Dicas de livros: Os três mosqueteiros Tweet

Esqueça as versões condensadas que você leu na biblioteca da escola. Esqueça o filme com o DiCaprio que sua namorada te obrigou a ver. Na versão original, Alexandre Dumas foi bem mais sacana e sincero do que se pode imaginar.
Por volta de 1630, havia uma disputa de poder entre o rei Luís XIII e o cardeal Richelieu -- como você devia saber por aquela aula de história que você perdeu porque ficou até tarde vendo putaria na internet. Os mosqueteiros do rei viviam disputando com a guarda do cardeal quem era o mais fodão, e ambos os senhores aproveitavam cada vitória dos seus guardas para contar vantagem -- uma versão arcaica da disputinha de DCnetes versus Marvetes, que não leva a nada mas preenche o tempo. Duelos eram proibidos, o que não impedia que fossem marcados a toda hora. Pelo jeito, na França também tem lei que não pega.
Os "três mosqueteiros" do título não são três, mas quatro amigos inseparáveis. O livro acompanha D’Artagnan, o mais jovem, que chegou do interior faz uns dias, sô, e quer virar mosqueteiro de qualquer maneira. Ele logo descobre que não vai ser tão fácil quanto pensava. A primeira coisa que faz ao chegar em Paris é emputecer (sem querer) os mosqueteiros Athos, Porthos e Aramis e marcar duelos com os três. Por um acaso milagroso, ele não só se salva como salva os três, que por outra enorme coincidência, são amigos inseparáveis -- e o "adotam".
Cada um tem seus motivos para usar codinome (Athos, Porthos e Aramis são nomes de fantasia, que nem "Batman" ou "Wolverine". D’Artagnan é o único que usa o próprio nome). Athos é o cavalheiro por excelência, ético até torrar a paciência e com um segredo negro no passado. Aramis é o intelectual; está sempre escrevendo poemas e teses e pretende virar padre (mas como gosta de mulher, a igreja sempre acaba ficando pra depois). Porthos é um fanfarrão: torra um dinheiro que não tem com comidas e roupas finas e é obrigado a extorquir bastante suas amantes para sustentar seu estilo de vida.
Aliás, como são de famílias nobres, os quatro mosqueteiros adoram comer, beber e se vestir bem. Além disso, cada um tem um criado – que costumam castigar com bordoadas. Quem financia essa vida mole geralmente são as amantes burguesas (pois é, nobreza falida, burguesia ascendente. Vai dizer que também perdeu essa aula de história?)
Não é só isso que está de acordo com a história: uma das missões mais importantes dos mosqueteiros no livro é esconder do rei da França que sua rainha está de caso com o Duque de Buckingham, um influente e libertino inglês. Esse caso aconteceu de verdade.
Além do vilão Richelieu, há também Milady, uma misteriosa espiã/assassina do cardeal que não pára de atrapalhar a vida dos heróis, perita em se fazer de santa e manipular os outros; e Bonacieux, um burguês sem-noção com uma mulher linda que dá mole para o D’Artagnan (quase todas as mulheres do livro querem dar para o D’Artagnan).
Isso tudo (e muito mais) vocês não vão encontrar nas versões pasteurizadas. Afinal, as crianças não podem saber que existe sexo -- e que, em 1630, criados apanhavam e amantes sustentavam seus protegidos. Portanto, procure a versão integral. Não aceite imitações, a não ser que queira se entediar.

Os três mosqueteiros tem aventura, heroísmo, comédia, fanfarronice, romantismo e sexo: Alexandre Dumas não economizou nos ingredientes de efeito. Como a história foi publicada no formato folhetim (um capítulo a cada semana, publicado no jornal), é cheia de reviravoltas, para manter o interesse do público – que nem uma novela. Ou uma história em quadrinhos.
A única edição integral brasileira atual, que eu saiba, é a da Ediouro. Você também pode procurar em um sebo ou biblioteca as edições integrais mais antigas da Nova Cultural ou da Difusão Européia do Livro. Mas se você tem rinite alérgica, é melhor comprar o livro novo mesmo.
Os três mosqueteiros é um livro grande, mas não parece. Li as 700 páginas da edição da Difusão Européia e ainda fiquei querendo mais. Ainda bem que Alexandre Dumas escreveu continuações: Vinte anos depois e O Visconde de Bragellone...
Por Simone Campos
Leia um trecho da edição da Ediouro clicando aqui.
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