DC 70 Anos – As Maiores Histórias do The Flash Tweet

Sempre atrasado (como o Barry Allen), finalmente trago a vocês a resenha desse especial do Flash.
Ou melhor, dos Flashes, já que o encadernado mostra as histórias dos três principais personagens que carregaram esse nome, uma tradição heróica da DC Comics que, ao contrário do que ocorre com os imutáveis Batman e Super-Homem, foi passada de geração em geração.
Quase sempre considero frustrantes exposições do tipo "O melhor do artista Fulano" ou "O melhor da escola fulanista", pois geralmente os critérios de escolha dos tais "melhores" não batem com os meus. É sempre preferível ver a obra de um artista por inteiro, ou o mais próximo possível disso, para decidir por si mesmo quais são as melhores obras.
Então, quando a Panini Comics começou a lançar essa coleção comemorativa com "As Maiores Histórias de ...", deixei passar os primeiros volumes, até porque os encadernados são caros demais e não quis arriscar meu miserável dinheirinho neles.
Mas aí vi o volume Coleção DC 70 Anos - As Maiores Histórias do Flash e vi que, além de contar com histórias dos três velocistas chamados Flash, ainda tinha a autoria de artistas como Gardner Fox, Carmine Infantino, Mike Wieringo e Mark Waid. Então acabei morrendo numa grana e comprando o encadernado. E não me arrependi!

A introdução do volume é de Mark Waid, roteirista das primeiras histórias que li do The Flash, exatamente numa longa fase considerada por muitos como a melhor que o personagem já teve. O escritor faz um ótimo resumo da carreira do Velocista Escarlate, mostrando a importância das histórias do volume nessa trajetória.
As duas primeiras histórias mostram Jay Garrick, o Flash da Era de Ouro (conhecido por aqui como Joel Ciclone ou "Flash de panela na cabeça") e valem mais pra dar uma idéia do conceito original do The Flash, da arte e do ritmo utilizados na época. Como estamos acostumados com a descompressão narrativa típica de autores como o Bendis, as histórias do primeiro Flash parecem um tanto corridas (entenderam? Flash, corridas? Hã, hã?
), com muitas transições sendo indicadas somente por texto e muita coisa acontecendo em cada edição.
Um fato notável é a primeira e única aparição do Flash Rival na Era de Ouro, considerado o primeiro a se encaixar no conceito de Flash Reverso, que se tornaria importante na mitologia do The Flash anos mais tarde e que também copiei usei como inspiração para criar meu "codinome" aqui no MdM.

A primeira história da Era de Prata é realmente um clássico, não apenas do Velocista Escarlate, mas da própria DC. Em "O Flash de Dois Mundos", Barry Allen, o segundo Flash, encontra Jay Garrick, que ele acreditava ser apenas um personagem de quadrinhos, mas que vivia num mundo paralelo ao seu. Nesse momento, o roteirista Gardner Fox criou simplesmente o Multiverso DC, que se expandiria cada vez mais até resultar na Crise nas Infinitas Terras, cujas conseqüências acompanhamos até hoje.
E uma curiosidade pros fãs de 52 que pegaram o hábito de procurar o número mágico em qualquer lugar. Quando Barry vai encontrar o seu herói de infância, o número da casa de Jay Garrick é exatamente... 5252! PAM PAM PAAAAAAM!!!
Outros destaques nas histórias da Era de Prata (que ocupam a maior parte do volume) incluem a primeira reunião da Galeria de Vilões, a tentativa do The Flash Reverso de tomar o lugar de Barry Allen (inclusive como marido de Iris West!), e o surgimento da Terra Primordial!
Sim, aquela mesma do Supermenino, que seria a "nossa" Terra dentro do universo ficcional da DC. Mais uma vez o Flash traz uma novidade que seria utilizada muito tempo depois. Em "Fato ou Ficção?", Barry Allen se vê preso numa Terra em que ele é apenas um personagem de gibi. O ligeirinho então resolve pedir ajuda ao editor do gibi do The Flash, Julie Schwartz, para construir uma esteira cósmica e voltar para seu mundo.
O melhor dessa história é que o editor da DC ficou com uma legítima esteira cósmica em seu escritório! Mesmo após a morte de Schwartz (é, no mundo real mesmo os bons morrem um dia, infelizmente), o aparelho ainda está juntando poeira na Terra Primordial. Se algum roteirista fanático por cronologia como o Geoff Johns ainda não aproveitou esse gancho, está dando mole.

É preciso reconhecer algo em relação às aventuras da Era de Prata: elas são muito divertidas! Seja pelo abuso da física (até para um gibi de super-herói!) que chega a ofender a nossa inteligência, como nas viagens dimensionais mais fáceis que pegar um táxi, seja nos maravilhosos recordatórios pomposos e circunloquiais, com uma expressão mais engraçada que outra e nenhuma preocupação com a concisão do texto.
Querem um exemplo? Em vez de dizer "enquanto Flash persegue o Capitão Frio...", o recordatório apresenta a pérola "mas enquanto o valete da velocidade busca alcançar o facínora glacial...". E quem está acostumado a uma única antonomásia para descrever o herói ("Velocista Escarlate") cai na risada ao ver expressões como "combatente velocista", "monarca do movimento", "grande vizir da velocidade", "cruzado escarlate" e "cometa rubro". A Era de Prata é hilária!
É fácil entender por que um coroa como o Jeph Loeb idolatra os quadrinhos dessa época que leu quando moleque. Ler isso hoje em dia é como assistir a uma reprise do seriado do Bátima, é pra chorar de tanto rir. O que não justifica a nostalgia babaca de querer trazer isso para o contexto atual que é completamente diferente; o mundo é outro, os leitores são outros.
Uma interessante história longa mostra a reunião de três Flashes (Wally West aparece ainda como Kid The Flash) para enfrentar uma ameaça comum, e ainda conta com a presença de Johnny Quick, que recita a famosa fórmula 3X2(9YZ)4A para ganhar supervelocidade. O final da história é ridiculamente absurdo (e foi utilizado novamente décadas mais tarde numa história do Excalibur!).

Encerra o volume uma das melhores histórias (senão a melhor!) da fase Waid/Wieringo no The Flash. O que acontece quando a velocidade "natural" de Wally West se combina com o recurso artificial da fórmula da velocidade de Johnny Quick? O resultado é uma história em que Mark Waid começa a redefinir todo o funcionamento dos poderes dos velocistas da DC. Tudo isso com os ótimos desenhos do falecido Mike Wieringo, mesmo que ainda estivesse longe de sua maturidade artística.
Pra não dizer que o encadernado é perfeito, faltaram mais histórias do Wally Wast, que já tem mais de 20 anos como titular do uniforme, e pelo menos uma do Flash Bart Allen, só pra constar. A edição ainda traz um the button do The Flash, um brindezinho que não fede nem cheira.
Nota: 9,5.
(Flash Comics #86, 104, Flash #123, 155, 165, 179, DC Special Series #11, Flash vol.2 #91)
Formato americano, 212 páginas, papel Pisa Brite, capa cartão, R$ 22,90, distribuição setorizada, editora Panini.
PS: Procurando por imagens para o post, me deparei com esse ótimo hotsite da Panini Comics, um belo complemento para a leitura do encadernado. Nós sempre cobramos da Panini quando eles fazem merdinha, mas temos que falar das boas iniciativas também, e essa é ótima. Parabéns, Panini!



