdo [engana-se quem pensa que Robert Crumb não influenciou caras como Stan Lee], hoje elas envolvem muito mais. HQ não é apenas papel no século XXI. O problema [é agora que reclamo dos revolucionários senhores dos gibis independentes brasileiros] é que só vejo o convencional saindo da mão dos quadrinhistas independentes. É claro que eles vão alegar que fazem o diferente, sim. Não, não fazem.

Não fazer gibi de super-heróis não significa fazer algo diferente das grandes editoras. DC e Dark Horse [pra citar duas, apenas] publicam todos os meses nos EUA gibis que fogem do mundo dos caras de roupinha colorida. Desculpa, mas publicar um gibi independente sobre um casal indie que se esbarrou numa festinha qualquer, trepou e nunca mais se viu não é revolução nem aqui, nem no Irã. É mais do mesmo. Ou melhor, é seguir a cartilha do Craig Thompson [esse, um gênio], achando que vai mudar o mercado. Não, não vai.

A revolução não está na história que você [fanzineiro] conta. Hoje, a revolução está no formato. Publicar dezenas de HQs independentes e aparecer em blogs [o MdM tem sua parcela de culpa] dizendo que quer mudar a cara do gibi no Brasil não é a solução. É masturbação. E se a cara da nova HQ brasileira é um gibi no formato tradicional [revista, grampo etc], a cara da nova HQ brasileira é a de uma senhora pagando de periguete. Um exemplo? Suzana Vieira! Isso, senhores. O que vocês fazem com tanto orgulho é uma Suzana Vieira.

Opa! Ouvi alguém gritando no fundo do auditório que os gibis independentes são publicados na internet etc e tal. Amigo, o que você faz é scan. Essa é a sua revolução?!! Você tem todas as ferramentas do mundo em suas mãos e sua revolução é um gibi independente [bem grampiadinho] e um ComicPress com suas HQs?! É, amigo, as HQs estão mesmo morrendo e ninguém está se mexendo pra impedir... Mentira. Tem gente boa buscando alternativas inteligentes.

Vocês conhecem a revista Samba?! É um coletivo com uns caras de Brasília e Rio de Janeiro que publicou uma HQ independente [a velha senhora já citada] etc e tal. Além da revista, os caras têm um blog e é no blog que os caras estão experimentando. Um bom exemplo são as Scroll down comics.

O mecanismo é simples. O scroll da página é o elemento que leva você do começo ao fim da HQ, assim como o virar das páginas em uma revista. O tempo, assim como no virar das páginas, é determinado por você. Simples e eficaz como um soco na boca do estômago. Tem gente pensando fora da caixa. Esse, no entanto, não é o único formato que os caras exploraram, caro amigo [reduzidos drasticamente depois dos primeiros parágrafos desse post]. Os caras já experimentaram um tal de YouTube, aí. Olha o resultado.

É a invenção da roda?! Claro que não, mas é um grande passo pra mudar o rumo do mercado dos gibis. Um grande passo pra se pensar em quadrinhos em formatos distintos. Esqueça o papel e o grampo e pense de verdade em outros meios. Pense que uma HQ publicada num player de vídeo [perfeito, por exemplo, pra se ler num iPhone] precisa de um editor de vídeo! Precisa de alguém responsável pela música [tri-lha-so-no-ra]. Opa, temos novas peças na engrenagem, temos novas coisas pra pensar na hora de produzir uma HQ. Temos um novo caminho pra trilhar!!! Hun, mas eles publicaram uma revista independente...

Por que os caras da Samba publicaram uma revista independente [se der lucro, paga um jantar no Mosca?] se foram capazes de trilhar por um metro ou dois o tortuoso caminho de tijolos dourados da inovação? Não sei, mas acredito que uma revista publicada legitime o trabalho dos caras... pelo menos num mundo analógico. Será? Legitimação nada mais é do que um tapinha nas costas [quero deixar claro que comprei a revista e curti o material], nada mais. O que eles fizeram e fazem de relevante não está na revista, mas no blog e no YouTube. Ali eles estão buscando alternativas, fazendo o que independentes devem fazer. Inovando!

Lá fora também tem gente buscando alternativas. Veja aqui um exemplo excelente e que se adaptaria ao iPhone [ou a qualquer outro hardware portatel] com muito mais qualidade do que um vídeo [YouTube, por exemplo].

É a revolução independente que vai mudar o mercado. Quando os independentes do mundo esquecerem o grampo e o papel e buscarem alternativas e novos formatos pras suas histórias, o mercado vai mudar. As grandes empresas [eu trabalho no braço digital de uma grande empresa de comunicação, conheço esse cenário] estão de olho nos verdadeiros revolucionários. Tentando entender a cabeça deles e absorver o que os verdadeiros revolucionários estão criando [isso quando não absorvem as pessoas, também]. O problema é que nenhuma revolução está sendo feita! O cenário, pelo menos no mercado de HQs é o seguinte: enquanto um cara mexe-se pra mudar o mundo, dezenas filiam-se ao PSTU e gritam palavras de ordem contra o sistema. Vai por mim, nem faz cosquinha.

As HQs estão morrendo, sim, e a culpa não é apenas das grandes editoras e de suas idéias fora de moda. A culpa é de quem deveria está realmente buscando fazer o diferente, mas repete a fórmula das grandes empresas. Quem busca o refúgio seguro são os que já estão no topo. Uma grande editora não vai arriscar alguns milhões de dinheiros pra fazer o diferente. Você, que tá na base da pirâmide, é quem deve buscar alternativas [Photoshop, Flash, YouTube etc.] pra mostrar pro mundo novos caminhos pra serem trilhados. Ou você prefere ser o cara que durante o afogamento das HQs coloca a mão na boca e pergunta: será que ninguém vai fazer nada?!


Falecido Ultra Email • 18:00:58 • QuadrinhosPermalink 103 comentários
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