Melhores do Mundo

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Out 21

O Garoto Verme

Este fim de semana fui à livraria do Unibanco Artplex, aqui do Rio, para comprar o livro A Força da Vida, do Will Eisner. Quando estava pra sair, fui dar mais uma última olhada na parte de gibis da loja quando vi um mangá chamado "O Garoto Verme".

[Mais:]

Fiquei hipnotizado pela capa, que era extremamente perturbadora: um verme gigante devorando um cadáver de uma criancinha. Veja abaixo a ilustração:

Não conseguia tirar o olho daquela bizarrice. Na hora levei para o caixa... tinha que ver sobre o que se tratava aquele gibi de capa tão perturbadora.

Cheguei em casa e li tudo de uma vez só. Vamos à história.

O mangá conta a história de Sanpei, um moleque nerdzinho bem solitário e bizarro, daqueles incompreendidos que vivia sendo perseguido na escola. Ninguém - nem mesmo a mais gordinha das garotas do colégio - gostava dele, seja por sua bizarra aparência ou pelo seu estranho gosto por animais nojentos, como lagartas, vermes, cobras e outros insetos. Além disso, sua família o odeia e o moleque é constantemente comparado a seus irmãos mais bem sucedidos.

Bem, não vou contar como isso acontece, mas o moleque vai, aos poucos, se transformando em um verme. Em uma metamorfose que embrulha até o mais resistente dos estômagos.

Sim, se você pensou algo do tipo "porra, isso é um mangá do livro A Metamorfose, do Kafka", eu lhe digo que pensei a mesma coisa no decorrer da leitura.

Mas não é.

Quer dizer, o mangá é descaradamente inspirado do Kafka - o lance do moleque se transformar em um inseto e a forma detalhista e grotesca da narrativa do mangaka Hideshi Hino (assim como a narrativa do Kafka) é tão parecida que não pode ser simplesmente cópia.

Enfim, mas o gibi não pára por aí. Ele é meio que um "Kafka com continuação". Tipo, sabemos como era o moleque antes, como foi sua mutação aos poucos e o que aconteceu com ele quando virou inseto de uma vez (e é nessa parte que a maioria do mangá se desenvolve).

É muito foda ver o Garoto Verme saindo de casa, lidando com a civilização e transformando aos poucos sua consciência humana em animal. Hideshi Hino faz essa passagem com maestria, ao mesmo tempo que reforça a teoria do pêndulo da infelicidade de Schopenhauer por todas as páginas do gibi.

No começo estranhei bastante os traços deformados de Hideshi, mas pesquisando sobre o autor pela internet, descobri que ele é mais um dos mangakas influenciados pelo Japão pós-guerra. Por isso seus personagens parecem aberrações genéticas... por isso as milhares de referências às bombas atômicas espalhadas
pelas páginas.

O Garoto Verme começou como mais uma obra que parecia ser uma releitura de Kafka e, posteriormente, se mostrou um dos melhores (e mais belos) contos de terror que já vi em um mangá.

Pode comprar que vale a pena.

Nota 10!


O Garoto Verme
de Hideshi Hino
Editora Zarabatana Books
210 páginas
R$ 25,00


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