Melhores do Mundo

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Abr 30

Aonde nenhum fã jamais esteve

Cinco séries, dez filmes e um desenho animado. No ar a partir de 1966, nos EUA, a série Jornada nas Estrelas (Star Trek, no original) conseguiu nessas mais de quatro décadas um grupo extenso de admiradores, bem mais exigentes e unidos do que qualquer outro grupo de fãs de ficção cientifica poderia conseguir.

Os trekkers, como são conhecidos, possuem fama de loucos, principalmente por causa do documentário Trekkers, que mostrava os aficionados pela série como fanáticos que beiravam o surreal. Mas será que isso é uma realidade neste país?

[Mais:]

Segundo um dos fundadores do fã-clube AFERJ (Academia da Frota Estelar Rio de Janeiro), Julio Cesar, isto é algo bastante restrito no Brasil:

É muito complicado você ver isso aqui no Rio de Janeiro, por exemplo. Se alguém passar na rua com a roupa da Frota Estelar é tachado de maluco. Eu já fui e estava semi-uniformizado. As pessoas perguntaram se eu ia a uma festa a fantasia e me olhavam com desdém.

Wilton Mendonça, presidente do fã-clube FFESP (Federação da Frota Estelar de São Paulo), é mais direto:

O fã que fica um pouco fanático, a mídia gosta de pegar e distorcer as coisas. A este damos um choque de 220V para voltar o normal. Mas sempre uso as seguintes palavras: o que é ser normal? Normal é vestir uma camisa de seu time de futebol e fazer algazarra? Quando vestimos nossos uniformes estamos trabalhando sempre em alguma atividade social. O FFESP em 10 anos de existência já arrecadou e doou às entidades sociais carentes mais de 14 toneladas de alimentos. Ajudar seu próximo é ser normal ou lunático?

Ser bom com os outros é um dos lemas dos trekkers. A série transmite mensagens positivas, em que o racismo, fome, doença e preconceito não existem mais. O ser humano evoluiu de uma forma que respeita seu próximo. Então, para os fãs, gostar de Star Trek é mais que assistir a série, é também uma lição de vida.

— Gene Roddenberry (o criador de Star Trek) sempre pensava e sonhava com um mundo mais justo. Pode-se notar claramente isso em alguns filmes e episódios de Jornada nas Estrelas. Um exemplo é o filme Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato. Depois de uma guerra e de muitos humanos terem morrido, acontece o primeiro contato do homem com outra civilização, que são os vulcanos. Agora eles sabem que não mais estão sozinhos no universo, e com a ajuda disso, com crescimento, os conflitos e as diferenças humanas quase desaparecem por completo. Sinto que o objetivo da raça humana é de aprimorar a si mesmo. Pode-se falar que assim começa a saga de Star Trek — sintetizou Lucas Laynes, administrador do site Jornada nas Estrelas e presidente do fã-clube Federação dos Planetas Unidos, em Curitiba.

Possivelmente pela boa mensagem que a série passa, boa parte dos amantes de Jornada nas Estrelas começou a gostar por influência direta dos próprios pais. Lucas Laynes é um deles:

Meu pai era um amante de ficção científica em geral e gostava muito de Jornada nas Estrelas. Ele até me levou ao cinema para assistir a um filme da franquia, quando eu ainda mal sabia ler.

Henrique Gonzaga, co-fundador do AFERJ, o único entrevistado que já possui filho, disse que incentiva seu filho a gostar também. O pai trekker garantiu que seu primogênito de apenas 4 anos conhece as naves, gosta de assistir e já se interessa pelos games da franquia.

— Joga melhor do que o pai. Esse cara é bom! — disse de forma bem-humorada.

Com esse ritual de pai para filho, a quantidade de fãs de Star Trek é bastante expressiva, ainda mais considerando seus 40 anos de existência. Somando os membros dos três fã-clubes entrevistados chega-se a dez mil pessoas, o suficiente para encher o estádio do Maracanãzinho.

Mas não é só de boas ações que vivem os fã-clubes. Henrique Gonzaga contou que o AFERJ comemorou o Carnaval de forma bastante inusitada: criaram o 'Carna-Trek', Carnaval com Star Trek, em Paraty.

Além disso, eles revelaram várias histórias engraçadas, graças ao seu hobby. O próprio Henrique relembrou que desenhou o uniforme da série e levou até um ateliê para produzi-lo. Fãs do Brasil inteiro também quiseram e pediram para ele. Por isso, ele anotou todos os tamanhos diferentes que a camisa teria, mas no final a fábrica lhe entregara mais de 800 camisas com o mesmo tamanho.

