Watchmen – O Filme, por Nerd Reverso Tweet

Uma coisa é inquestionável: Watchmen é um filmão!
...Afinal, tem duas horas e quarenta minutos de duração.
Querem saber da crítica? Então cliquem aí e confiram mais uma cagação de regra, mas cuidado com os SPOILERS!
Para o bem ou para o mal, Watchmen – O Filme acabou seguindo o que esperávamos ao acompanhar todas as notícias sobre sua produção e todo o material promocional relacionado. É uma divertida obra de ação/aventura, apresentando alguma crítica aos filmes de super-heróis e um ritmo muito equilibrado (fazer um filme de 2h40min que não seja cansativo não é pouca coisa!). Mas a adaptação da HQ original é um tanto superficial e pode incomodar o fã ardoroso.
O bom ritmo é o maior mérito do filme. Mesmo com o excesso de cenas de ação com variações de velocidade, todos os personagens e situações recebem atenção o suficiente pra tornar a trama coerente. É claro que isso não foi feito sem sacrifícios, e muitos dos atributos mais interessantes da obra original, aquelas "partes sem ação" que enriquecem a HQ, acabaram ficando de fora, tirando a possibilidade de tornar Watchmen um filme mais profundo.

As mudanças mais polêmicas, a adição de sequências de lutas e as "bombas Manhattan", não incomodam por si mesmas, mas por modificações que implicam em conceitos da obra.
Os movimentos em velocidade retardada/acelerada em si são apenas uma marca visual do diretor Zack Snyder; apreciar ou não o recurso vai de acordo com o gosto do freguês. O problema é que pra tornar essas sequências mais interessantes, Snyder deu umas incrementadas nas lutas com muito uso de cabos, no estilo Matrix, e nas habilidades dos personagens. Parece que todo o elenco de heróis tem pelo menos umas 10 vezes a força/agilidade de um ser humano normal (o Rorschach lembra o Homem-Aranha em alguns momentos!). E pra mostrar que o Veidt é o fodão na hora da luta, ele é ainda mais forte/ágil/habilidoso que os outros, virando praticamente um Flash com superforça. Parece que o conceito de "um mundo com apenas um ser com superpoderes" era limitante demais para Snyder.
O final "elegante" de Snyder funciona visualmente, mas traz algumas complicações consigo. A mais óbvia é diminuir o impacto do Dr. Manhattan no mundo no início da trama e aumentá-lo no final. Ele é mostrado no decorrer da trama apenas como poder bélico; toda a evolução científica trazida por ele nas HQs é adiada no filme. A cúpula de guerra de Nixon, um dos aspectos secundários do gibi que poderia ter entrado na lista de cortes, acaba sendo constantemente mostrada para reforçar o sentido do final alterado. E, obviamente, a lince mutante Bubastis (que ficou bem bacana!) não teria razão alguma para existir, já que ela originalmente era um protótipo de engenharia genética para saber se o "monstro espacial" seria viável.
O aspecto técnico de Watchmen – O Filme é bastante competente, tirando uma ou outra escolha ruim. O que realmente chama a atenção de forma negativa é a música de Tyler Bates. Além dos instrumentais estourados cobrindo qualquer momento sem diálogo como em 300, o filme ainda utiliza um repertório de músicas extremamente batidas. A música "The Sounds of Silence", por exemplo, já está ligada ao filme A Primeira Noite de um Homem no imaginário cinematográfico. Já "A Cavalgada das Valquírias" em uma cena na Guerra do Vietnã, que só pode ser uma citação a Apocalypse Now intencionalmente engraçadinha, ficou até interessante; só que a cena em questão não deveria ter tom de humor.

