ARGH!!! Mais um post sobre scans?! – Parte 3 Tweet

Na mais recente cagação de regra sobre os polêmicos scans, já falei sobre a relação dos scans com o mercado nos EUA e sobre a diferença para a situação brasileira e suas possibilidades.
Mas e o leitor de scans? Será que ele está matando o mercado de histórias em quadrinhos e merece ir pro inferno? Ou será que, mesmo lendo scans, ele pode ajudar as HQs a crescerem?
Cliquem aí e confiram uma abordagem humilde porém limpinha sobre o tema.
A maneira politicamente correta de lidar com os scans é óbóvia. Baixou e não gostou, apaga o arquivo digital. Baixou e gostou, compra o gibi. Num mundo ideal, onde todas as pessoas tivessem a boa vontade do Bugman e a grana do Hell, talvez fosse assim. Mas sabemos que não é o que acontece no mundo real. Muita gente baixa scans, gosta do que lê (até salva no HD ou em CD/DVD), mas não compra a revista original.
Pensando nos motivos que levam os leitores a não comprar todos os scans de que gostam, cheguei a três tipos básicos de comportamento: o "ixpérrtu" (como dizemos aqui no Rio) que sente o prazer de ler sem pagar; o sujeito que gostaria de comprar mas não pode; o colecionador que deseja conhecer novas HQs de qualidade (categoria na qual me incluo).
O "ixpérrtu" é o cara que não gasta grana com essas "bobagens" tipo cinema, DVDs, TV a cabo, CDs/mp3 ou gibis, mesmo tendo a condição financeira para adquirir alguns desses produtos (ou todos eles) legalmente. O prazer dele não está somente em ler o gibi, mas ler sem pagar, tirando onda de "malandro" e fazendo os editores e artistas de "otários". Acredito sinceramente que esse tipo é uma minoria (talvez um pouco mais significativa aqui no Brasil, por causa da Lei de Gérson), não a totalidade dos leitores, como as editoras costumam considerar. Se todos fossem "ixpérrtus", a indústria de HQ realmente iria descer pelo buraaaaaaco, como prevêem os apocalípticos do scan. Que os "ixpérrtus" morram logo e na pobreza, como diria o Change.
O segundo tipo é o sujeito fudido e mal-pago, o típico leitor do MdM. É um sujeito que rala no estágio e só consegue comer um pão com ovo no almoço porque tem que pagar a faculdade; ou que já tem um empreguinho e uma graninha bacana, mas que tem que pagar outros cursos, aluguel e o leitinho das crianças. É o sujeito que chega na banca e tem que fazer a Escolha de Sofia por não ter dinheiro sobrando pra comprar tudo o que quer. Fanboy como o Change, ele fica na dúvida entre um especial do Bátima e um gibi escrito pelo Mark Millar. Ele acaba levando o gibi do lambe-bodes. Mas será que é errado ele baixar o gibi da Morcega?

Ao contrário do que nós (metidos a) intelectuais costumamos dizer, cultura é algo supérfluo. É claro que a cultura enriquece nossa vida, nos dá uma tremenda força pra enfrentar as dificuldades do cotidiano e até nos ajuda a impressionar as gurias. Mas quando a coisa aperta e a grana encurta, a primeira coisa que cortamos são os bens culturais. Um barbeiro certa vez me disse que ele percebe rapidamente quando a economia está ruim, porque as pessoas não deixam de comer, mas deixam de cortar o cabelo. Quem costuma cortar todo mês passa a vir a cada dois meses; quem costuma cortar bimestralmente, passa a vir a cada três ou quatro meses. É um dos riscos da profissão de barbeiro: não ser algo vital. O mesmo vale para quem trabalha com cultura; se situação do país piora, você perde grana, e scan não tem nada a ver com isso.
Voltando ao exemplo do sujeito que quer baixar o gibi do Bátima, é injusto deixar ele ler o gibi sabendo que ele já gastou o quanto poderia em quadrinhos? Enquanto alguns autores de quadrinhos acham que qualquer leitura de sua obra sem pagamento é um roubo (nesse caso, não posso nem emprestar um gibi pra um amigo), outros consideram que a leitura não-paga (seja em scans, revistas emprestadas ou leituras em bibliotecas) ajuda a disseminar a obra, alcançando possíveis compradores no futuro, como já foi falado aqui. No caso do estagiário comedor de pão com ovo, ele manda o scan da Morcega por e-mail pra um colega de faculdade, também estagiário fudido, que gosta tanto que resolve deixar de comprar um gibi meia-boca escrito por Jeph Loeb e passa a comprar o do Bátima.
Um colecionador de gibi enfrenta diversos problemas. O mais obóvio é a falta de espaço. A não ser que você more em uma mansão, uma hora o espaço acaba. Então, a quantidade de revistas que você possui é limitada pela física. Outro problema é a falta de grana. A não ser que você seja filho do Silvio Santos, você não poderá comprar todos os gibis, nem que quisesse. A partir desses dois surge um terceiro problema; se meus recursos físicos e financeiros são limitados, preciso escolher bem o que vou comprar. E o scan é uma ótima ferramenta para essa escolha.

No começo, as revistas em quadrinhos eram algo descartável; as pessoas compravam, liam e jogavam fora. Há algumas décadas já não é assim. Hoje os quadrinhos são um produto cultural colecionável, inclusive com edições em acabamento luxuoso que são tratadas como um tesouro cultural pelos colecionadores. Por mais que ainda existam (muitos!) gibis com historinhas descartáveis do tipo "quem matou?" (vide Jeph Loeb), para quem coleciona o que importa são as histórias de qualidade, que pedem várias leituras e que despertarão a vontade de reler mesmo depois de vários anos.
Para quem pensa assim, não há nada melhor que os scans para avaliar a qualidade de uma HQ. Se for ruim, apagamos; se for boa, guardamos o arquivo digital no HD e ficamos de olho nos futuros lançamentos daquele(s) autor(es); se valer realmente a pena ter na estante, compramos.
Nos dois últimos exemplos, apesar das diferenças, o critério de compra foi o mesmo: a qualidade. Essa é minha recomendação para os leitores: usem o scan para melhorar suas escolhas de compra, MAS COMPREM. Cada um compra o que sua condição (espacial, financeira, existencial) permitir, MAS COMPREM. Só assim vamos conceder reconhecimento ao trabalho dos nossos artistas favoritos e ainda ajudar o mercado dos quadrinhos, e só dessa forma a nossa opinião será considerada.
É através da compra de um produto cultural que nós demonstramos a nossa aprovação por aquele material e é a partir daí que os produtores de cultura (editoras, gravadoras, estúdios) vão selecionar os novos materiais. Como já disse várias vezes o nosso amigo Joe Quesada, se os leitores reclamam dos rumos de um gibi, mas o gibi vende como nunca, pode apostar que a Marvel continuará seguindo aquele rumo. A indústria cultural é antes de tudo indústria e nosso dinheiro vale mais que nossas opiniões.
Resumo da ópera: qualidade, qualidade, qualidade. É o que temos que ter em mente ao escolher nossos gibis, é no que as editoras e artistas precisam pensar ao produzir gibis. Se cada um fizer a sua parte, podemos utilizar os scans de forma ética e ainda ajudar o mercado de HQs.
Concordam? Discordam? Vamos discutir nos comentários. Mas civilizadamente, por favor. Ou o Hell vai dar uma voadora em cada um de vocês!
A seguir: o que as editoras podem fazer?



