Watchmen - O Filme, por Hell Tweet

Nerdos desgraçados, saí do cinema e fui tomar umas cervas... Agora é 3 da matina e eu estou compretamente bêbado e escrevendo essa porra sobre o filme do Visionário Zack Snyder sobre Watchmen (ou deveria dizer Guerreiros do Apocalipse?)
A pergunta era, será que Zack Snyder, um cara que é nerd, lê HQs e sabia da importância de Watchmen pra literatura quadrinística conseguiria transformar aquela pequena obra-prima num filme condizente com os conceitos idealizados por Alan Moore?
Será que toda a riqueza metalinguística e ambiguidades apresentadas na versão de papel de Watchmen, as discussões filosóficas, políticas, econômicas e sociais apresentadas por Moore poderiam ser contidas em um filme de quase três horas?
Será que veríamos, pelo menos, o escárnio da figura dos "super-heróis" promovida pelo velho inglês, desnudando as facetas mais sombrias dos seus personagens, suas falhas de caráter, limitações, preconceitos, neuroses e todos os problemas psicológicos imagináveis, num verdadeiro estudo da natureza humana na sua forma mais baixa e amoral?
Snyder conseguiria perceber a "sátira" proposta por Moore, ao se utilizar do "slogan" difundido por Juvenal (o poeta e não o meu tio) que na Roma antiga já dizia "quem vigia os vigilantes" e criticava toda uma sociedade com uma proposta aparentemente inocente de suas escrituras (como Moore ao usar os "gibizinhos" pra fomentar discussões)?

Mas é OBÓVIO QUE NÃO!!!! E antes que comecem os mimimis, vamos à fundamentação!
Apesar de toda uma fidelidade visual conseguida por Snyder (o que não é muito difícil, pois Watchmen usa e abusa de enquadramentos "cinematográficos" em suas páginas, dando ao diretor um competente storyboard; aliás, engraçado isso, do quadrinho se apropriar da linguagen do cinema e depois o cinema se reapropriar da mesma), Snyder deixa escapar por entre os dedos todas as sutilezas e criticidade da HQ.
A introdução do filme tenta até se esforçar pra mostrar isso, mas para o público leigo aquilo tudo é muito vago, apesar de Snyder ter tentado expor as facetas problemáticas dos "heróis" de uma forma mais contundente.
Vemos a Silhouette assumindo sua homossexualidade em público, Mothman indo pro manicômio, Dólar Bill cravejado de balas e a pior de todas as faltas de sutilezas, o Comediante matando John Kennedy... Se a intenção era, já de bate-pronto, mostrar pro espectador que uma pessoa que veste uma máscara e um colante e sai pro aí combatendo o crime não é lá muito normal, Snyder falha duplamente...
Eu vi a cara de "uatarréeeeu" da platéia leiga que não entendia lhufas do que estava acontecendo na tela, primeiro porque não sabiam quem eram aqueles malucos fantasiados e segundo porque não tinham informação suficiente pra identificar as referências históricas apresentadas (como Silhouette estragando a clássica foto do marinheiro beijando a enfermeira que se tornou o símbolo do alívio do mundo ao final da Segunda Grande Guerra, ou a presença do artista plástico Andy Warhol fazendo sua obra mais famosa mudar de Marilyn Monroe pra Nite Owl).
Já pro leitor da HQ, aquilo tudo soa como superficial, pois condensa fantásticos conceitos de personalidades (e também sociais) numa sucessão de gags forçadas que chegaram ao ápice com a presença de Ozymandias ao lado do grupo Village People numa acintosa tentativa de Snyder de transformá-lo num veadinho (assim como ele já tinha feito com o Xerxes da sua versão cinematográfica de 300)... Completamente dispensável essa coisa de querer dar ao vilão uma preconceituosa característica estereotipada.