A retratação dos personagens foi bastante irregular. Rorschach (Jackie Earle Haley) foi mostrado de forma bem similar à da HQ e, até pelo tempo de tela, é a coisa mais próxima que o filme tem de um protagonista. Entretanto, a única visão que temos do personagem é a dele mesmo, ou seja, "preto e branco", tornando Kovacs um justiceiro extremamente caricato. A ausência de maiores comentários sobre Rorschach feitos por outros personagens impediu que se observassem os "tons de cinza" dele, o que teria relativizado e enriquecido o protagonista.
O que mais impressiona no Coruja II é como o ator Patrick Wilson ficou fisicamente parecido com o personagem desenhado por Dave Gibbons. A interpretação, porém, foi marcada pela falta de sutileza, algo comum a vários membros do elenco. Claro que não ajudou o fato do personagem ser mostrado como um "Batman gorducho que faz sexo". A crítica aos heróis de gibi que o Coruja representa está lá, mas de forma que só deve atingir a uma pequena parcela do público. Para o resto, as caras e bocas (e poses e apetrechos) do personagem serão tão "massa véio" quanto as frases de efeito e explosões dos filmes de Michael Bay. Em vez de pensar "Esse cara patético só consegue transar com o unifome de herói, que ridículo!", provavelmente vão pensar "Com o uniforme o cara fica fodão, que legal!".
Já a grande surpresa positiva foi o ator Jeffrey Dean Morgan como o Comediante. Diferentemente do personagem original extremamente trágico com um nome irônico, o Comediante de Morgan realmente combina uma certa dose de humor negro com uma sociopatia assassina (como um certo palhaço inimigo de certo herói), roubando a cena em diversos momentos.

O Dr. Manhattan de Billy Crudup segue aquela linha de interpretação quase inexpressiva típica do Keanu Reeves, o que é muito adequado ao personagem. Mesmo que este seja um Jon mais emotivo, ele continua passando aquela sensação de "ele sempre segue a lógica, mas é tão inumano que não sei o que ele fará a seguir" que o torna tão interessante e deve fazer sucesso junto ao público que ainda não leu o gibi.
Tanto Espetral I (Carla Gugino) quanto Espectral II (Malin Akerman) são apenas razoáveis em seus papéis. Apesar de particularmente preferir que Carla Gugino fosse a segunda Espectral para protagonizar a cena de sexo, achei apropriado que ela encarnasse a primeira aventureira, até por ter formas mais adequadas a uma pin-up. Além disso, Carla Gugino nua no cinema não é exatamente uma novidade.
O grande erro do filme, em todos os aspectos, foi o personagem de Adrian Veidt (Matthew Goode). Desde o início ele é retratado de forma esnobe e afetada. Ao contrário do utilizado pelo Coruja para fins de citação/paródia, o uniforme de Veidt não tem nenhuma razão para ser feito com músculos moldados. Ao invés de um ser humano no auge das capacidades físicas e mentais tomando uma medida desesperada do tipo "os fins justificam os meios" para salvar a humanidade, temos um magrela meio "bichinha de piada" riquinho e mimado com delírios de grandeza. Para ter um vilão detestável desde o início, Snyder acabou tirando toda a ambiguidade do personagem, algo muito mais prejudicial ao conjunto do filme que qualquer mudança na ameaça final.

Além dessa péssima caracterização do vilão, o outro grande defeito de Watchmen - O Filme foi a escolha de exagerar nas cenas de ação e diminuir a presença de personagens secundários (por exemplo, o público não tem como sentir a perda de nenhum dos personagens que morre em Nova York porque não conheceu nenhum deles direito), que poderiam comentar e aprofundar os acontecimentos de forma que os protagonistas não podem.
O filme tem lá suas boas sacadas, como a sequência de créditos que resume de forma muito interessante a ascensão e queda dos heróis mascarados desde a década de 30 (geração que poderia ter aparecido mais). Os roteiristas David Hayter e Alex Tse mostraram como diversos acontecimentos e personalidades do século XX foram afetados pela presença dos heróis, uma versão pop dos anexos da HQ.
Outro bom momento é o sonho de Dan Dreiberg, a melhor sequência visual do filme. Pena que o trecho em que Manhattan relembra/revive a sua origem não foi executada de forma tão inspirada. No que poderia ser o melhor momento do filme, em que o público poderia experimentar a sensação de tempo semelhante à do Dr. Manhattan, com idas, voltas e acontecimentos aparentemente simultâneos em épocas diferentes, Snyder recorre ao velho e comum flashback em ordem cronológica. Não chega a ser ruim, mas é decepcionante vindo de alguém que se diz tão fã da HQ.

Se você é um fã de verdade da HQ, e não um "fã" como Snyder, recomendo que fique em casa, releia Watchmen e esqueça que fizeram um filme, assim você não vai se aborrecer.
Se você consegue deixar de lado o fato de que essa é uma adaptação muito superficial e ir ao cinema pensando em assistir Os Guerreirros do Apocalipse, então vá e divirta-se. O filme está longe de ser perfeito, mas é divertido, ainda mais se você for com a galera e gritar "NOOOOOOOOOO!!!" junto com o Coruja quando o Manhattan matar o Rorschach. E isso É spoiler!
Nota: 7
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