Melhores do Mundo

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Out 28

ARGH!!! Mais um post sobre scans?! – Parte 2

Na primeira parte dessa nova discussão sobre scans, falei sobre o meu conceito de pirataria e scans (que podem ou não ser uma ferramenta de pirataria) e sobre como os scans interagem com a indústria de HQ nos EUA e de que forma afetam aquele mercado.

Agora vamos deixar os vizinhos de lado e vamos falar do que acontece em nosso próprio quintal. E que venha a polêmica!

[Mais:]

Aqui no Brasil, a produção de scans é bem mais pulverizada que nos EUA. Até existem grupos de scan (com uma abordagem um pouco diferente), mas temos muitos casos de pessoas que simplesmente resolvem digitalizar suas coleções e disponibilizar pra quem quiser baixar na internet. Muitas dessas pessoas conseguiram divulgar seus scans graças a um cara de nome estranho: Eudes.

Sendo mais um blogueiro vagabundo, certo dia Eudes resolveu, sabe-se lá por quê, colocar scans em seu blog, o hoje famoso Rapadura Açucarada. Com o tempo, o blog foi ficando conhecido exatamente pelos scans e se tornou uma espécie de central divulgadora de scans nacionais, seja de grupos organizados, de indivíduos que escaneavam gibis por conta própria, ou mesmo de autores nacionais que queriam divulgar o seu trabalho.

Antes de falar mais do RA, vamos falar um pouco mais sobre os grupos de scan. Diferente do que os gringos fazem, os grupos nacionais não costumam digitalizar as revistas, já baixam os arquivos feitos por outras pessoas. É um tipo de "scan de segundo grau". Cabe aí a crítica de que os gringos pelo menos pagaram pela revista que escanearam, enquanto os brasileiros nem isso. Não que o trabalho dos brasileiros seja menor; eles traduzem, adaptam e refazem a imagem do arquivo, colocando o texto em português no lugar do texto original. Sendo um trabalho amador, a qualidade do resultado final varia muito.

O primeiro grupo de scan que conheci (cujo nome infelizmente não lembro) traduzia somente mangás. O trabalho dos caras era admirável, pois além de traduzir direto do japonês (o que é muito mais difícil que traduzir qualquer gibi ocidental), eles tinham um "código de ética" bastante claro. Eles produziam somente scans de gibis que ainda não tinham versão oficial no Brasil. O objetivo era apresentar os bons mangás (atuais e clássicos) que ainda não haviam chegado por aqui e assim aumentar a base de fãs daquela série, o que garantiria boas vendas caso o mangá fosse vendido aqui (aquela teoria do boca a boca). No momento em que uma editora confirmava o lançamento do mangá por aqui, o grupo anunciava (e comemorava) o fato e simplesmente deixava de compartilhar o arquivo.

Outros grupos trabalham somente com os principais lançamentos da Marvel e da DC, justamente o material que a Panini publica por aqui. Desconsiderando momentaneamente qualquer questão ética, acho isso uma tremenda perda de tempo. Os caras do DCP escaneiam "tudo", não apenas os principais, mas todos os lançamentos, gibis antigos, independentes, enfim, o que chegar na mão deles. O número de colaboradores permite essa abrangência. Os grupos daqui, entretanto, são bem menores e acabam dando prioridade aos sucessos de venda lá dos EUA, unicamente para permitir que o leitor tenha acesso ao gibi o quanto antes. Acho que eles poderiam deixar o material "garantido" pra Panini e só escanear depois de lançada a versão nacional, por exemplo, dando prioridade ao material de qualidade que não chega aqui, como o citado grupo de mangá fazia. Porém, não dá pra negar a utilidade dessa escolha de material para o efeito "ler antes pra não comprar porcaria" já mencionado lá na primeira parte.

Voltando ao Rapadura Açucarada, conheci o blog mais ou menos na mesma época em que conheci o MdM. Fui leitor e comentarista assíduo dos dois sites, mas colaborei lá antes de colaborar aqui. Na época, o Eudes conseguiu mobilizar uma galera (outra vantagem do RA como "pólo concentrador" de scans) para fazer uma versão digital nacional de Preacher. Pra quem não sabe, a série Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon, teve uma publicação conturbada aqui no Brasil, pulando de editora pra editora, o que fez com que a série reiniciasse algumas vezes e nunca fosse concluída. O pessoal do RA escaneou o que já existia e começou a traduzir as edições inéditas por aqui. Como já havia lido tudo em inglês, vi que a qualidade da tradução/adaptação poderia melhorar e entrei no barco também como tradutor. Deu um tremendo trabalho, mas valeu a pena por dar a vários fãs de Preacher no Brasil a oportunidade de ler o final da série depois de muitos anos de espera.

Outro caso pessoal relacionado com o RA ocorreu com Sandman. Sendo muito novo no início da publicação de Sandman pela Globo (acho que na época nem Xis-Méin lia ainda, tava no Zé Carioca e Tio Patinhas), não acompanhei o sucesso da revista por aqui. Apesar de sempre ouvir falar da série, nunca tive interesse em buscar por ela em gibiterias. Quando vi Sandman disponível pra download, resolvi baixar as 10 primeiras edições. Apesar de achar interessante, a ponto de continuar lendo, não vi nada demais até a edição #8, com a história "O som de suas asas". Ali decidi que essa seria uma revista que valeria a pena comprar e decidi baixar o resto das 76 edições, lidas nos três dias seguintes.

Anos depois, tenho os dez volumes dos encadernados da Conrad, um gasto de mais ou menos R$ 550 em gibi que não teria sido feito caso não fossem os scans. Também pude utilizar os arquivos digitais para anexar algumas páginas do gibi em uma monografia que teve as HQs como tema, algo que não poderia ter feito se tivesse apenas o encadernado. Ou será que algum de vocês estragaria um encadernado de luxo forçando ele dentro de um scanner? (O Eudes faz isso – até com gibi importado – mas ele é maluco!)

Conclusão da ladainha: além de vantagens e desvantagens similares às dos EUA, os scans apresentam características próprias no contexto brasileiro. O principal benefício é divulgar material inédito por aqui, muitas vezes incentivando a futura venda do gibi no país. Mesmo que em alguns casos a publicação antecipada dos scans prejudique os números finais de venda (o que é difícil de mensurar, como explicado na primeira parte), acredito que, a médio e longo prazo, as vantagens da divulgação da revista superam as desvantagens.

Concordam? Discordam? Vamos discutir nos comentários. Mas civilizadamente, por favor. Ou o Hell vai dar uma voadora em cada um de vocês!

A seguir: um código de ética para os leitores de scans.


Nerd Reverso Email • 18:00:09 • Quadrinhos, EspecialPermalink 125 comentários
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