Melhores do Mundo

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Jun 19

As HQs estão mortas

Na época da Guerra Civil, o fraco roteirista Frank Tieri escreveu um tie-in chamado Civil War: War Crimes. Na história, o Homem de Ferro pede ajuda ao Rei do Crime para usar sua rede de contatos do submundo para encontrar o então foragido Capitão América.

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Eu me lembro da revolta de nosso velho colega Spider - que até então escrevia no MdM. Ele vivia me perguntando como isso era possível! Como um herói pode se aliar ao maior criminoso dos quadrinhos?

Enfim, em 2006 nosso demoníaco camarada Hell postou o preview dessa revista, junto com uma entrevista com Frank Tieri. Esse post me marcou porque me lembro que alguém disse nos comentários que "as HQs estão mortas", pois ele era de uma época onde o mocinho batia no vilão, e não se aliava a ele.

Contei essa passagem porque, recentemente, li que o The New York Times, maior jornal dos EUA, foi obrigado a bater na porta do bilionário Carlos Slim, o empresário mexicano considerado um dos cinco homens mais ricos do mundo. E o próprio NYT disse uma vez, em um antigo editorial, que Carlos era o "barão do roubo". E, segundo o Meio & Mensagem, o veículo em 2002 era avaliado em US$ 5 bilhões - e hoje não passa dos US$ 700 milhões.

Apesar da manchete "os jornais vão morrer" ser alardeada desde o fim dos anos 90, a discussão ganhou novo rumo recentemente, quando dezenas de jornais pelo mundo fecharam ou migraram seu conteúdo para a internet. A rede mundial de computadores, aliada à crise financeira e ao amadorismo e conformismo dos grandes donos dos meios de comunicação formaram uma combinação fatal para essa mídia.

Com isso, caem o consumo e o principal: a receita publicitária.

E como isso afeta os quadrinhos? Como podemos fazer uma comparação entre esses primos distantes - mas não tão distantes assim?

Primeira ponto a ser levado em conta: a nova geração de leitores. Eles já estão sendo criados totalmente na frente do computador. A relação deles com o papel é completamente diferente da nossa... E as editoras de quadrinhos não podem contar pra sempre com os velhos dinossauros leitores como o Hell, eu, Ultra e uma pequena parte dos leitores do MdM.

O modelo das HQs (assim como o dos jornais) é o mesmo há décadas. Não há qualquer pensamento "out of the box" para reinventar a mídia e se adequar aos novos tempos.

E aí chegamos ao primeiro grande desafio: quadrinhos é conteúdo. E, desculpem-me pela obviedade, todo conteúdo precisa de um meio para ser consumido. Se a geração de hoje consome conteúdo de outra forma, já passou da hora das grandes editoras de HQs pensarem em como capitalizar em cima de novos modelos - seja online, mobile ou qualquer outro.

Por medo, por insegurança ou simplesmente por comodismo, muito pouco foi arriscado nessa área. As empresas parecem mais brigar contra a internet do que usá-la ao seu favor. Por isso, as experiências com novos formatos ainda são tímidas demais - e bem atrasadas, diga-se de passagem.


Mobile Comics, da Dark Horse - pouco investimento e reciclagem de antigas histórias

Essa demora em apostar em um novo formato tem sua consequência: a melhor forma de lucrar com esses novos modelos ainda está longe de chegar à sua mais completa definição. A Marvel até que avançou - e ainda muito timidamente. Agora mesmo passei no site da editora e ela tem sua área de Digital Comics, mas ainda com títulos limitados e em um navegador em Flash completamente tosco. Há um esquema de assinatura mensal e anual.

A Dark Horse chegou a ir mais além: disponibiliza na loja iTunes algumas histórias formatadas para iPhone e iPod Touch, mas com poucos títulos e reciclando velhas histórias, como uma do Exterminador do Futuro publicada há 11 anos!!!

Aliás, esse é um dos grandes dilemas de todos os meios impressos que tentam criar seu "braço digital". Alguns criam um modelo híbrido (gratuito para notícias corriqueiras e pagos para grandes reportagens, como o jornal O Globo)... outros somente com assinatura (como o já citado Digital Comics da Marvel).

Porém, a verdade é que as grandes empresas de comunicação demoraram a arriscar nos novos meios. E, com isso, ainda estão patinando nesta área justamente por subestimá-la nos anos 90 e início dos 00.

Aliás, por subestimar o meio digital, chegamos a mais um dos grandes problemas: a maldita bonificação da publicidade online.

Sou um profissional de marketing e amo internet. Fico revoltado quando vejo um departamento comercial vender sua publicidade online como mera bonificação de um plano comercial tradicional. Nosso país, segundo o instituto Ibope Nielsen Online, possui 44,5 milhões de internautas ativos (vejam que não estou falando de internautas com algum acesso, mas sim dos que usam a internet frequentemente). Hoje em dia, no atual cenário, não é possível ver a venda publicitária online entrar somente como bonificação de um plano comercial.

Com isso, os investimentos em publicidade online ainda não chegam nem a 10% do total da verba publicitária de uma empresa. E aí eu faço a pergunta: como uma empresa pode se tornar financeiramente sustentável no meio digital se ao menos o valoriza comercialmente da forma correta e digna? Ainda no excelente caderno especial do Meio & Mensagem de 18 de maio, Rodolfo Tourinho, superintendente do Jornal do Commercio de Pernambuco, disse que a receita do portal do jornal representa apenas 5% do faturamento do impresso (no site, um fullbanner tímido de publicidade e conteúdo fechado para assinantes UOL).

E isso porque ainda não falei do papel, que hoje ainda é um custo grande: US$ 600 dólares a tonelada - e apenas 90 dias pra pagar... fora a pressão dos ambientalistas!

Então, meu caro leitor, faço a você um convite. Primeiro, olhe os pontos abaixo:

1) Atual cenário econômico mudial;
2) Crescimento da geração 100% digital;
3) Alta resistência das empresas de comunicação ao meio digital;
4) Pouca valorização da publicidade online.

E agora faço as seguintes perguntas:

Dentro desse cenário, você vê solução em médio prazo para as baixas vendas das HQs? Você vê a Panini, que ainda encara seu atual site como um braço pobre de sua assessoria de imprensa, sobreviver mais dez anos aqui no Brasil?

O futuro é negro, pessoal. Se um novo modelo "out of the box" não for pensado logo para fazer uma transição (ou complementação) do meio impresso, não sei se nossos heróis conseguirão se safar dessa.

No mais, desculpem pelo post longo! É que me empolguei e acabei escrevendo demais.

Usem e abusem dos comentários para discutirmos mais, pois o assunto rende pra chuchu!


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