Os atores de modo geral estão bem. Nem mesmo a criticada Malin Åkerman ou o afetado Matthew Goode comprometem, mas seus personagens são os que menos lembram os da HQ... Silk Spectre deixa de ser a entediada e frustrada mulher que nunca realizou nada na sua vida por conta própria pra virar uma Desperate Housewife e Ozymandias deixa sua fleugma quase blasé e inteligência de lado pra virar um caricato vilão dos filmes do 007 de Roger Moore.
Jacke Earle Halley se torna o foco principal do filme e também ganha a simpatia do público... (foi quase uníssona a desaprovação da galera com a morte do personagem), mas era estranho ver alguém descrito na HQ como alguém de fala monótona (e por isso assustadora) falando com uma voz de Bátima, sem falar no desespero quase infantil do personagem quando é pego numa armadilha no apartamento de Moloch, contrastando com sua frieza apresentada até então.
O roteiro do filme segue uma linha Watchmen for dummies, e simplifica toda a geopolítica da HQ num simples fato de Ozymandias achar que o grande culpado pelo caos do planeta são os combustíveis fósseis... somado a isso uma birrinha pesoal com o Comediante pelo fato do bigodudo ter humilhado o almofadinha quando ainda eram todos parceirinhos de luta contra o crime.

Tecnicamente o filme é perfeito, tirando umas falseadas da CG do Dr. Manhattan e o exagero das capacidades físicas dos personagens (na luta de Rorschach e Nite Owl contra o Ozymandias, principalmente). Isso não chega a comprometer essa parte da obra e os enxertos de porradarias no meio da trama, pra acordar a galera massa véio que se desinteressa por um filme que não tenha uma cena de ação a cada 10 minutos, não fazem o filme perder o ritmo. O filme, aliás, apesar da longa duração não é cansativo, ele flui bem e você nem vê o tempo passar.
Alguns excessos visuais de Snyder também acabam enchendo o saco, como o infindável número de pinups dos personagens no meio do filme. A cada ceninha os caras fazem uma pose, deixando tudo muito fake e coreografado, perdendo completamente a naturalidade (e realidade) da cena... Acho isso meio grave, principalmente porque, teoricamente, a proposta da HQ (e também do filme) era mostrar heróis num mundo mais real possível.

Vejo muita gente por aí elogiar a coragem de Snyder por fazer Watchmen, mas também queria criticar a covardia em se ater só às obviedades da HQ... Mas talvez a culpa não seja dele, afinal pelo que vejo por aí a grande maioria dos leitores que "leram" a obra original também só se ligam nisso... Se preocupam em saber "quem é o assassino?", "quem é gay?", "quem morreu?", "quem é broxa?", "Um monstro falso? Que deselegante!!!"... E acabam nem percebendo o verdadeiro teor da HQ, a crítica social, a alfinetada econômica e, principalmente, a tirada de sarro de Moore com as próprias feridas abertas da América (como o super-americano vencendo uma guerra que a América não deu conta de ganhar).
O final do filme! Culpar o Dr. Manhattan pelas explosões e fazer os EUA e URSS se abraçarem numa corrente de paz, como se tivessem esquecido mais de 20 anos de Guerra Fria, onde o azulão era a arma suprema americana que mantina o urso vermelho dentro da toca, é insultar a inteligência do espectador...
Mas nada supera a pieguice da cena em que Nite Owl grita pela morte de Rorschach e o "pós-final", covarde, que mostra o Nite Owl batendo no Ozymandias, só pra satisfazer a sanha dos espectadores médios que certamente não entenderiam um final onde o "bandido" vence sem ao menos tomar uns tabefes...

Momento mais inusitado do filme: Quando Nite Owl ao som de "Hallelujah" de Leonard Cohen mete a piça na Silk Spectre dentro da "Archie" e o cinema todo ri sem parar (tipo quando o Santoro de Xerxes fala que não é do chicote dele que as pessoas têm medo)... fiquei imaginando se essa era mesmo a intenção do diretor.
E usando a melhor das sutilezas mooreanas e das sátiras juvenalianas eu lhes digo:
Um filmão! Nota 10!!!