Lucas Laynes também fez uma revelação bastante peculiar: todo sábado ele gravava Jornada nas Estrelas: A Nova Geração em VHS, quando era exibido no extinto canal a cabo USA, às 3h00 da manhã. Em um desses sábados, Lucas recebeu um convite intimo de uma moça para irem a um motel. Como ele não queria perder a série, nem a garota, topou, mas a levou em um motel que tivesse TV por assinatura, com seu videocassete para gravar seu programa favorito:

— Levei a garota, o videocassete e os cabos de áudio e vídeo. Consegui, com muito custo, instalar o vídeo na televisão e gravar os dois episódios. Você pode imaginar a cara dela me vendo instalar o vídeo e depois gravando — concluiu aos risos.


A QUEDA

A fidelidade de seus fãs não foi o suficiente para evitar o fracasso da franquia, causado pelos seus últimos filmes, Insurreição (1998) e Nêmesis (2002), e a série de TV Enterprise (2001–2005).

Segundo Henrique Gonzaga, Enterprise teve a segunda e terceira temporada criticada pelos próprios adoradores da série. Por causa do 11/9, o programa abandonou a exploração e diplomacia e partiu para o assunto de guerra. Havia um inimigo a cada esquina. E isso acarretou uma baixa audiência e, posteriormente, o cancelamento, apesar da quarta temporada ter sido muito boa.

— Quando ela estava começando a deslanchar foi cancelada. Mas o que influenciou isso foram as outras séries, que tinham picos de audiência, enquanto Enterprise começava a ficar interessante. Começava a ter uma boa audiência. Mesmo assim, não conseguiram convencer os executivos da Paramount, porque não conseguiam competir no horário nobre com Smallville — complementou Julio Cesar.

No caso de Insurreição, o trekker acha que o filme mais aparentava um episódio da série, além dos problemas em relação a orçamento. Quanto a Nêmesis, Julio acredita que a pouca bilheteria se deve ao fato que as pessoas ficaram com o pé atrás por causa de Insurreição e por causa da estratégia de marketing de lançarem o filme sem o nome Star Trek, somente Nêmesis.

— Não é à toa que consegui enrolar a minha cunhada para ver o filme comigo. Perguntei se ela queria ver Nêmesis e ela aceitou. Quando o filme começou e tocou a música de abertura, minha cunhada fez uma cara para mim e disse que não acreditava que eu a tinha levado para ver um filme de Star Trek — declarou em tom de brincadeira.

Além disso, os próprios trekkers já não agüentavam mais Rick Berman, antigo responsável pela franquia.
— Os trekkers odeiam Berman — assumiu Julio. E por essa razão, torciam que o produtor/diretor fosse embora da série.


O NOVO FILME

Desde 2005 não era lançado mais nada relacionado à franquia, porém, graças a nova onda de fazer remakes em Hollywood, o estúdio Paramount também decidiu contar o início da tripulação da série clássica. Star Trek (sem número, nem tradução) terá sua estréia nos cinemas brasileiros no dia 8 de maio deste ano. Mas será que os exigentes fãs vêem com bons olhos seus personagens clássicos sendo interpretados por outros atores?

— Sou suspeito a responder, pois gosto demais da série clássica — respondeu aos risos Wilton Mendonça. Já Lucas Laynes não fica em cima do muro e falou:

Para revitalizar a franquia, prefiro novos personagens, principalmente por causa da história que será contata. Personagens novos com certeza é minha preferência.

Mas assumiu que os novos atores, Chris Pine e Zachary Quinto, estão idênticos ao Capitão Kirk e ao vulcano Spock, respectivamente.

Entretanto, essas não são as únicas polêmicas do filme. Fora das telas, William Shatner, o eterno intérprete de James T. Kirk, reclamou publicamente de não ter sido convidado para fazer uma participação especial na película.

Pelo menos uma opinião é unânime: J.J. Abrams, o diretor deste novo filme, merece ao menos o beneficio da dúvida. Tudo isso graças ao seu currículo de diretor e produtor de séries de sucesso como Lost e Alias, e filmes como Missão Impossível III e Cloverfield – Monstro.

E os fãs sabem o quanto uma revitalização é importante na franquia para que novos trekkers apareçam na Terra.

— Eu não vou dizer que confio 100%, mas tenho grandes esperanças neste filme — respondeu Henrique Gonzaga de forma cautelosa.

— A idéia é bastante interessante! Mostrar a origem do Kirk, a relação dele com o pai, que também serviu em uma nave. Porém no papel é uma coisa e no filme é outra! — concordou Julio Cesar. Mas no final assumiu aos risos:

Se o filme for bom, ótimo, mas se não for, também está ótimo! Não estou me importando! Sou trekker, vou gostar de qualquer jeito!


Mallandrox Email • 17:00:30 • Cinema, TelevisãoPermalink 72 comentários
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